ainda sobre vontades

O último pedido do escritor Anton Tchekhov antes de morrer na Alemanha foi beber uma taça de champanhe. Depois seu corpo foi repatriado para Moscou em um vagão que carregava ostras.

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sobre vontades

Por uns dias andou pensando nos sentidos múltiplos da palavra vontade. Pensou no que diziam o coração e o dicionário, pensou no que escolhia, praticava, interessava, sonhava, enxergava e abraçava, pensou no que queria e nos desejos, que eram ainda outra coisa, diferente. Pensou no último encontro, nas conversas e nos silêncios, nas dúvidas e nas ausências, na festa do último sábado, na pizza da última terça, na canção da última noite, no resfriado recém-instalado e na frase que o moço da TV havia dito, lindamente:

Hoje acordei com gosto de futuro na boca.

Houve um tempo em que também acordou com gosto de futuro na boca. Sentia que o mundo era seu, inteiro e urgente como o amor que carregava no corpo, gingado e leve como o balanço daquele homem, azul como os olhos dele e firme como suas mãos. Vivia de buscas, descobertas, meia dúzia de sonhos e alguma fantasia, todos devidamente embalados por açúcar e vodca, compasso, melodia e a certeza aprendida na canção, a coisa mais importante que a gente aprende na vida é amar e em troca ser amado.

Era o oposto dos iluministas franceses, para quem vontade era razão moral e política desprovida de paixões, determinada muito mais pela lógica que pelo afeto, mais pelo cérebro que pelo movimento. Desacreditava, igualmente, do filósofo alemão, para quem vontade era o impulso natural voltado para a dominação de seres e objetos ao redor, presente na vida em geral e na natureza inorgânica, manifestado de maneira trágica e amoral nos instintos e desejos que cercam a existência dos homens.

Investia mais na potência que no poder, herança da Física, não da Política, capacidade de movimento, de ação, criação, compreensão e, dentro do possível, verdade; não obrigação, apego, autoridade ou exigência. Também não gostava da indecisão, vizinha próxima do medo e às vezes da indiferença, diferente das dúvidas e das interrogações, quase sempre muito bem-vindas, dançarinas, malabaristas e arquitetas capazes de indicar, como ninguém, os caminhos, os projetos, os pensamentos e as possibilidades.

Queria com o corpo todo, com o fígado maltratado, o joelho frouxo, o nariz leventemente adunco. Queria a presença, a casa, a ilha, as respostas, a madrugada, os discos, o telefone, o cuidado, o brilho no olho, outra pizza e outra festa. Queria o fim da hesitação, que talvez fosse o contrário da vontade, o sumiço da pausa longuíssima antes do sim que indicava que ali havia tudo, menos certeza.

Queria um monte de coisas, silêncio, café, chocolate, cachorro, respostas, viagem, dinheiro, tempo; tantas coisas que só podiam ser explicadas por uma palavra com sentidos múltiplos como era a palavra vontade.