do dia que encontrei carmélia

Apresentação
Por Milson Henriques

Prefácio do livro Quase um Segundo, 2013, Editora Cousa

quase_capaHá algum tempo, uma insônia braba me pegou e afagou meu ego, já que reza a lenda ela só ataca gente inteligente. Junto, uma necessidade woodyalleana de caminhar (procurar?) pela madrugada, como fazia habitualmente nos meados do recente século passado. Alguma força me arrastou para o centro da cidade, me deixei levar curiosa e corajosamente. Larguei o Fusca na Costa Pereira, segui pela Rua Sete e… não acreditei!! O Britz Bar reaberto?!? Impossível. Acabou creio que no final dos anos setenta!! Entorpecido de surpresa, caminhei com passos de mendigo medroso e… quem estava lá? Impossível!!! Carmélia?!? Mas ela mora naquela estrelinha azul que tanto desejou!! Não pode ser!! Claro que não!! Ela estava na mesa com apenas uma menina pequena, e a gorda nunca foi chegada a criança!

Minha curiosidade foi enorme. As duas estavam num papo que parecia sério, embora às vezes dessem gargalhadas. Cheguei por trás de mansinho para não ser visto, a menininha me olhou. Cúmplice, fingiu que não. Mas reconheci aquele olhar. De onde? Nunca havia visto aquela criança, principalmente naquele antro de jornalistas, comunistas, biriteiros, hippies, gays, viciados, cabeludos e outras espécies que a Tradicional Família teme e condena. Pensei numa hipótese louca: talvez eu conheça aquele olhar lá do meu tempo futuro… A danadinha tinha um olhar sapeca, doce e, como já disse, cúmplice, mas com uma pitada triste da lua minguante. Mas quando me aproximei as duas foram sumindo, com o Britz…

Tenho uma atração pelo começo e pelo fim (por acaso gosto da palavra ocaso), a largada e a chegada, a infância e a velhice. São as duas fases do ser humano que mais gosto de conversar. Mas conversar o quê, se em geral a criança ainda não sentiu a dor da perda, a reconquista da paz, nunca leu Pessoa, Florbela, Drummond, nunca ouviu Tom Jobim, Chet Baker, nunca chorou ouvindo o Adágio de Albinoni? E o idoso, que nem se digna a me responder, porque já enterrou todas as suas mágoas e dores, cobrindo tudo com a areia grossa da amargura?

Eu mesmo já estou sentindo a leve impressão de que já vou tarde…

Não sei se me apaixonei pelos textos por causa da autora ou se me apaixonei pela autora por causa dos seus textos. As duas possibilidades estão certas. O que importa é Ana Laura, que, adulta, possui a pureza sábia da criança e o desencanto do idoso, embora ainda conserve no peito um fio grosso de esperança. De quê já é outra história. Ninguém pode continuar insensível depois de ler isto: “Penso em como a gente devia, mais que tudo, saudar os que estão vivos, um sorriso, uma conversa, respeito, uma mão, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, para que, quando partirem, seja fácil comer, beber, colorir, receber, dançar, iluminar e cantar em homenagem a eles. Chorar também pode, mas de outro tipo de dor, conforto talvez, de saber que fez o melhor possível enquanto era tempo, e aí resta apenas celebrar”. E mais isto: “(…) aceitar que um mesmo olhar sobre uma mesmíssima coisa é um outro olhar sobre outra coisa, porque num dia o que era amor se torna só indiferença e depois mais nada, e o vazio se transforma em outro amor e depois ninguém sabe”.

Ao contrário de muitos poetas e escritores, a pessoa Ana Laura é exatamente igual ao que escreve. Porcelana. Cristal. Às vezes o tilintar alegre do encontro de taças, às vezes o badalar pesado e melancólico do sino da velha igreja. Gota de orvalho na teia, às vezes aranha devoradora, às vezes a mosca perdida, às vezes a própria teia. Com toda sua aparente leveza, ela também às vezes (sempre?) responde, questiona, discorda (consegue ser viciada em Coca Cola sem ferir nossa amizade!). Mas tudo com tanta doçura, tanto ternura sem pieguice, tanta verdade corajosa sem magoar. Ana Laura não tem contraindicação.

