tempo tempo tempo tempo

A verdade é que eu escapava o quanto pudesse das aulas de Física. Não fugia fisicamente por pura disciplina, mas deixava a imaginação dançar diante dos conceitos relativos à termodinâmica das partículas, das leis sobre o movimento dos átomos ou das regras que regem a combustão entre os corpos.

Aprendi, no entanto, pelo menos uma coisa durante o tempo em que tentava driblar o deslocamento: que dois pontos de vista diferentes oferecem visões diversas de um mesmo objeto, e que ambas são perfeitamente aceitáveis.

Anos mais tarde, entendi ainda que o amor, o trabalho, a esperança, o vazio, o riso, a raiva, os afetos e os corações partidos têm aparência e essência determinadas pela passagem do tempo e pela curvatura do espaço, do mesmo modo que altura, distância, gravidade e profundidade estão sujeitas às leis que regem a matéria.

Com o passar do espaço-tempo, percebi por fim que, depois de um período e a certa distância, as coisas mudam, ou então muda o olhar que colocamos sobre elas.

[Depois de um período e a certa distância, a verdade feita de saudade, ciúme, cansaço, ansiedade e apego abre espaço para a percepção de que rupturas são indispensáveis. Em outro momento ou de um lugar diferente, os pesos pesam menos e, passadas seis, sete ou oito horas de sono, dá até para reconhecer o tamanho do passo que pareceu pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso].

Demorei um pouco mais para descobrir que a história do Universo era, de algum modo, a história do próprio tempo e que havia pelo menos duas maneiras de perceber sua passagem. A primeira delas bebe na Psicologia e determina que os fatos seguem, uns depois dos outros, em sucessão direta. Os números ajudam a colocá-los em ordem, e a lembrança faz saber que de fato existiram. De acordo com este ponto de vista, se as nossas memórias desaparecessem por completo, voltaríamos a ver o mundo como bebês, com dias imensamente longos, novidades acumuladas, as canções de ninar e depois as outras, as alegrias e um dia, inevitavelmente, os desapontamentos.

A segunda nasce daquela de quem eu fugia o quando pudesse. Um segundo, a unidade de tempo da humanidade, são 9.192.631.770 oscilações entre dois níveis do átomo de césio-133, desde sempre, há cerca de 13,7 bilhões de anos, e ainda não inventaram nada capaz de acelerar ou retardar a grandeza que os homens criaram para medir o andar da carruagem, faz mais ou menos 59 milhões de anos.

Amparados por memória e ciência, e apesar do tempo que aparentemente corre demais, podemos amadurecer, curar feridas, compreender os excessos, aprender a conviver com a saudade e às vezes transformar dor em potência. Aliados da matemática do mundo e da lógica dos afetos, e apesar das rugas, dos desgastes, das amarguras e das expectativas desfeitas que surgem com o tempo, temos diante de nós a capacidade de preencher o vazio com a espera, distrair a mente com a música, cuidar do corpo com a respiração, suavizar os medos com o movimento.

Depois de tudo, e que assim seja, podemos até ser capazes de gostar do tempo.

o dia fora do tempo

Dizem que o gosto da civilização maia por entender o sentido histórico das coisas colocou o tempo como preocupação central de seu povo. Havia o hábito entre os ocupantes do fértil Vale do Yucatán, desde remotos anos antes de Cristo, de medir com zelo a passagem dos dias e respectivas noites, registrar de modo minucioso o movimento dos astros, demarcar as celebrações religiosas, as vitórias militares, a fundação das cidades e as colheitas, além de erguer nas pedras inscrições que contribuíssem para a memória das gerações futuras.

Os ciclos se repetiam de 13 em 13 luas de 28 dias cada, somando 364 dias, com início em 26 de julho e fim no 24 de julho seguinte. O dia 25 não pertencia nem a um ano nem ao outro, e os maias o chamavam de O Dia Fora do Tempo.

Taí: gostei.

