histórias do amor demais

Como acabam as histórias de amor? Até que ponto é preciso escavar a arqueologia sentimental para saber em que momento começou o irrecuperável? Como, também, elas começam? Em que dia, em que cidade, no meio de um show de jazz ou na volta do teatro, no sofá da sala ou os dois estirados no chão, vendo o teto e ouvindo as canções que estiverem ao alcance, todas, uma depois da outra, até o fim das pilhas? De que maneira a gente apaixona ou desapaixona, quer viver junto para sempre ou decide que melhor não e lá se vai cada um pro seu lado? Onde percebe que, leve como pluma muito leve leve pousa, não consegue mais ficar longe do abraço apertado, do cabelo desgrenhado, das manias engraçadas, de tudo? Quando simplesmente acontece o que faz não ser mais possível?

Minha amiga dos olhos fundos enterrou seu amor num sábado à tarde, dois chocolates quentes com chantilly e uma frase capaz de fazer quatro anos, três meses e seis dias virarem apenas fotografias amontoadas no armário: “Acontece que eu sou como um disco do Radiohead”. Achou que nunca mais, até uns meses depois, duas taças de vinho, um sorriso de cinema e outra frase capaz de transformar desilusão em esperança:

– Vem comigo?

Acontece com quase todo mundo, na esquina de casa, em Brasília ou em Hollywood. Elizabeth Taylor e Richard Burton, por exemplo, romperam o precário equilíbrio que os sustentava em 1968, quando Liz teve de tirar o útero e meteu, de vez, os dois pés na jaca, nos drinques e nas drogas para esquecer a tristeza de não poder mais ter filhos.

Pouco antes, John Lennon e Yoko Ono davam os primeiros passos de seu igualmente louco amor no final de 1966, diante de uma uma escada branca no topo da qual havia uma lupa com que era possível ler a palavra Yes. Dizem que foi por causa deste Sim, escrito no alto da obra “Ceiling Painting”, que ele se encantou por ela, pela possibilidade de assentir o que viesse, confirmar as incertezas, aceitar até mesmo as possibilidades mais inaceitáveis.

Oscar Wilde percebeu que lorde Alfred Douglas não valia a poeira de seus sapatos quando era tarde demais: já estava na cadeia por causa do amante. Antes, porém e durante muito tempo, pintou a personalidade negativa do rapaz com as tintas da imaginação – palavras de Rosa Montero no livro “Paixões – Amores e Desamores que Mudaram a História”.

[Recomendo].

Rosa Montero, aliás, defende em outro grande livro [“A Louca da Casa”] que as infâncias que trazemos na memória são recriações, meras fantasias, e me dizem que talvez nesta ideia esteja a resposta para as perguntas de um pouco antes. O amor talvez acabe quando passamos a achar mais importante [re]criar o passado que tocar o presente em direção a um futuro tão incerto quanto as possibilidades de ganhar os 20 milhões [que não ganhei] na Megasena.

Penso que sim, pode ser, e que talvez um amor comece exatamente do jeito contrário: quando vivemos hoje, esquecemos ontem e não buscamos respostas para amanhã. Sim, pode ser, porque o amor morre um pouquinho a cada um dos medos imaginários que carregamos, estes malditos receios que assustam mais que barata, mais que falta de dinheiro, mais que pneu furado no meio do nada, mais que tudo, mesmo sendo tão pouco.

rosa montero três

A história foi inspirada por ela:

Disse que, apesar de tudo, ainda acreditava no amor, e era tudo o que podia dizer naquela conversa sobre afetos, distâncias, dúvidas e Rosa Montero. Estavam a milhas de distância um do outro, e ela tinha as duas piores pressas do mundo: a hora marcada e a aflição dos que não sabem onde pisam. Disse do compromisso, mas não da angústia, e de sua opção pela solidão, dos motivos e tudo, e de como aquele sorriso contido atrapalhou os seus propósitos, fez querer arriscar de novo, tudo de novo, tudo.

Disse de como talvez fosse bom perder o rumo e a razão outra vez, e de como seria chorar embalada por três doses de qualquer coisa e depois seguir a vida caso as coisas outra vez dessem errado. Disse do seu cansaço, e ouviu do dele, do computador novo, das incertezas sobre as escolhas dos últimos tempos, da visita que a mãe faria, dos outros planos para maio e depois, ainda.

Disse quase tudo, menos das coisas que não teve coragem de dizer, das dúvidas que ela também carregava, da briga entre o medo do desconsolo e a vontade de ter de novo um amor que fizesse rir, ver mais sentido nos dias e nas noites, cair do cavalo e desacreditar de tudo outra vez, dos sonhos e senões que alimentou em silêncio, pela mesma falta de coragem de dizer. Tinha o dito e o não dito, e achava que agora era preciso viver as intenções todas, parar de dizê-las, isso sim, e vivê-las.

*****

Disse que, ao contrário dela, não sabia ao certo se vivia as intenções todas ou se analisava a vida. Disse das complicações sem dizer de verdade quais eram, dos limites sem estabelecê-los, do fato de que pessoas se gostam de jeitos diferentes e nem sempre sabem o que fazer com tanta diferença.

Disse do seu interesse em entender as relações que estabelecia com as pessoas e os sentimentos que cultivava, de entender e explicar, de sua mania de mudar de ideia quando as coisas pareciam já assentadas, do fato de que tinha muito mais incertezas do que certezas (só podia ser coisa de signo tanta hesitação), de tudo o que tinha feito para tornar viável aquela história que não foi, e das pedras do meio do caminho.

Disse quase tudo, menos das coisas que, como ela, não teve coragem de dizer, das definições que faltavam, de todos aqueles anos em que guardou olhares e desejos em segredo porque não era permitido compartilhá-los, do tempo que precisava para pensar, e era tudo o que podia dizer naquela conversa sobre afetos, distâncias, dúvidas e Rosa Montero. Estavam a milhas de distância um do outro, e ele tinha as duas piores dúvidas do mundo: uma fosse talvez sobre o amor, a outra sobre o que fazer com ele.

rosa montero um

A história foi contada por ela:

Havia um sujeito bastante doente, mas que demorava a morrer, e de nada adiantava o médico balançar a cabeça e dizer: – Desta noite não passa. O homem respondia: – Não, nada disso, não se preocupe. Não posso morrer porque tenho que terminar de ler “O Outono do Patriarca”. Assim que o médico saía, ele pedia a uma das filhas: – Traga um livro mais grosso. Enquanto isso, não paravam de morrer colegas dele, e ninguém sabia o que de fato acontecia, até que a filha do não-morto explicou: – É porque a morte é leitora e, sempre que chegava e via meu pai lendo, se esticava toda para ver o que ele lia e se distraía, esquecendo de levá-lo.