o equilibrista

– Por que você fez isso?, alguém perguntou ao equilibrista, tão logo ele terminou de atravessar as torres gêmeas do World Trade Center, em um cabo de aço estendido, sem proteção e sem autorização, a 417 metros de altura.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo: sabe que às vezes faz bem não saber?

Quando a gente não sabe, pensei, a cabeça deve doer menos a tristeza dos dias turbulentos, o abdome deve sustentar mais o peso das vértebras retorcidas. A gente, quando não sabe, investe com mais pureza nos encontros, nos diálogos, no prazer e na arte. Protegidas pela graça da ignorância, acolhidas pelo benefício do desconhecimento, mimadas pela dádiva da inocência, as madrugadas passam quietas e a ansiedade respira no compasso certo – ou o mais perto possível.

As horas tendem a pesar menos quando a gente não sabe.

Ao contrário das estações em que chove dentro da gente, mesmo que lá fora faça sol, quando não sabe a gente experimenta a liberdade de se dedicar com menos peso à busca de respostas, sejam elas metafísicas ou prosaicas, sejam elas a respeito dos rumos do jornalismo, dos versos de Bob Dylan ou do sentido da vida, sejam elas sobre o teor alcoólico do gim ou sobre as razões daquele equilibrista.

O equilibrista, a propósito:

Às 7 da manhã do dia 7 de agosto de 1974, um francesinho chamado Philippe Petit estendeu um cabo de aço entre as torres gêmeas do World Trade Center e atravessou, sem proteção e sem autorização, o espaço entre os prédios que Osama Bin Laden mandaria pelos ares em 11 de setembro de 2001. Petit tinha 24 anos, vestia preto e cruzou o vão entre as edificações a 417 metros de altura, por oito vezes, durante pouco mais de 40 minutos. Acabou na delegacia, feliz da vida.

A traquinagem foi exaustivamente planejada. Petit alugou um helicóptero para fotografar o topo das torres, convenceu um executivo do 82º andar a ajudá-lo, fingiu ser repórter de uma revista inventada para entrevistar o síndico.

Enquanto fazia malabarismos na rua para se manter, observou, fotografou. Tomou notas. Subiu e desceu do complexo que ainda passaria por um incêndio em 13 de fevereiro de 1975, um atentado a bomba em 26 de fevereiro de 1993 e um assalto em 14 de janeiro de 1998. Acompanhou a rotina de funcionários e frequentadores e até decifrou a combinação que abria uma das portas: 7-7-4-3-5.

Como a maioria absoluta dos sonhares, Philippe Petit ignorou os riscos, os ventos, a umidade do ar e as exigências da polícia e fez – palavras dele – aquilo que tinha de fazer. Andar sobre fios era paixão antiga, daquelas como na canção.

[Basta um encontro por acaso e pronto: começa tudo outra vez].

Petit já havia passeado suspenso entre as duas torres da Catedral de Notre Dame e pela ponte que atravessa a baía de Sidney, na Austrália. Para atravessar as torres gêmeas, contou com a ajuda de um amigo e da namorada. Também teve alguma sorte, declarou em entrevistas que viriam depois da façanha. Pensou em tudo, minúcia por minúcia, desde o transporte até o modo como faria um cabo de 200 quilos atravessar de um ponto ao outro – no fim das contas decidiu usar um arco e uma flecha para, então, caminhar sobre a corda bamba, deitar e dançar um pouco.

O nome da coisa é funambulismo.

A vara de equilíbrio pesava aproximadamente 25 quilos. Por toda a extensão da linha, havia cabos pendendo em direção ao chão. A função deles era reduzir as vibrações na superfície da corda bamba e, também, amenizar a sensação de vazio que dá olhar para baixo quando não há nada para ver, nem paisagem nem um rosto conhecido, nem formas nem perspectivas; nada.

– Por que você fez isso?, alguém obviamente perguntou.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo – vocês já sabem: sabe que às vezes faz bem não saber?

