das voltas que a vida dá

A vida dá voltas do jeito mais doido possível. Basta uma decisão errada e – catapluft! – as coisas saem do lugar de um modo que parece que nunca mais vão voltar para o endereço de origem.

No fundo a gente sabe que um dia tudo se ajeita, mas na hora, na hora, não. Na hora, o buraco esfrega seu tamanho na cara da gente de uma maneira tão vigorosa que falta tudo: chão, esperança, equilíbrio, tudo, até o ar.

A gente só respira porque sabe que precisa, como aprendeu, por puro instinto de sobrevivência, desde mais ou menos a décima oitava semana da existência. Respira e vai, colecionando dias e respectivas noites como Florentino Ariza em sua longa espera por Fermina Daza – cinquenta e três anos, sete meses e onze dias, para ser exato como o grande Gabito em sua inesquecível saga de encontros, desencontros e reencontros.

De repente, uma ou outra inspiração acenam de longe, depois se achegam um pouquinho mais. A respiração fica ligeiramente mais leve, o buraco aparenta ser algum tanto menor. Um pé depois do outro, a gente levanta e anda, como na canção: sonhar, seguir.

🎶 [Eu sei, cansa].

Um pé depois do outro, levantar, andar, sonhar, seguir, como na canção, a gente reaprende que a vida dá voltas e, de repente – catapluft! – as coisas se ajeitam e tornam a ocupar seu lugar de modo que parece que sempre estiveram ali. A vida dá voltas do jeito mais doido possível.

efeito borboleta

Pode um minuto que seja mudar o rumo das coisas todas? Os desfechos estão escritos ou a vida vai sendo tecida conforme correm os anos em seus meses e os meses em seus dias e respectivas noites? Somos marcados para protagonizar esta ou aquela experiência ou as cenas se constroem conforme instrução divina?

Pensávamos nisso diante da tragédia anunciada pela emissora de televisão: 71 dos 77 passageiros do Avro Regional Jet 85 colombiano estavam mortos, um time inteiro de futebol dizimado a uma hora de seu destino, às vésperas da final do campeonato.

Perguntávamos de nós para nós mesmos o que teria havido se o chute defendido pelo pé direito do goleiro no último minuto do último jogo tivesse desfecho oposto. O que teria havido se aquele gol fosse consumado? A resposta evidente mexia mais com o nosso fígado do que as doses de Jim Bean sem gelo que acompanhavam a conversa. Outro time jogaria a final, outro time estaria no avião, outro time que não aquele, inteiro dizimado a uma hora de seu destino, às vésperas de vocês sabem.

A teoria do matemático Edward Lorenz voltava oficialmente a nos assombrar.

Em 1963, nenhum de nós havia ainda nascido. O pesquisador norte-americano, por sua vez, já trabalhava com previsões meteorológicas nos laboratórios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. A certa altura, Lorenz concluiu que o bater de asas de uma borboleta seria capaz de influenciar o curso natural das coisas e provocar um tufão do outro lado do mundo. O termo passou a explicar a dependência sensível que existe entre qualquer acontecimento e as condições iniciais em que ele se dá.

Quatro décadas mais tarde, fizeram um filme ligeiramente ruim, mas muitíssimo inquietante a respeito do Efeito Borboleta descoberto por Edward Lorenz enquanto trabalhava com previsões meteorológicas no MIT. O personagem principal, um menino de infância conturbada, descobre ser capaz de alterar o passado e percebe, de maneira pouco ortodoxa, que pode salvar os que ama de problemas e tragédias. Acontece que, conforme altera o passado e conserta antigos desvios, novos desfechos surgem, e nem todos têm resultados melhores que os anteriores.

Sabíamos desde então, e ainda hoje, que escolhas têm causa e consequência, estômago, amores, caminhos, espíritos e encontros condicionados um pouco ao acaso e outro à matemática, um pouco à prudência e outro à permanência, um pouco ao improviso e outro ao ensaio, num sistema mais ou menos descontrolado de impulso e produto.

Sabemos ainda hoje, e desde então, que escolhas têm causa e consequência, verdade, comédia, miopia, diálogos e madrugadas condicionados um pouco ao momento e outro à história, um pouco à solidez e outro ao movimento, um pouco à intimidade e outro ao desconhecido, num sistema mais ou menos descontrolado de realização e resultado.

Sabíamos desde então, ainda hoje e cada vez mais, que somos só um pouco donos de nós mesmos, e nem sempre é o bastante.