vento sul

Ouvi dizerem que o vento sul que venta em Vitória não sopra da mesma maneira em nenhuma outra cidade do mundo. Seu movimento guarda a melancolia dos domingos de inverno, mas também a leveza do descanso e a imensa possibilidade dos recomeços, limpar o céu com sua força, inspirar palavras com a tristeza que prenuncia, dispersar os maus presságios que insistem apesar da fé.

O vento sul que venta em Vitória como dizem que em nenhuma outra cidade do mundo suaviza as ausências com o som delicado de suas andanças, ameniza medos com sua força e acalma a mente, como fosse não apenas o movimento do ar em relação à superfície terrestre com variações de velocidade e direção, mas também um pequeno teco de esperança, uma canção em tom maior, um abraço com o braço mais firme de todos, a Crônica Otimista do Instante que Passa.

O vento sul reacende os passeios de bicicleta, os desenhos feitos à mão, o cheiro do feijão que a avó preparava para quando chegássemos da escola, a infância, a rua, a saudade. Há quem defenda ainda que ele amadurece as colheitas e encoraja a entender o que realmente importa, ficar próximo do que nos emociona e dispensar o resto, como o goleiro na hora do pênalti, a bordadeira no momento do arremate ou as crianças que naquela tarde brincavam alheias a quase tudo.

[Elas ainda não sabiam da saudade ou do sufoco, da descoberta de um amor novo ou da possibilidade de consertar o antigo, da amargura do tempo ou da tragédia que é ter dor de cotovelo. A única urgência que alimentavam era aprender as regras do Uno, o joguinho inventado nos anos 1970 por um barbeiro que precisava distrair os filhos e tudo resolvido].

Depois do vento sul, amadurecidas as colheitas e a vida outra vez tomada pela leveza dos começos, pela fé no movimento e pela esperança em dias melhores, é hora de entender o tempo, investir na capacidade de superar as adversidades, suavizar antes da explosão, reduzir as expectativas, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém.

do instante que passa

“[…] Me sinto bem aqui em cima, inclusive, para esquecer os puristas da língua pátria e não ligar para a maldita ordem em que devem ser colocados os pronomes. Que se danem os mestres. Muito mais importante que as regras gramaticais é a maneira pela qual a gente consegue, nesta deliciosa desordem, misturar as palavras e fazer da última flor do Lácio inculta e bela um meio gostoso de se comunicar. Me sinto, portanto, capaz de fazer tremer até o Eça de Queiroz, mas eu vou colocar os meus pronomes onde bem quiser.

E tem mais: aqui eu sou livre para rir ou chorar; para lembrar ou esquecer; para sentir saudades de ontem e, ao mesmo tempo, construir os mais belos planos para o dia de amanhã. Livre para desenhar o rosto do meu amor, apesar de não saber desenhar, porque já não corro o risco de ver você chegar aqui de repente e se botar cinicamente a rir do meu sentimento e de mim. 

É verdade que o tempo tem sido curto. Mas também não tenho sentido a menor vontade de sair. Tenho ficado em casa todas as noites; há dias não vou ao encontro da corja. Ontem mesmo houve pessoas muito queridas que estiveram por aqui. Queriam saber de mim, como é que me vou arranjando. Vou me arranjando bem, graças a Deus. E, para que eu esteja melhor, é preciso que essas pessoas voltem sempre, pois aos amigos eu confiei uma parte de minha felicidade preguiçosa, que às vezes gosta de cochilar. É importante, então, que vocês não a deixem dormir, que estejam perto, vigiando todos os dias, cada vez mais íntimos, mais amigos, mais irmãos. Dispostos ao momento da amizade, das mãos dadas, das coisas do coração.

É pensamento que me vem, enquanto fico procurando por vocês, em cada um destes objetos que constituem uma parte da minha vida, da minha vida que vocês valorizaram, e que acabei de acomodar entre as paredes desta casa: livros, jornais, revistas, algumas roupas, muitos sapatos, uma máquina de escrever, um berimbau que guardou ternura de tantas noites e poeira das estrelas que morreram no céu, para nunca mais. Um radiozinho que se recusa a falar. Alguns discos que variam de Bach a Aznavour, um coelhinho azul e tímido, uma cobrinha chamada Mildred, que tem medo de temporal […].”

Mais uma Crônica do Instante que Passa
Carmélia Maria de Souza, 1967