melhor nem pedir

Anúncios

dialética

Dialética. Substantivo feminino. Lei que caracteriza a realidade como um movimento incessante e contraditório, condensável em três momentos sucessivos (tese, antítese e síntese) que se manifestam simultaneamente em todos os pensamentos humanos e em todos os fenômenos do mundo material. Conflito originado pela contradição.

Perguntei se as coisas iam bem e ela fez silêncio, não porque faltasse tempo, senso ou oportunidade, mas porque simplesmente não sabia. As coisas iam bem? Tendia a acreditar que a pergunta era verdadeira, honesta, e talvez por isso fosse preciso responder da mesma maneira, sem retórica, etiqueta ou cerimônias, sem amarras, afetação ou excesso de zelo.

As coisas iam bem?

Pensava que sim, porque tinha uma casa confortável, um salário suficiente, um futuro de promessas razoáveis e, não fosse o telefone, que tocava exageradamente, de segunda a sexta, das nove às dezessete, um bom lugar para passar oito ou dez horas de seu dia, a cada dia, até que fosse tempo de gastar o dinheiro do plano de aposentadoria privada.

Tinha um homem de mãos suaves e olhos límpidos, plenamente adaptado às impaciências dela, seus apegos e ações, e ele abraçava com um misto de firmeza e doçura, embora fosse do mesmo modo cheio de imperfeições, impaciências, apegos e ações. Tinha também uma família comovente, feita de manias e, apesar de tudo, do afeto de uns pelos outros.

Tinha ainda amigos, novos e velhos, dos quais devia cuidar melhor, porque às vezes escorriam pelos dedos; precisava alimentá-los direito, ouvir o que diziam, passear pelo shopping e experimentar os vestidos da estação como se fossem únicos e indispensáveis. Tinha livros e canções, uma casa cheia deles, por entre as lembranças. As coisas, afinal, iam bem?

Ela pensava que sim, que talvez sim, que podia consentir diante da pergunta estalada daquela noite de domingo, podia dizer que as coisas iam bem, porque tinha trabalho, amor, família, amigos, música, vento, shopping, dedos, prato, creme, telefone, dinheiro, tempo, abraço, lembrança, casa, aquilo tudo o que havia. As coisas iam bem, afinal?

Pensava em dizer que sim, mas não disse, impedida pelo intenso, frequente e comovente vazio que talvez apenas o poema explicasse, o poema com nome de substantivo feminino, movimento incessante e contraditório, condensável em três momentos sucessivos [tese, antítese e síntese] que se manifestam simultaneamente nos pensamentos, e nada mais:

– É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que sou triste…

da série leituras

RECADO DE PRIMAVERA
Por Rubem Braga, setembro de 1980

aspasMeu caro Vinicius de Moraes

Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.

O sinal mais humilde da chegada da Primavera vi aqui junto de minha varanda. Um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico. Ele está fazendo ninho numa touceira de samambaia, debaixo da pitangueira. Pouco depois vi que se aproximava, muito matreiro, um pássaro-preto, desses que chamam de chopim. Não trazia nada no bico; vinha apenas fiscalizar, saber se o outro já havia arrumado o ninho para ele pôr seus ovos.

Isto é uma história tão antiga que parece que só podia acontecer lá no fundo da roça, talvez no tempo do Império. Pois está acontecendo aqui em Ipanema, em minha casa, poeta. Acontecendo como a Primavera. Estive em Blumenau, onde há moitas de azaléias e manacás em flor; e em cada mocinha loira, uma esperança de Vera Fischer. Agora vou ao Maranhão, reino de Ferreira Gullar, cuja poesia você tanto amava, e que fez 50 anos. O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui — a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.

paralelos [ou uma crônica depois daquele poema]

Sou geralmente mais da noite que da manhã, mais do ar que do peso, mais do silêncio que da pressa, mais de prosa que de poema. Sou sempre que possível de perdão mais que de mágoa, mais de abraço que de distância, mais de perguntas que de qualquer coisa. Sou quase todo o dia mais de tempo que de espaço, mais de movimento que de pedra, mais de canção que de qualquer coisa. Sou de chorar diante da beleza, e do mesmo modo pelas injustiças que cometem ou cometo, eu mesma.

Gosto de letras mais que de números e de matemática menos que de Charles Chaplin. Gosto de nós dois, mais que muito. Gosto de salada e Coca Cola, para a surpresa dos outros, tanto quanto de reaprender a lição dos peixes em seu vaivém constante, sem medo da morte ou coração partido, sem tarefas por entregar ou vontade de desistir, sem raiva, pena de si mesmo, pessimismo, pensamentos malvados, dor no cotovelo, culpa ou rancor, apenas cumprir a tarefa de ir de um lado para o outro com leveza e simplicidade e depois voltar.

Sou de Aquário, ascendente em Câncer.

Tenho geralmente mais dúvidas que disposição para ginástica, mais trabalho por fazer que fé em certos tipos de homens e mulheres, mais mania de rir à toa que preconceito, mais medo dos vivos que da maioria dos mortos. Tenho menos vaidade do que curiosidade em entender o que aproxima e o que separa a humanidade em um planeta de sete bilhões de habitantes, o que une e o que separa brancos, pretos, amarelos ou vermelhos, os felizes dos tristes, os sábios dos egoístas, os humildes dos impacientes, os imprescindíveis dos outros.

[A ausência eu sei que afasta, buraco, silêncio, vazio. Os encontros, do contrário, aproximam, momento inesperado, figurino impróprio, endereço improvável e a paz de quando você não tem expectativas e, de repente, acontece. A mentira afasta, e nada mais precisa ser dito. As vontades aproximam, desejo, tesão, escolha e a versão lindíssima em que Gal Costa, violão no colo e flor na cabeça, canta que o corpo está acostumado.]

Sou mais de música do que de briga.

Gosto daquele poema que há a respeito dos mundos inexistentes, em especial a parte da pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança. Tenho esperanças, até quando não devia, e na mesma proporção acredito na perfeição da intimidade com o silêncio. Sou daquele poema mais que de dissimulações, a comunhão com os sons, a angústia do tempo, a lenta decomposição poética em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius de Moraes.

Tenho tido felizmente mais alegrias súbitas do que males ao ouvir passos na noite que se perdem sem história, mas menos distração, disponibilidade e vagueza do que gostaria. Gosto daquele poema mais do que de determinadas faltas, o poema que há a respeito do constante esforço para caminhar no labirinto, o eterno levantar depois de cada queda, a busca do equilíbrio, a terrível coragem diante do grande medo, o medo infantil de ter pequenas coragens, por fim.