pequeno dicionário para o ano que começou

A
Água
Alimentos orgânicos
Alongamento

B
Bicicleta
Balanço
Boas companhias

C
Chás
Creative Commons
Crônicas

D
Detox
Diversão
Discos de vinil

E
Estampas
Estudos
Escrever

F
Filtro 40
Foco
Frutos do mar não pode

G
Gastronomia sentimental
Gengibre
Gim com água tônica

H
Humor
Havaianas
Here Comes the Sun, a música

I
Iogurte com granola
Inspirações
Interesses novos

J
Jazz
Janelas abertas
Jornalismo

K
Kind of Blue [o disco]

L
Leveza, sempre que possível
Livros
Liberdade

M
Movimento
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo
Medicina Tradicional Chinesa

N
Nachos
Namorar
Nina Simone

O
Olhar o mar
Óculos de sol
Óculos de grau

P
Pão integral
Plantas na varanda
Paciência e perseverança

Q
Queijo sem lactose
Quitanda
Quase um Segundo nas escolas do Estado

R
Receitas novas
Respirar profundo
Rubem [a revista]

S
Sol
Saúde
Sossego

T
Tomate [o esmalte]
Trabalho bem feito
Tom maior

U
Universidade
Utopias possíveis
Uva passa sem caroço

V
Viajar, voltar
Vitória [a cidade]
Vida Simples [a revista]

W
Wi-Fi
Waffle
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
Xampu com cheiro bom
Xadrez [no guarda-roupa]
Xô, energia negativa

Y
Yin-Yang
Yoga
Yes, we can

Z
Zen
Zoombido [o programa de TV]
Zarpar quando for preciso

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um olhar sobre as coisas [ou pequena crônica sobre a perspectiva]

Parece ser a ordem natural. Em algum momento da vida, depois de uma noite tranquila ou de um dia de eficiência comprovada, o que nasceu intenção vira projeto e depois hábito, palavras agarradas no teclado de computador viram texto e quem sabe livro, saudade vira cansaço e depois seguir em frente. Durante um projeto modesto ou num voo ambicioso, o que nasceu dúvida vira impressão e quem sabe certeza, compreender, dizer sim, descansar, confiar, simplesmente, sem histórico da escola, sem nada consta do cartório, sem fiança, penhor ou caução, acreditando nas palavras e nas pausas, porque sim e pronto.

Em algum momento da vida, o que era possibilidade vira determinação e a gente, leve como pluma muito leve leve pousa, não consegue mais ficar longe do abraço apertado, do jeito de levar, das manias engraçadas, de tudo. Ou então é o contrário, e o que nasceu afeto vira uma gélida indiferença, a realidade assume como reais os medos que eram imaginários, cansaço, dor, as ausências e as canções, pagar pra ver o invisível e depois enxergar que é uma pena.

[Não cabe como rima de um poema, de tão pequena].

Depois de um tempo e a certa distância, até o rancor acaba em outra coisa. Daí a verdade feita de saudade, ciúme, cansaço, ansiedade e apego abre espaço para a percepção de que rupturas são indispensáveis, de que coragem e criatividade fazem melhor ao mundo que conformismo. Daí, depois de uns meses às vezes anos, o inverno acaba, as aflições ficam menores e a gente enfim aprende a relativizar, negar o caráter absoluto das coisas e tratá-las, todas, como se houvesse dezenas de verdades, boas e más, num único fato.

É como escreveu o autor de nariz adunco e sobrenome ligeiramente familiar em uma página a respeito da tristeza pelos não acontecidos: frustração, por definição, decorre de expectativas não atendidas, de vontades não realizadas, desperta perda de esperanças e uma desagradável sensação de injustiça. Mas, como ele mesmo emenda, dar um crédito positivo aos não acontecimentos significa ter o espírito mais aberto, minimizar o peso das derrotas e dar mais leveza à alma.