Quando a gente mastiga um suculento morango sente uma gastura capixaba lá no final dos dentes, uma pequena ardência refrigerada que nos faz salivar de prazer, saca? Ana Laura às vezes é exatamente assim. Ler Ana Laura é, como na madrugada, ouvir o canto de um galo perdido naquele distante imaginário lugar onde temos a impressão que o nosso ideal se encontra escondido. Conversar com Ana Laura é sentir em você um olhar danadinho, sapeca, doce, cúmplice, mas com uma pitada triste de lua minguante…

Epa! Então era ela!! Eu sabia que aquilo não foi um sonho!! Obrigado, Ana Laura, sempre tive certeza que um dia iria reencontrar você!

(Sempre defini felicidade como momentos. Por exemplo, o momento do telefonema me convidando para a honra – e responsa – de prefaciar este livro é minha mais nova definição).

E você, futuro leitor, que está com o livro nas mãos, parabéns. Se comprou, ganhou, roubou, pediu emprestado, seja lá como for que foi parar em seu poder, prepare corpo e alma para sentir o que senti. Mas prepare mesmo. Se não puder ler à tardinha, embaixo de uma árvore (daquelas antigas, cheia de pássaros e histórias para contar), numa praia distante, leia em sua casa, mas DE MADRUGADA, para ler com calma. Abra um bom vinho, vodca ou cachaça – a preferência é sua. Se não tiver, não tem importância, leia a seco mesmo, porque garanto que você vai tomar um porre de ternura, abandono gostoso, filosofia, amores, desamores, bares, butecos, doses, doces, doçuras. Garanto que antes do dia nascer irá encontrar um amor guardado dentro do pote de guardar amores.

Tome um porre de Ana Laura, não tem perigo de ressaca.
Ou tem, sei lá.

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sobre o coração e coisas do tipo número 2

Outra vez olhei em volta e o mundo inteiro parecia estar com o coração partido. O assunto das madrugadas eram de novo os adeuses, as ausências e as saudades, embora as madrugadas em si fossem um pouco diferentes e o riso estivesse de novo nos olhos da minha amiga que não combina com a dor. As histórias eram outras, com personagens diversos e cenários mais ou menos trocados, mas o músico cantava ainda o ponto final dele e, do mesmo modo, havia aquela canção lindíssima das noites mal dormidas, calor cobertas aquece direito nada mundo afastar frio braço peito volta.

[Pois o corpo está acostumado].

Havia mais cores, menos tensão, menos amargura, menos sobrecarga sobre os ombros ligeiramente tortos. Chovia menos, dentro e fora, embora as minhocas ainda trabalhassem a todo vapor, silenciosas e contínuas como os piores fantasmas, íntimas como o poema das seis ou treze coisas que Manoel de Barros aprendeu sozinho, a gravata do urubu, as quatro teorias de árvore, a palavra parede, as rachaduras e os vermes, Seu França o violeiro, as cigarras, o escuro, as casas habitadas por morcegos, as ruínas, aquilo tudo.

As escolhas também se haviam tornado mais leves e menos dependentes [embora ainda] do músculo involuntário que mora entre os pulmões e bate também no peito dos anelídeos, dos artrópodes, dos moluscos, dos cordados e dos desafinados. A busca seguia a de ser como a maioria dos budistas, boa parte dos desapegos e as crianças , sem bagagem, sem dor de cabeça, sem excesso de tarefas, sem gangorra, sem sufoco, sem a amargura do tempo, sem o medo do futuro, sem a guerra ou a tragédia que é ter dor de cotovelo.