Durante 24 horas, as tarefas eram meditar a respeito da vida, agradecer pelo resultado das semeaduras anteriores, cancelar dívidas materiais ou metafísicas, dedicar-se às artes, elevar o estado de consciência e respirar com toda a liberdade do mundo. Nelas se concentrava a energia para o período que em breve começaria, bem ou mal, alegre ou triste, leve ou pesado, de acordo com o que fosse – bom ou mau, alegre ou triste, leve ou pesado – o Dia Fora do Tempo.

Como nos primeiros dias do ano e apesar do tempo que às vezes não há, no Dia Fora do Tempo a ordem podia ser entender o que realmente importa, ficar próximo do que nos emociona e dispensar o resto, celebrar o sol tímido dos dias de julho, o cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola, os planos para a reforma da cozinha, as pequenas festas, as boas companhias ou a vontade de reencontrar os parceiros que suavizam com seu afeto as outras ausências.

A ordem podia ser firmar os músculos, respirar profundo, investir na capacidade de superar as adversidades, perdoar até aqueles que nos prejudicam porque são movidos pela vaidade, pela prepotência ou pela insegurança. Podia ser entender o próprio tempo, respirar antes da explosão, suavizar antes do julgamento, reduzir as expectativas, esperar um pouco além do previsto, com toda calma possível dentro. Podia ser a ordem no Dia Fora do Tempo ver o mundo com os olhos da delicadeza, tanto quanto possível, mesmo que nem sempre e depois dançar you make me feel there are songs to be sung.

[O senhor me faz sentir que há canções para cantar, Frank Sinatra].

No Dia Fora do Tempo, a ordem podia ser fazer como fazem os ganeses no ano novo deles: cavar um buraco no chão, colocar a boca e contar o que se passou de ruim, “cobrir” as palavras com terra e discorrer suavemente sobre as coisas boas que deseja, jogar um pouco de vinho ou cachaça sobre a terra em homenagem aos ancestrais e, enfim, beber também um pouco. Podia ser, como nos primeiros dias do ano e apesar do tempo que às vezes não há, um período dedicado a olhar pra trás, avaliar projetos, reorganizar desejos, rever feitos, tomar nota do que for preciso e apagar o resto, com todo o desapego do mundo.

O Dia Fora do Tempo seria então tomado pela leveza dos começos, pela fé no movimento, pela esperança em dias melhores e as orações a postos, para que o grandioso e bom Deus mais uma vez amenizasse as faltas, perdoasse os deslizes, aliviasse os excessos, instaurasse o equilíbrio e mantivesse a paz, pelo próximo ano e sempre, amém.

uma pausa

Às vezes é preciso parar, nem que seja por uns dias. Parar para ouvir de verdade aquela canção, porque nada é pra já e o amor não tem pressa, pode esperar em silêncio, milênios, milênios, no ar. Parar para olhar mais para os outros e menos pro umbigo, entender que a pele, os olhos e os ossos precisam de descanso, aceitar a ideia verdadeira, certeira, de que um olhar, um sinal, uma palavra, um segredo, tudo, tudo têm seu tempo, inclusive o próprio tempo. Parar para digerir as escolhas, as boas novas, as chegadas e as partidas, o silêncio que virou samba, a corda bamba que virou valsa. Às vezes é preciso parar, nem que seja por uns dias. Parar para lembrar que o tempo faz bem, embora falte demais, corra demais, traga rugas e desgaste amores, embora ande segundo critérios obscuros que não levam em conta desejo, querer, vontade ou qualquer outro substantivo que porventura tenha um sentido semelhante. Parar para celebrar o tempo, tambor de todos os ritmos, dois, compasso, relógio, respiração, 100 gramas de areia caindo na ampulheta azul ou as horas que Harry Haller desperdiçava com sua maneira arredia de ser. Daí, quando a gente menos espera, percebe, parado como um dois de paus, que deu pra gostar do tempo.