a insustentável leveza do sol [ou da alegria de estar no verão]

Há quem diga que as estações do ano começam com estados de espírito. Eles coincidem mais ou menos com os períodos marcados pelos equinócios e solstícios, aqui e no outro hemisfério, mas seguem a lógica da poesia e a geografia dos afetos, não a matemática da inclinação da Terra com relação ao Sol, a química dos vapores, raios e frações de luz ou a física das temperaturas nos trópicos.

Vejam, por exemplo, como entre dezembro e março somos frequentemente tomados pelo desejo de transformação e pela ideia de que a vida pesa menos. Vejam que, talvez por causa dos dias mais longos que as noites, temos mais pedais pedalando no sentido do vento, mais projetos novos anotados na agenda, mais vestidos que balançam conforme a brisa, mais disposição para sentir os cheiros que vêm da rua, da cozinha ou da memória.

Vejam que experimentamos a esperança em dias melhores, a disposição em escancarar as janelas, a promessa de reencontrar os queridos de maneira mais habitual, talvez movidos pelo horário com uma hora de diferença, figurino leve e caipirinha de tangerina, vai ver impulsionados pela profusão de vermelhos, amarelos, cinzas e verdes do entardecer. Vejam que as canções parecem, mais do que nunca, dispostas a cantar noite afora, pela madrugada, até que amanheça.

Vejam como o cardápio à base de folhas frescas, legumes orgânicos e frutas da temporada parece estimular a harmonia do corpo, a digestão eficiente e o equilíbrio de energia. Vejam como os recomeços induzem aos aprendizados e quem sabe a um estilo de vida mais próximo dos antigos povos essênios, que sabiam produzir toda a sorte de instrumentos para escrita, culinária e agricultura, tinham as artes como prática e os sábados como um dia dedicado ao estudo, aos encontros e à música.

[Delícia].

Enquanto a primavera lembra desabrochares e o outono marca a hora de colher e ver as folhas que caem, mais ou menos amarelas, na calçada, nas ruas e na varanda, o verão remete à leveza, à simplicidade e ao movimento, sedimentar o caminho das colheitas, reencontrar o foco, planejar caminhos diferentes e de preferência voltar a sorrir também com o espírito, e não apenas com os dentes.

Talvez por causa das celebrações ainda frescas do ano novo e dos desejos que costumam nascer com ele, somos nesta parte do ano tomados pela vontade de jogar os excessos fora e, como um típico habitante de Gana, cavar um buraco e falar dentro dele o que se passou de ruim nos últimos 365 dias, discorrer suavemente sobre as coisas boas para janeiro, fevereiro, março e todo o resto, depois jogar um pouco de vinho ou cachaça sobre a terra em homenagem aos ancestrais e, enfim, beber também um pouco.

[Terminada a liturgia, você está pronto para recomeçar].

Talvez por causa dos aprendizados de verões passados, nesta parte do ano temos mais disposição para seguir rumo às tarefas e algum descanso, aos encontros e reencontros, entregar um trabalho, terminar um livro, fazer o jantar, ouvir o silêncio, limpar as estantes, jogar conversa fora, escolher a música certa pra cada ocasião. Temos ao que parece mais afinco em descobrir o que realmente importa, tornar mais curto o caminho entre nós e o que nos faz de fato felizes, mergulhar inteiros em um projeto, um amor ou um propósito, inteiros como o sol, como se não houvesse mais nada além dele e de nós.

ah, o verão…

Talvez seja a vontade de movimento e de transformação trazida pelo sol, as tardes de sábado, as boas companhias, o cardápio à base de receitas inventadas, folhas frescas e Coca-Cola, os pedais pedalando no sentido do vento, os novos projetos grifados na agenda do trabalho, as mudanças no armário, o horário com uma hora de diferença, figurino leve, caipirinha de tangerina, a capacidade de relativizar mais aguçada que antes, a profusão de vermelhos, amarelos, cinzas e verdes do entardecer, aquela cor.

Talvez sejam os parceiros, que suavizam com seu afeto as ausências mais doídas, dizem com seus silêncios as verdades mais fundas, ocupam com sua presença os inevitáveis escuros, emolduram com sua compreensão as angústias que insistem. Talvez seja o contexto, os amigos que chegam para celebrar, um sorrisão a qualquer hora apenas porque sim, os planos pra maio, reencontrar o foco ou voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, tanto quanto possível, mesmo que nem sempre. Talvez seja o texto, um trecho tão bonito quanto certeiro, perdido numa velha revista:

– Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida.