[Dói do cóccix até o pescoço].

Mesmo assim, quando olhei em volta, o mundo parecia outra vez estar com o coração partido, embora fossem outras as histórias e diversos os personagens. Quis dizer o que havia aprendido com a ciência, que o coração é um órgão oco que bombeia o sangue de forma que circule pelo corpo todo, um percurso que, nos seres humanos, demora cerca de 50 segundos em repouso. Daí, impulsionado por uma pressão razoável, o sangue percorre braço, boca, nariz, peito, batatas da perna, cérebro, mão, joelho, o cantinho da unha, fígado, pulmão e estômago, ida e volta, levando o oxigênio e os nutrientes às células que sustentam as atividades do organismo, e pronto.

Quis dizer também o que havia aprendido com o tempo, que o coração é um órgão cheio que organiza ações e reações, opções e decisões, caminhos e desvios, um hábito que, nos seres humanos, dura cerca de uma vida inteira. Daí, durante este tempo, determina escolhas, seleciona encontros, recorta sentimentos, amor, amigo, desgosto, expectativa, espera, insistências, desistências, reticências, feliz ou nem, inesquecível ou aquele abril inteiro que era melhor apagar, chegadas e partidas alimentando o movimento que sustenta as atividades do espírito.

Quis dizer da ciência, do tempo, das ausências, da canção, das cores, dos ombros e da chuva, das minhocas e das seis ou treze coisas que Manoel de Barros aprendeu sozinho, quando olhei em volta e o mundo parecia outra vez estar com o coração partido. Quis dizer do movimento que sustenta as atividades do espírito, da ida e volta que alimenta as atividades do corpo, da mudança que logo estaria no lugar daquele desassossego.

Quis dizer do aprendizado difícil, mas muitísssimo útil, a respeito das chegadas e das partidas – e até dos dias em que não dá tempo de dizer adeus. Quando olhei em volta e o mundo inteiro parecia estar com o coração partido, embora fossem outras as histórias e diversos os personagens, quis dizer que sempre passa, mesmo que na hora não pareça.

de palavras e de coisas

Café é uma palavra que eu gosto de graça, quatro letras, um acento, açúcar, adoçante ou nem, gosto, textura e cheiro a serviço da energia, do calor e dos encontros. Encontro é uma palavra que eu gosto à toa, no corredor, quando a gente menos espera, no balcão ou então logo ali, na mesa do canto, na madrugada silenciosa ou no finzinho da tarde, amanhã, agora, qualquer hora, depois do expediente ou nos dias de folga.

[Delícia].

Folga é uma palavra que eu gosto de graça, a palavra e a coisa em si, sair cedo pra ver o mundo com o dia claro, andar a pé até a praia, desafinar debaixo do chuveiro, cuidar das lembranças, das panelas e das samambaias. De samambaias também gosto à toa, da palavra e da coisa em si. Gosto do som de dizer samambaia, do verde plástico delas, da sensação de cheio delas, dependuradas e firmes como poucas coisas no mundo conseguem ser ao mesmo tempo.

Tempo é uma palavra que eu gosto de graça, cinco letras, gramática, música, meteorologia, poesia ou o jeito que a natureza deu pra que as coisas não acontecessem todas num único instante. Instante é boa, ao contrário de medíocre, que acho feia. Prefiro ridícula, que a minha afilhada menor pronunciava ri-dí-cu-na, com N, sem ter muita ideia do que significava, do jeito mais fofo do mundo. Mundo, aliás, é outra palavra simpática, que nem coisa, que quase nunca decepciona.

Canção é uma palavra que eu gosto de graça. Ordinária é outra, comum, habitual, repete. Espera também é boa, embora as esperas sejam em si um troço dispensável. Trem é igualmente boa. Melhor ainda é a história de que os astecas, no dia exato em que chegavam ao meio da vida – eles sentiam a hora certa -, notavam uma súbita vontade de tomar um trem para algum lugar. Como os trens não tinham sido inventados, eles acabavam por guardar uma tristeza que vinha da vontade de algo que ainda não sabiam.