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a história e as histórias

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

Primeiro li a pergunta provocadora num texto de jornal. Depois vi “Bobby”, filme que inspirou pergunta e texto e que reconta o assassinato do senador Robert Kennedy, em 1968, a partir das histórias individuais de uma telefonista solitária, uma cantora alcoólatra e decadente que inferniza a vida do marido, um ingênuo ajudante de cozinha que sonha com o beisebol, um casal que tenta reconstruir seus pedaços, uma jovem que se casa com um quase desconhecido para salvá-lo do Vietnã, um moço idealista, um velho nostálgico, uma mulher traída.

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

No dia 11 de setembro de 2001, lá pelas dez e pouco da manhã, eu conversava sobre o amor e o futuro quando uma colega do jornal telefonou avisando que tinham explodido as Torres Gêmeas. A distância e de uma maneira meio torta, vivi a História no meio da história, a do mundo no meio da minha, terrorismo e café da manhã, Bin Laden e os conhecidos que estavam em Nova York, bombeiros nos escombros e lista de filmes-catástrofe para a edição extra, tudo ao mesmo tempo, àquela hora.

Em 2007, nos últimos dias de julho, eu regava e podava a minha árvore da felicidade quando Fidel Castro anunciou que, depois de 47 anos no poder, deixaria o governo de Cuba nas mãos do irmão para se tratar de um câncer no intestino. Em maio de 2003, enquanto o Comandante viajava para a Argentina para assistir à posse do colega Néstor Kirchner, eu via aquela Cuba de perto, mojitos, charutos, Tu Cola, utopias e contradições.

Em 24 de março de 1991, quando Ayrton Senna deu sete voltas na pista molhada sem tirar da sexta marcha e ganhou o trágico Grande Prêmio do Brasil, eu estava na casa da minha irmã olhando a corrida na TV. Ainda havia alguma graça em ver a Fórmula 1 aos domingos, Riccardo Patrese, Gerhard Berger e Alain Prost ainda corriam, Nelson Piquet ainda tinha carteira de habilitação e minha sobrinha, antes da nossa comemoração histérica, ainda dormia incansavelmente como dormem incansavelmente os bebês de três meses. Quando Senna morreu, assistimos outra vez pela televisão; desta vez era minha outra irmã quem chorava.

Lula virou presidente no dia 6 de outubro de 2002, alimentando a esperança de anos e anos e anos; eu vesti a camisa vermelha e saí por aí, em festa, sem a menor ideia da desilusão que viria depois, das crises políticas, das crises aéreas, das crises existenciais, todas. Não lembro o que fazia quando houve o Tsunami e o Katrina, mas sei que passava férias em Londres quando o PCC promoveu aquela onda de ataques em São Paulo. Lá, por causa das experiências deles com o terrorismo, não há lixeiras nas ruas, para que não haja lugares públicos para bombas privadas.

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

O autor do texto de jornal e da pergunta provocadora ia sair com o melhor amigo em Milão quando soube que haviam matado o outro Kennedy, John, em novembro de 1963, em Dallas, Texas, por volta do meio-dia de uma sexta-feira; no começo de abril de 1968, quando a vítima foi Martin Luther King, conhecia os sogros; em fins de agosto, quando os tanques soviéticos ocuparam Praga, estava num barzinho no porto de Panarea, na Sicília.

Meu amigo estava na sala do avô quando o Muro de Berlim caiu, fazia redação na escola quando Kurt Cobain resolveu que não queria mais viver, voltava para casa de carona com a mãe de um colega quando ouviu Smells Like Teen Spirit no rádio pela primeira vez. Era 1991, mas ele lembra como se fosse ontem:

– Ela me deixou umas duas quadras antes da minha casa, onde hoje tem um prédio gigante e na época era uma casa e um cachorro quente no térreo. Eu saí do carro, parei na calçada e não andei e fiquei pensado, absolutamente transtornado: ‘De que planeta veio isso?’. Depois, fui pra casa cantando aquele refrão grudento.