Talvez sejam as celebrações ainda frescas do ano novo ou os desejos que nasceram com ele, buscar cada vez menos os analgésicos para dor de cabeça, precisar de cada vez menos coisas para ser feliz, cuidar um pouco melhor do corpo, escrever todo dia, trabalhar com o zelo de sempre, comer devagar, soltar as amarras, tornar os passeios de bicicleta mais e mais frequentes. Vai ver são as plantas descuidadas sambando com a brisa da varanda ou então a proposta de ampliar as descobertas na cozinha, um pedaço a mais de panetone de doce de leite, um pouco além de purê de maçã verde, um teco a mais de batatas coradas, uma fatia extra de pudim de queijo com calda de goiabada.

[Delícia].

Talvez seja a vontade de jogar os excessos fora, apego, pressa, cansaço, papéis, todos devidamente postos na lata de jogar os excessos fora, sem dó, sem volta. Talvez seja só querer ter acordado um pouco depois, sem tanto pra pensar nem tanto pra resolver. Talvez seja apenas o clima, dias mais longos, noites mais suaves, temperatura alta, o ar abafado que anuncia que em breve teremos chuva, mas logo depois outra vez o sol, ou então os shows de música na beira da praia, um amor novo para minha nova amiga, restabelecer diálogos que ficaram longe, uma vontade recorrente, ano depois de ano, de leveza, calma, simplicidade, aquela, sabe?, que numa destas ironias da vida a gente precisa de trabalho duro para encontrar.

Talvez não seja nada disso, nem vontade de movimento nem plantas sambando com a brisa, nem projeto novo grifado na agenda nem horário com uma hora de diferença, nem capacidade de relativizar nem profusão de vermelhos e amarelos e cinzas e verdes do entardecer. Talvez não seja o contexto e menos ainda o texto, como também não sejam as celebrações ainda frescas do ano novo ou os desejos que nasceram com ele, a lata de pôr os excessos fora, uma proposta recorrente, nada. Talvez não seja nada disso, apenas a ideia de que, entre dezembro e as águas de março, a vida pesa menos.

ode ao domingo

É o dia em que os antigos povos pagãos reverenciavam seus deuses, contemplavam o tempo, dançavam com mais vigor a dança das colheitas e a libertadora ausência do pecado, do mau e do inferno, celebravam a relação para eles mágica do homem com a natureza, cultuavam seus ancestrais e destinavam suas preces ao quente e ao amarelo que vinham do céu.

[Um dia dedicado ao sol não pode ser mau].

É dia de cerveja, campo, bola, esquema tático, juiz ladrão e palavrão [porque xingar o juiz é mais terapêutico que qualquer técnica de William Reich, inclusive chutar o colchão], aquele dia em que pros que gostam de bola só o futebol basta e pras que gostam das belezas do mundo tem expressão dos olhos, torneado dos braços, definição do tórax, espessura da coxa e sorriso de propaganda de pasta de dente.

É dia de conhecer música nova, ou reconhecer, como aquelas do Rei que a gente ouvia de criança e ainda hoje, aquele dia de ouvir as verdades da baladinha sobre quando a gente não imagina por quê, as mentiras daquele sambinha sincopado, os cinco acordes daquele roquezinho singelo, exatamente assim, no diminutivo que não diminui em nada, só acrescenta um pouco da doçura que às vezes falta.

É dia de comer comida de mãe, um almoço depois outro, aquele imperdível macarrão com frango à milanesa que tem na mesa desde tanto tempo que nem sei e beber Coca-Cola sem culpa, assistir às reprises de desenho animado com os pequenos na TV, conversar fiado com os grandes na varanda, espalhar o jornal pela sala e depois ler, pedaço por pedaço, cortando o que interessa e elaborando notas mentais ou a lápis.

É dia de reencontrar os queridos no final da tarde, café, cinema, Original, os ombros que ajudam a gente a carregar o peso do mundo, os ouvidos que ouvem o útil, o fútil, o fundamental e o nem, as pernas que batem pela cidade, as mãos que ajudam a secar o choro e a enterrar os que nos deixam cedo demais, o braço que aperta, olho, boca, nariz, joelho, pescoço e cotovelo para tantos verbos quantos caibam na arte do diálogo.

É dia de ler o físico meio poeta, que defende que os cientistas podem provar com experiências as leis da natureza, podem mostrar como objetos em queda livre são acelerados em direção ao chão independentemente de suas massas, podem elaborar teorias que explicam a atração quase sobrenatural entre dois objetos, prever a chegada dos cometas, explicar as marés, entender o formato achatado da Terra, calcular a precessão dos equinócios e muito mais, mas não podem explicar o motivo das coisas, seus propósitos, as razões de elas acontecerem.

Domingo é dia de tanta coisa, celebrar o sol, música nova, música velha, comida de mãe, desenho animado, café, cinema, Original e os ombros que ajudam a gente a carregar o peso do mundo, jornal, cientista poeta, físico astrônomo escritor roteirista e talvez a graça da vida… É dia de tanta coisa que não dá pra entender porque quase todo mundo diz que fica entediado. Pra ser melhor, só faltava ter supermercado aberto.