Gosto de compreensão, da palavra e da coisa em si, capacidade de andar junto apesar do descompasso e percepção de que aceitar às vezes funciona melhor que qualquer força. Força eu não gosto, mas acaso é uma palavra bonita demais da conta. Amigo é palavra boa e coisa melhor ainda, um olho pra ver o Roberto e o Erasmo emocionados no palco, um ombro pra ouvir lamentos, um riso pra rir quando os lamentos terminam, um par de pernas para bater e uma dose extra de disposição pra beber Absolut de baunilha, enterrar os que nos deixam cedo, puxar a orelha quando precisa, receber e dar notícia.

Notícia é uma palavra que eu gosto de graça, que nem café, encontro, folga, samambaia, tempo, mundo, troço, trem, pepperoni, balanço, liberdade, silêncio e Carlos Drummond de Andrade. Ideia também, invenção abstrata, pensamento, intenção, moda, imaginação, nascidos de uma conversa regada a margaritas, durante as insônias, na cozinha, diante dos discos, na sala, no bar ou no banheiro, paz, nudez ou semi, sossego, o lugar – alguém disse, com toda a razão – de onde saímos mais limpos, mais puros e mais dispostos.

Pureza é uma palavra que eu gosto à toa, e teu é o pronome mais bonito de todos. Saudade é boa, mas é ruim. Tagarelice é divertida. Blablablá é melhor ainda. Movimento é cool, igual café, encontro, folga, tempo, mundo, trem, balanço, ideia, razão, pureza, blablablá e o blues do homem de cabelo cinza – o dela é cor de abóbora, e abóbora é uma palavra que eu gosto de graça.

De gangorra eu não gosto. Desde pequena, a melhor hora pra mim era quando ambos estavam no meio, um se equilibrando no equilíbrio do outro. Eu não sabia, àquela altura, que para haver estabilidade era preciso ter igual distribuição de massa ao redor de um ponto de apoio. Ignorava o princípio segundo o qual a harmonia exige que a parte mais pesada esteja abaixo do ponto de equilíbrio de um determinado corpo – por isso, diz a ciência, é mais fácil atravessar um rio pendurado numa corda do que andar sobre ela.

Desconhecia ainda a matemática a respeito das distâncias, pesos e apoios que faziam dar certo a brincadeira da tábua sustentada no ponto central pelo princípio da alavanca, e nem a canção direito eu entendia.

Eu levo a vida pensando.
Pensando só em você.
O tempo passa e eu vou me acabando no balancê balancê….

Balanço é uma palavra que eu gosto de graça, quase tanto quanto encanto, o sorriso da minha amiga diante das histórias, o modo como o futebol alegra os domingos dela e os afetos preenchem as suas ausências. Vazio tem um quê de bom: por pior que seja, sempre pode ser um primeiro passo. Finais acontecem, mas bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, uma conversa de uma madrugada inteira, descobrir as preferências e os desgostos e as vírgulas da vida, uma viagem ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

das coisas que a gente aprende com as flores

Pouca coisa no mundo lembra delicadeza e doçura de modo tão imediato quanto as flores. Diante das flores, a gente pensa em açúcar, afeto e gentileza, aprende sobre a espera, a regadura e o melhor dos remédios, entende o ritmo, a suavidade e as possibilidades da natureza, percebe o caminho, o processo e o movimento das sementes, coleciona lições.

[Drummond dizia, com toda razão, que entre a raiz e a flor há o tempo].

Com os girassóis, a gente conclui que os dias azuis e amarelos sorriem mais e a gente sorri com eles e decide que faz bem ser um pouco heliotrópico, comportamento que, segundo a biologia, têm os vegetais que por motivos diversos se voltam para o sol. Com as rosas, descobre o devagar da vida, a sutileza do toque, a importância do cheiro, o machucado do espinho e o cuidado, uma pétala depois da outra e às vezes os ais – e ainda tem o Rosa, nome próprio com nome de flor, que escreveu que o mais bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que vão sempre mudando.

