sororidade e o que aprendi ao divulgar o trabalho de mulheres inspiradoras

Há uma máxima bastante conhecida segundo a qual devemos começar por nós mesmos a transformação que desejamos ver no mundo. Ano passado, nas bordas do Dia Internacional da Mulher, decidi começar por mim uma pequena mudança: fazer um exercício de sororidade e, ao longo de um mês, divulgar, propagar a elogiar nas minhas redes sociais o trabalho de mulheres inspiradas e inspiradoras.

Uma das eleitas no meu modesto empreendimento de comunicação era a cientista responsável pela criação de um robô cão-guia que alerta usuários cegos sobre a presença de obstáculos em ruas e calçadas. Outra dava aulas de ioga e meditação, como voluntária, para as detentas em uma penitenciária. 

Quatro delas faziam rap no majoritariamente masculino e machista mundo do hip hop, cantando desigualdades, resistência, respeito, violência, a vida na periferia e a força feminina. Outra incentivava a autoestima e o direito de escolha das mulheres em desenho feitos à mão, com lápis de cor e caneta nanquim sobre papel kraft. 

Uma defendia a construção de um modelo afetivo diante do fogão, recriando com ingredientes frescos o sabor, o aroma e a textura de pratos caros ao gosto comum. Outra transbordava força, fé e resistência, à frente de um grupo de quilombolas no interior do Espírito Santo. 

Uma atravessou as últimas quatro décadas com bravura, navegando tanto por épocas de ouro quanto por cenários de crise, para manter de pé uma galeria de arte. A outra, cadeirante desde os 20 anos de idade, tornou-se uma incansável divulgadora de questões ligadas à acessibilidade e à superação.

Pode parecer óbvio, mas a verdade é que, com raras exceções, fomos criadas para colaborar com os homens e competir com as mulheres. Demoramos para perceber que agindo assim reforçamos o machismo, nutrimos a desigualdade e enfraquecemos a nós mesmas. Ao divulgar durante um mês o trabalho de mulheres de dentro e fora do meu círculo de convivência, aprendi que sororidade não é apenas uma palavra da moda. Ela é, ou precisa ser, uma revolução feita de dentro para fora.

sororidade em cinco pequenos atos

Outro dia falávamos da enorme frequência com que reproduzimos comportamentos machistas às vezes até sem perceber e de como desconstruí-los passa pela prática cotidiana de cada um de nós.

Quando o ataque contra mulheres parte das próprias mulheres, é preciso, mais do que nunca, reforçar o debate feminista e colocar em prática uma palavrinha ainda pouco conhecida, mas muito potente: sororidade.

Sororidade tem a ver com empatia, respeito e solidariedade. Embora ainda não conste da maioria dos dicionários da língua portuguesa, o substantivo feminino formado a partir do prefixo soror (do latim: irmã) ecoa diariamente nas atitudes daquelas que protegem, apoiam, fortalecem, estimulam e incentivam a potência de outras mulheres.

Sua prática aponta para a convicção de que meninas não precisam odiar outras meninas, não precisam rivalizar com elas, não precisam sustentar preconceitos históricos que incitam a disputa, não precisam se vestir para elas nem considerá-las como concorrentes.

A exigência é uma só: que nos coloquemos umas no lugar das outras. Por mais difícil que pareça e por mais que culturalmente sejamos treinadas para o contrário, praticar a sororidade ajuda a enfraquecer estigmas e fortalecer movimentos contra a violência doméstica, as injustiças profissionais, as desigualdades de gênero, o massacre de padrões que não conseguimos alcançar, o domínio masculino sobre nossas crenças.

Vamos juntas?

▶ Que tal, sempre que possível, divulgarmos e consumirmos o trabalho de outras mulheres?

▶ O que acham de banirmos as palavras vagabunda e vadia do nosso vocabulário e parar de responsabilizar as mulheres pelas escolhas de um homem comprometido?

▶ Hoje é um bom dia para deixarmos de julgar mulheres por terem atitudes diferentes das que nós teríamos, incluindo escolhas relativas a roupas, relacionamentos, trabalhar ou não fora de casa, ter ou não ter filhos.

▶ Situações de risco ou necessidade emocional pedem postura solidária. Com raras exceções, o melhor a fazer é oferecer apoio, ouvido, ombro e um total de zero julgamentos.

▶ Lembrar para não esquecer: mulheres não precisam ser rivais, a despeito do que ouvimos por anos a fio.

Pode parecer óbvio, mas a verdade é que fomos criadas, com raras exceções, para colaborar com os homens e competir com as mulheres. Lutamos para alcançar postos mais altos na carreira profissional, custe o que custar. Mas esquecemos que, quanto mais progredirmos, maiores as chances de levarmos outras mulheres conosco e maiores as possibilidades de implantarmos políticas de inclusão e igualdade nas empresas.

Os números apontam que a estratégia é, inclusive, um bom negócio. Para citar apenas um dado: segundo estudo de 2007 feito pela McKinsey, empresa norte-americana reconhecida como a líder mundial no mercado de consultoria empresarial, organizações que têm equipes executivas com maior diversidade de gênero alcançam lucros 21% acima da média; se a diversidade for étnica, os lucros sobem 33%.

Há uma onda conservadora em curso, que tenta naturalizar comportamentos violentos, justificar desequilíbrios e desmerecer bandeiras da caminhada feminina por liberdade, igualdade e justiça. Independentemente do lado em que você se posiciona, saiba que ser mulher em tempos como esses tem exigido um bocado de nós. Se existe uma coisa que nos fortalece neste cenário é seguirmos juntas, a partir dos pequenos atos.