vento sul

Ouvi dizerem que o vento sul que venta em Vitória não sopra da mesma maneira em nenhuma outra cidade do mundo. Seu movimento guarda a melancolia dos domingos de inverno, mas também a leveza do descanso e a imensa possibilidade dos recomeços, limpar o céu com sua força, inspirar palavras com a tristeza que prenuncia, dispersar os maus presságios que insistem apesar da fé.

O vento sul que venta em Vitória como dizem que em nenhuma outra cidade do mundo suaviza as ausências com o som delicado de suas andanças, ameniza medos com sua força e acalma a mente, como fosse não apenas o movimento do ar em relação à superfície terrestre com variações de velocidade e direção, mas também um pequeno teco de esperança, uma canção em tom maior, um abraço com o braço mais firme de todos, a Crônica Otimista do Instante que Passa.

O vento sul reacende os passeios de bicicleta, os desenhos feitos à mão, o cheiro do feijão que a avó preparava para quando chegássemos da escola, a infância, a rua, a saudade. Há quem defenda ainda que ele amadurece as colheitas e encoraja a entender o que realmente importa, ficar próximo do que nos emociona e dispensar o resto, como o goleiro na hora do pênalti, a bordadeira no momento do arremate ou as crianças que naquela tarde brincavam alheias a quase tudo.

[Elas ainda não sabiam da saudade ou do sufoco, da descoberta de um amor novo ou da possibilidade de consertar o antigo, da amargura do tempo ou da tragédia que é ter dor de cotovelo. A única urgência que alimentavam era aprender as regras do Uno, o joguinho inventado nos anos 1970 por um barbeiro que precisava distrair os filhos e tudo resolvido].

Depois do vento sul, amadurecidas as colheitas e a vida outra vez tomada pela leveza dos começos, pela fé no movimento e pela esperança em dias melhores, é hora de entender o tempo, investir na capacidade de superar as adversidades, suavizar antes da explosão, reduzir as expectativas, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém.

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idade

Há algum tempo, quando ainda frequentávamos o Bar do Simpson, meu amigo perguntou onde estariam as pessoas da nossa idade. Ouvíamos rock, mas talvez fossemos tão antigos e deslocados quanto o delicioso vinil de Frank Sinatra que embala as primeiras linhas deste texto; líamos Aldous Huxley, Herman Hesse e Charles Bukowski, mas tanto As Portas da Percepção quanto O Lobo da Estepe ou os contos de A Mulher Mais Linda da Cidade pareciam confinados a outra época, outro espaço, outro momento.

Queríamos aventura e estabilidade, endereço fixo e liberdade, vida de funcionário público e conta bancária com participação nos resultados, amor e desapego, segurança e frio na barriga, sol e brisa, risco e sono tranquilo, como se fosse possível ter um e outro e todos na mesma vida, no mesmo beijo, no mesmo endereço, no mesmo dia. Tínhamos mais de mil perguntas sem resposta, mais de 20 anos, mais de 20 muros, raízes na marquise, calma inventada, contas contadas, cores, colírios e delírios, exatamente como na canção.

Ontem de manhã quando acordei, olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de 20 anos.

Os amigos estavam de alguma maneira distantes. Dois ou três ainda faziam aviões de papel, usavam Havaianas em dias úteis, amavam como crianças, dormiam até o meio-dia e comiam pizza no café da manhã. Achávamos que eram felizes, porque talvez estivessem ainda no tempo em que era possível amar sem amarras, comer sem culpa, viver sem fígado e sem sapatos desde que houvesse vinho e violão, jogar sinuca como se não existisse mais nada, nem dor nem perigo nem luz pra pagar nem reunião de trabalho; nada.

Os outros estavam no supermercado ou na igreja, meu amigo dizia, aumentando as medidas da cintura e dos quadris, ou mudando pro leste, ouvindo A Arte da Fuga, cuidando dos filhos recém-nascidos ou dos maridos recém-fisgados, talvez, ou assistindo ao canal do tempo na televisão. Achávamos, com um bocado de pretensão, até, que eles viviam as mudanças sem pensar nas contradições, no fim de determinados ciclos, no início de outros, nas transformações de um mesmo olhar sobre uma mesmíssima coisa e ponto final.