Com as margaridas, percebe os capítulos que a vida cria em torno de outros capítulos, o branco, o amarelo e o laranja dispostos em círculo, um depois do outro, capazes de trazer de volta um pouco da inocência das crianças, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer.

Com as tulipas, sonha com o amor perfeito e estuda até um pouco de geografia quando contam que elas vieram da Turquia, não da Holanda. Com as orquídeas, ingrediente da bebida que dava força e virilidade aos astecas e curava tosses e doenças pulmonares dos chineses, a gente acolhe o que é elegante, exótico e sensual, e treina um pouco do verbo cultivar: quanto de luz, rega moderada e adubação periódica com substratos apropriados, um diferente para cada fase do desenvolvimento.

Com as violetas, por fim, que os homeopatas usam desde 1829 para combater sinusites e reumatismos, a gente pinta de colorido a casa de paredes brancas e enfeita as estantes com a espécie que jardineiros, paisagistas e floristas acreditam ser o símbolo da lealdade e da modéstia, três meses de descanso e depois flores outra vez, exatamente como Cecília Meirelles escreveu que seria, girassol, rosa, margarida, tulipa, orquídea, violeta e gente:

“Aprendi com as primaveras
A deixar-me cortar
E voltar sempre inteira”.

carta aberta aos intolerantes

A verdade é que vocês passaram dos limites. Esqueceram as aulas sobre a física do respeito, ignoraram os capítulos sobre a matemática da polidez, aboliram qualquer noção sobre a geografia do equilíbrio. Afeto então nem se fala. Porrada virou argumento, tanto quanto desabonar a honestidade, a seriedade e as boas intenções dos outros com zero de conhecimento e nada de comprovação.

Pensar diferente não pode, só o mesmo candidato, o mesmo Deus, o mesmo time, o mesmo tempero, a mesma posição sobre o diploma em jornalismo, o mesmíssimo olhar sobre o mundo, a política, o cardápio, a fé, o futebol ou as regras de uma profissão, ou então a guerra, um porque nasceu judeu, o outro porque mudou de ideia, um porque votou sete, o outro porque não votou, um porque acredita no que o outro duvida.

A verdade é que vocês passaram dos limites. Esqueceram as aulas sobre a beleza da contradição, ignoraram os capítulos sobre a delicadeza do diálogo, aboliram qualquer noção sobre a suavidade das perguntas. Encanto então nem se fala. Ganhar no grito virou moda, tanto quanto desabonar os princípios, a conduta e as escolhas dos outros com zero de conhecimento e nada de comprovação.

Gostar de outra música não pode, só o mesmo acorde, o mesmo ritmo, as colcheias, semicolcheias, fusas e semifusas no mesmíssimo compasso, ou então a guerra, um porque não sabe perder, o outro porque não enxerga os próprios defeitos, um porque não concorda com o amigo, o outro porque nem amigo é, um porque cultua seus santos, o outro porque detesta azul.

A intolerância, defendem os filósofos do velho livro de capa preta, tem sua origem na inclinação dos humanos a impor as próprias crenças, desde que disponham de algum tipo de poder para impedir que os outros levem a vida com bem entendam. Aprendemos a tolerância pouco a pouco, como aprendemos a controlar determinados músculos ou a jogar certas partidas. Muitos sequer aprendem, e daí agridem, em maior ou menor grau, na rua  ou no Facebook, no carro engarrafado ou no jardim do vizinho, na Argélia ou em Auschwitz, pedrada, torpedo, empurra-empurra, ofensa, processo, passeata, ironia, a janela ou a sala de estar destinados a acabar com qualquer sinal de divergência da maneira mais bruta possível.