Em outro momento ou de um lugar diferente, uma angústia sufocante não passa de nada, o pior dos ressentimentos não passa de uma lembrança vaga, um monstro gigante não passa de um ciuminho bobo, uma paixão incurável não passa de um amontoado de memórias brandas. Em outro momento ou de um lugar diferente, os pesos pesam menos e, depois de algumas horas de sono, dá até pra reconhecer o tamanho do passo que pareceu pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso.

Talvez seja mesmo um pouco de Física, Albert Einstein e a teoria segundo a qual dois pontos de vista diferentes oferecem visões diversas, e ambas perfeitamente aceitáveis, de um mesmo objeto. Talvez seja ainda como as pinturas da exposição de outro dia, M.C. Escher e seus desenhos baseados na geometria, na perspectiva e na demonstração de que uma mesma cena pode ser explorada por caminhos diferentes.

Do mesmo modo que altura, distância, gravidade e profundidade estão sujeitas às leis que regem a matéria, amor, trabalho, esperança, vazio, riso, coração partido, raiva ou afeto têm aparência e essência determinadas pela passagem do tempo e pela curvatura do espaço. Depois de um período e a certa distância, as coisas mudam, ou então muda o olhar que colocamos sobre elas.

pequenas esperanças

Elas são o contrário do título do romance em três volumes que Charles Dickens escreveu sobre a saga do mais ou menos afortunado Philip Pirrip. São econômicas como certas conversas deviam ser, mansas como o modo de viver daquele homem, suaves como os melhores cheiros, essenciais como um grande amor. Nascem de um detalhe, uma palavra bem colocada, uma visita, um telefonema na madrugada, um encontro, um abraço, um olhar, um presente feito à mão, a própria mão encostada de um jeito bom – aquele jeito.

Às vezes até um silêncio diz delas, pequenas esperanças que a gente alimenta para superar dias ou noites difíceis, parar de chorar, voltar a sorrir e quem sabe dormir um pouco.

Elas são o contrário das expectativas desfeitas, justo oposto de quando a gente descobre que os laços que fez não necessariamente terão final feliz, de quando a gente pensa que vai ser reconhecido no trabalho quando não necessariamente vai, de quando acredita de novo no amor apesar das desilusões anteriores – e depois outras, e de novo o amor.

Nascem no movimento ou no sossego, um feriado calmo em frente à TV ou uma seleção inteira de sons, em alto e bom volume, um depois do outro. Às vezes até um sorriso diz delas, pequenas esperanças que a gente alimenta para conseguir levantar e seguir adiante, trabalhar, cozinhar, almoçar, lavar os pratos e quem sabe criar um pouco.

Elas são o contrário da desconfiança, aquela sensação boa de acreditar, contar a vida inteira numa noite de conversa, entregar o joelho pro médico na sala de cirurgia, dar a chave pra faxineira, emprestar seu filho pra passear com a tia, dormir na estrada enquanto o outro dirige. Nascem vai saber de onde, vai saber por qual motivo, vai saber.

Às vezes qualquer coisa diz delas, abrir a porta de casa pros amigos que acabou de fazer, consentir o vizinho pra síndico, entregar as unhas pra manicure de alicate afiado, emprestar o vestido preferido pras amigas, dormir abraçado enquanto o outro vê o futebol, simplesmente porque confia.

Elas são como as determinadas canções, letra, música, amor, planos pro futuro, paisagem, verdade desde o início, certo, incerto, dançar até sem saber rodar, lugar comum.

[Queria te contar que tem espaço de sobra no meu coração].

Nascem da genética ou da bagagem, lembrança, herança, distância ou nem, capacidade de dar a volta por cima, otimismo ou coisa do tipo. São o contrário do título do romance em três volumes que Charles Dickens escreveu sobre a saga do mais ou menos afortunado Philip Pirrip, o contrário das expectativas desfeitas, o contrário da desconfiança. São as pequenas esperanças, que trazem cor aos tempos difíceis.