pra que discutir com madame?

Foto: Lalo de Almeida/UOL
Noventa anos e mais de 400 quilômetros separam o Rio de Janeiro nos anos 1930 da Paraisópolis neste difícil 2019. Mas, apesar do tempo e da distância geográfica entre a boemia carioca e a segunda maior favela de São Paulo, uma coisa não mudou: a forma como certas manifestações culturais no espaço público são, com frequência assustadora, maltratadas pela polícia. 

Parece piada, mas não é. Nos primórdios do samba, um sujeito que andasse pela rua com um pandeiro na mão corria o sério risco de ir para a cadeia. Parece mentira, mas também não é. Quase um século depois, frequentadores de festas de periferia são criminalizados, encurralados, pisoteados e mortos porque paira no ar a ideia de que, ali, todos são culpados até que se prove o contrário.

O que se diz, para justificar a violência com que os bailes são tratados: que eles são 100% feitos de drogas, menores bêbados, sexo desenfreado e outros comportamentos considerados inaceitáveis pelas autoridades e pela população que elas representam.

O que NÃO se diz: que, na maioria absoluta das vezes, os bailes ao ar livre são a única opção de lazer de comunidades inteiras e que  movimentam a frágil economia local.

Depois de anos de resistência, o “sambista vagabundo” sai de cena, de certo modo assimilado pelos costumes e pelos representantes da ordem. Em seu lugar entra o “funkeiro marginal”, como se estudantes e trabalhadores em sua busca legítima por diversão não fossem a maioria entre as quatro, cinco mil pessoas de um evento feito de forma autônoma nas comunidades da margem.

O saldo desigual e desolador se traduz em números como os registrados em Paraisópolis: 12 feridos e nove mortos, engrossando a taxa de homicídios de negros com idade entre 15 e 29 anos, que é três vezes maior que a de brancos, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

O mesmo Brasil que produz sua identidade e alimenta sua diversidade com enorme contribuição das periferias oprime manifestações que escapem da caixinha por puro preconceito. O racismo é histórico. Muda o ritmo, a repressão continua.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 14 de dezembro de 2019.

samba

O samba tem destas coisas.

Tem o passado gingando na beira do mar, a gente sem saber se vai ou fica, se diz ou ignora, se pensa no futuro ou nem, se acredita outra vez ou esquece, de uma vez por todas, as palavras, os silêncios, os abraços, as canções, as promessas e as perguntas que disse, ouviu ou fez nas noites em que parecia possível dar certo. Tem a noite sorrindo no bar da esquina, os amigos novos que a gente arruma e conversa até gastar, cinema, fotografia, memórias, projetos, bobagens, olhares, piadas, filosofices, feminices e sempre a música.

O samba tem destas coisas.

Tem os momentos em que a gente tenta achar o tom, batuca no tamborim, pede outra pro garçom e canta até cansar, porque um dia decidiu levar a vida como Geraldo, Angenor, Nelson, Heitor, João, Noel, Ivone, Jorge, Clementina, Adoniran e Alfredo dizem, cobertos de razão, que é pra levar. Tem momentos em que a gente só olha, vê as escolhas dos outros, enxerga a felicidade alheia, ou a dor de algo que falta, observa a menina cheia de sonhos, sente as expectativas que não se confirmam, acolhe aquilo que não espera e acaba acontecendo.

O samba tem destas coisas.

Tem os planos e as surpresas, os encontros, os reencontros e os desencontros. Tem a convivência, estranhamente possível, entre cotidiano e acaso, rotina e surpresa, matemática e a arte, métrica e sentimento, física e poesia, o mundo todo dividido em dois ou mais, entre os fenômenos que se repetem regularmente e os fatos inesperados, entre o bem, o mal e o que não se sabe, entre ordem e caos, ciúme e desapego, decepção e a capacidade racional de seguir em frente, instinto e raciocínio, intuição e evidências, desejo e contenção, todos mais ou menos dentro do mesmo tempo e do mesmo espaço.

O samba tem destas coisas.

Tem o tempo, o contratempo [nada como um depois do outro] e, às vezes, disritmia [que bom é ser fotografado pelas retinas daqueles olhos lindos]. Tem as coisas que nunca mais [never more, a comunidade sabe]: nunca mais faço promessa, nunca mais ligo pra ele, nunca mais pergunto os porquês, nunca mais crio expectativas, nunca mais nego o que incomoda, nunca mais bebo Coca-Cola, nunca mais compro a prazo. Nunca mais, como o corvo do conto de terror, o corvo que dizia never more.