A intolerância é o inimigo que nega toda a riqueza da conversa, defendem os filósofos do velho livro de capa preta. Quando a palavra fracassa, a violência entra em cena. Porque somos animais e por causa das nossas raízes biológicas, eles ensinam, não gostamos dos que são diferentes de nós, porque têm cor diferente de pele, porque falam uma língua diferente que não entendemos, porque comem rã, macaco, porco e alho ou porque fizeram tatuagens.

Então, diante das tatuagens, do velho livro e dos fatos, penso no que me disseram uma vez, que era preciso coragem para ter uma imagem, palavra, marca, um troço eterno enquanto dure o corpo, uma frase inteira que num momento faz sentido, mas no outro vai saber, um desenho feito à mão numa tarde como aquela todas as tardes seguintes, a canção que agora emociona, mas ano que vem vai saber. Respondi que sim, era preciso coragem e um pouco de tolerância – justo o oposto da outra – para a dor. Porque quanto mais definitivas são as escolhas maior seu peso, mas que todas as escolhas sejam de alguma maneira definitivas, deixavam marcas, mesmo as menores.

Diante das lembranças, da capa preta do velho livro, da filosofia e dos fatos, penso no quanto faz bem ter coragem para debater, no campo das ideias, as diferenças que os intolerantes muitas vezes preferem resolver no grito. A verdade é que vocês passaram dos limites.

da arte de fabricar e jogar bumerangues

Bumerangues são mais ou menos o seguinte: um dia, um habitante de uma tribo antiga da Europa – ou então foram os aborígenes da Austrália, os faraós do Egito ou os arqueólogos da Polônia – inventou um objeto de arremesso milimetricamente cortado numa forma muitíssimo específica capaz de voltar ao lugar de seu lançamento. Seu objetivo era simples como o desejo daquela noite, e bastava mandá-lo ao infinito e além, como Buzz Lightyear, para que ele fosse e, naturalmente, voltasse.

Metáforas são mais ou menos o seguinte: um dia, um filósofo do período socrático – ou então foram os trovadores da Idade Média, os poetas de depois ou o linguista francês que deu significado às palavras e às coisas -determinou que todas as histórias, das simples às complexas, podiam ser explicadas por comparações, alegorias ou analogias. Sua intenção era bonita como aquele sorriso, e bastava pensar um pouco para encontrar numa canção, num filme, no futebol ou no trânsito a razão daquela atitude, daquele silêncio, da distância que nem todo o amor do mundo consegue reverter, das indecisões alheias, de quase tudo.

Os bumerangues têm uma maneira curiosa de fabricação, tanto os de asas simétricas quanto os com cara de ponto de interrogação e os com uma asa maior que a outra. São feitos em madeira, PVC, fenolite, celeron, fibra de vidro e fibra de vidro reforçada com carbono a partir de moldes com nome estranho como Arakatu, OTTO, Mong, Aissô, Swallow e CC15, e exigem atenção extra na hora no cálculo dos bordos de ataque e de fuga, do corte, da lixa e, finalmente, da secagem.

As metáforas, igualmente, nascem, crescem, reproduzem-se e morrem de acordo com regras próprias, e pedem cuidado extra no momento de saber se servem ou não para sustentar uma comparação, embalar uma alegoria, explicar uma história como aquela, de tanto tempo e a mesma vontade, que as meninas da trupe decidiram tentar compreender com a ajuda dos bumerangues.

Bumerangues, como alguns encontros e determinados sentimentos, são feitos para voltar sempre. Por isso precisam de delicadeza na construção, certeza no acabamento e equilíbrio no arremesso. Bumerangues, como alguns encontros e determinados sentimentos, carregam o cálculo perfeito de velocidade, do peso e da força. São Física pura e talvez também um pouco de Arte. Chova ou faça sol, os bumerangues sempre voltam, até quando deviam cortar cana em outras estâncias.