de canções

A história dos meus tempos de criança é mais ou menos aquela: que cresci ouvindo música brasileira de todo o tipo, a agulha do toca-discos chiando na sala enquanto eu brincava, a limpeza dos móveis, a arrumação das estantes e a feitura do almoço empreendidas diariamente por minha mãe no embalo de melodias que plantaram em mim um amor incondicional pelas suaves e sagradas canções deste país.

Eu tinha pouca ou nenhuma ideia do que viria pela frente, dos projetos, das perspectivas, das perdas e dos amores, das palavras, dos sucessos e dos desafetos. Desconhecia a matemática das escolhas, a química das expectativas desfeitas e a poesia escondida no tempo, e toda a tragédia do mundo, nos meus sete anos de idade, estava inteiramente concentrada nas terríveis sombras do Brejo da Cruz.

Quando a limpeza dos móveis, a arrumação das estantes e a feitura do almoço passaram a ser tarefas minhas, o endereço, as dores, as expectativas e o modo de olhar as coisas haviam mudado, como também eram outras as novidades, sem crianças alucinadas que comiam luz, sem meninos desencarnados ficando azuis, sem pedras, rodoviárias e formas a assombrar a noite como monstros debaixo da cama.

Meus medos eram outros, não parar direito, não sonhar direito, não criar direito, não ouvir direito, não fazer o que deve ser feito, ser ausente, inconsequente, reticente ou displicente. Temia ter apego demais, dor nas costas, excesso de peso ou falta de perspectiva, esperança nas esperanças erradas ou – justo o oposto – total descrença nos afetos, nas promessas, nas chegadas e no futuro da humanidade.

[Eu vi que o mundo pode ser velho e novo ao mesmo tempo]. 

Eu alimentava a alegria sincera das descobertas vagarosas a respeito das coisas efêmeras, a crença na imensa capacidade das pausas, o gosto pelas perguntas e pela madrugada, as invenções na cozinha, a literatura e, exatamente como antes, um amor incondicional pelas suaves e sagradas canções deste país.

Havia aprendido que, com raras exceções, o que determina o equilíbrio do encontro são os gostos em comum e o quanto de leveza somos capazes de colocar nas diferenças. Pode ser que tenham ambos o apreço pelo silêncio, compartilhem a crença na imensa capacidade das pausas, comunguem diante do fato de que precisa um bocado de intimidade para ouvir, sem embaraço, um o sossego do outro. 

[Acho normal de imaginar nós dois].

Pode ser que tenham, tanto um quanto o outro, a convicção no poder transformador da estrada, liberdade, possibilidades, pensamentos, descobertas inesperadas, um tipo de sentimento, estranho e bom, de pertencer a nenhum lugar. Pode ser que seja o samba rock, o sangue latino e o amor pela madrugada, a simplicidade no modo de levar a vida e a vontade de ouvir todas as canções do mundo, tom maior sempre que possível, letra, melodia e dançar com ele.

[Isso é o que o amor faz]. 

A história dos meus dias de adulta é mais ou menos esta: sou mais de música do que de briga, mais do ar que do peso, mais do silêncio que da pressa, mais de abraço que de distância, mais de perguntas que de qualquer coisa. Tenho mais dúvidas que disposição para ginástica, mais trabalho por fazer que fé em certos tipos de homens e mulheres, mais medo de determinados vivos que da maioria dos mortos e o mesmo amor incondicional de antes pelas suaves e sagradas canções deste país.

Com a Ciência, aprendi que o coração é um órgão oco que bombeia o sangue de forma que circule pelo corpo todo, um percurso que, nos seres humanos, demora cerca de 50 segundos em repouso. Daí, impulsionado por uma pressão razoável, o sangue percorre braço, boca, nariz, peito, batatas da perna, cérebro, mão, joelho, o cantinho da unha, fígado, pulmão e estômago, ida e volta, levando o oxigênio e os nutrientes às células que sustentam as atividades do organismo, e pronto.

Com o tempo, a lição foi outra: que o coração é um órgão cheio que organiza ações e reações, opções e decisões, caminhos e desvios, um hábito que, nos seres humanos, dura cerca de uma vida inteira. Daí, durante este tempo, determina escolhas, seleciona encontros, recorta sentimentos, amor, amigo, desgosto, insistências, desistências, reticências, inesquecível ou aquele abril inteiro que melhor apagar, chegadas e partidas alimentando o movimento que sustenta a atividade do espírito.

Entendi, a despeito de toda dificuldade, que amar e libertar são o mesmo ato.

[E se perguntarem por mim diga que estou ótima].