Andávamos [ou, ao menos, pensávamos que sim] entre os dois ou três e os outros. Tínhamos trabalho e canções, divagações e necessidades, dispersões e obrigações, um pouco de tudo e um monte de nada, Havaianas no supermercado mas sapatos no resto dos lugares, fígado estragado duas vezes por semana mas agenda cheia no resto dos dias, pizza no café da manhã mas carro quebrado, luz queimada e IPTU atrasado na sobremesa.

Em noites como aquela, íamos ao Centro e perguntávamos, a certa altura de copos e garrafas, onde estariam as pessoas da nossa idade. Por alguma razão que não conseguíamos explicar, incomodava ter de um lado os meninos e meninas despreocupados e desapegados que um dia havíamos sido e, do outro, os homens e mulheres que seríamos dali a alguns anos, com três ou quatro fios de cabelos brancos e uma ruga entre os olhos um tanto mais tristes. Àquela época, as rugas que carregávamos eram outras.

sonhos

Então fomos ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar. Pensei por um momento que estávamos gastando à toa uma rara manhã sem cartão de ponto, e que havia faxina pra fazer, supermercado pra comprar, bronze pra pegar, sono pra pôr em dia, armário pra colocar ordem, papéis pra jogar no lixo, poeira pra tirar e uma penca de outras obrigações supostamente mais urgentes do que ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar.

A casa ficava na Cidade Alta e custava pouco para o seu tamanho. Uma boa reforma, uma senhora limpeza, duas cadeiras na varanda e meia dúzia de boas ideias talvez bastassem para transformá-la num centro cultural com livros pra emprestar, palco pra tocar samba e rock, fogão pra cozinhar macarrão, parede pra pendurar quadros, e num passe de mágica O Livro do Riso e do Esquecimento, a banda dos novos amigos, a receita daquela tarde e um original do Daniel Senise ocupariam estante, microfone, prato, parede, biblioteca, varanda, cozinha, sala, a casa toda.

Àquela altura, parecia perda de tempo sonhar com qualquer coisa que não fosse pagar as contas, entregar os textos dentro do prazo, abastecer minimamente a despensa ou dobrar a pilha de roupas que brotavam do pufe amarelo. Acontece que não era. Casa, quadro, macarrão, estante, microfone, prato, parede, O Livro do Riso e do Esquecimento, Daniel Senise, banda, biblioteca, varanda, cozinha, sala, mágica, receita, samba e rock eram qualquer coisa, menos perda de tempo. Eram sonho.

Sonho, que o dicionário em determinado momento define como sequência de ideias soltas e incoerentes às quais o espírito se entrega, é aquela casa ajeitada com a gente dentro, é um sofá novo pra rever os DVDs do Chaplin durante os dias de vento sul, é a Amy Winehouse cantando sóbria no Brasil, é a certeza de um futuro que ninguém sabe direito o que reserva, é a esperança de que hoje à tarde as coisas vão voltar a ser como antes, é a trégua das insônias que pesquisadores da Universidade Duke disseram nesta semana que aumentam risco de doenças cardiovasculares nas mulheres.

[Que medo].

Sonho é a volta de um antigo amor ou a chegada de um novo, é justiça, liberdade e política decente, é ar puro e nunca mais sofrer de rinite, é música o tempo todo, bolinho de doce de leite com Coca Cola, amigos de verdade, uma casa numa ilha sobre o mar, o sol, o desapego e a digestão das coisas que fazem o estômago doer, é um anjo da guarda por perto, um carro limpo, revisado e sem bancos que decepem os dedos, é acordar sem despertador depois de quantas horas forem necessárias; é tanta coisa que coloca faxina, fogão, supermercado, conta, lixo e o mundo inteiro no chinelo.

Sonho talvez seja ser um pouco criança às vezes, porque os anos, as planilhas e as tarefas nos obrigam a parar de imaginar, e é preciso cuidar disso, manter um troço de nome estranho que descobri estes dias numa revista: NEOTENIA, capacidade de um animal de manter, na idade adulta, características típicas de sua forma jovem, sejam elas as brânquias externas das salamandras ou a vontade de aprender, a mania de rir e o hábito de se encantar até diante das coisas mais simples dos seres humanos, alguns deles, não todos. E então – Eduardo Galeano tem toda a razão – não haveria noite que não fosse vivida como se fosse a última, nem dia que não fosse vivido como se fosse o primeiro.