do que eu falo quando eu falo de minorias

Outro dia falávamos do desafio proposto pela escritora nigeriana Luvvie Ajayi para mostrar como certos grupos têm privilégios por sua origem, cor da pele ou orientação sexual, e o quanto as diferenças os distanciam dos outros. 

Ajayi propôs uma atividade aos participantes de uma palestra, fazendo perguntas sobre facilidades e dificuldades encontradas por eles ao longo da vida. Dependendo da resposta, os integrantes eram orientados a dar um passo adiante ou atrás. No final da ação, alguns estavam bem à frente dos outros, distantes o bastante para não conseguirem mais se comunicar. 

A ideia era mostrar como negros, mulheres, homossexuais e pessoas com deficiência, por exemplo, ficam para trás por causa da cor da pele, do gênero, da orientação sexual ou de impedimentos físicos. 

De quebra, o que se viu é que homens (e só depois as mulheres) brancos (e só depois os negros) heterossexuais (e só depois os LGBTI+) sem deficiência física (e só depois as pessoas com deficiência) haviam sido, de algum modo, privilegiados em muitos momentos de suas caminhadas simplesmente por terem nascido como e onde nasceram. 

Os outros, ao contrário, engrossavam as fileiras das minorias, mesmo que em grande número.

Não deveria ser de se estranhar, portanto, quando alguém defende que minorias não necessariamente estão em menor número numa comunidade. Embora o significado oficial da palavra seja “condição do que é numericamente inferior a outro”, quando falamos de grupos minoritários num determinado contexto ou sociedade estamos nos referindo não à quantidade de integrantes, mas a uma situação de desvantagem ou dependência social. 

O conceito não guarda um consenso absoluto, nem caberia num artigo modesto como este. Mas, em resumo, a partir desse ponto de vista, são as relações de dominação e privilégio que definem quem é minoria. Elas também, e cada vez mais, reforçam a urgência em proteger os diferentes, a importância de fortalecer a empatia e a necessidade de estimular a diversidade. 

privilégios

Em 2017, durante um encontro entre líderes de negócios, entretenimento, tecnologia e finanças, a escritora nigeriana Luvvie Ajayi propôs ao público um desafio surpreendente. A autora do best-seller I’m Judging You: The Do-Better Manual (ainda sem edição brasileira) convocou brancos, pretos, jovens, idosos, gays, transexuais, heterossexuais e pessoas com deficiência a subirem ao palco para formar uma linha, um com a mão no ombro do outro. 

Ajayi fez aos integrantes do grupo perguntas sobre facilidades e dificuldades encontradas ao longo da vida. Dependendo da resposta, eles eram orientados a dar um passo adiante ou atrás. No final da ação, alguns estavam bem à frente dos outros, distantes o bastante para não conseguirem mais manter um a mão no ombro do outro. 

A ideia era mostrar, na prática, como certos grupos têm privilégios por sua origem, cor da pele ou orientação sexual, e o quanto as diferenças os separam. Quanto mais à frente um deles estava, mais difícil se tornava ver e se comunicar com os outros. 

Privilégios são prerrogativas, permissões para executar determinadas atividades ou acessar áreas restritas, direito válido apenas para um indivíduo ou grupo. Alguns deles podem ser adquiridos pelo cargo no trabalho, pelas habilidades pessoais, por atributos físicos como força ou beleza, pelo esforço intelectual e por diversos outros caminhos. 

Outros não dependem da dedicação individual, mas da estrutura da sociedade e de suas relações de poder. Eram eles que a iniciativa de Luvvie Ajayi destacava: os privilégios que têm os brancos sobre os negros, os homens sobre as mulheres, os heterossexuais sobre a comunidade LGBTI+, os mais jovens sobre os mais velhos, aqueles sem impedimento físico sobre as pessoas com deficiência. 

O experimento da escritora nigeriana mostrou também que, entre os ocupantes das posições dianteiras, havia diferentes graus de clareza dos próprios privilégios. Os mais conscientes sabiam do poder de sua voz para reduzir o abismo que, por motivos alheios às vontades e aos esforços individuais, os separava dos outros. 

Em alguns, havia, ainda, a compreensão de que privilégios não são necessariamente uma ofensa, um palavrão, um xingamento. Ao contrário: eles podem ser um degrau, um sopro, um primeiro passo, para atuarmos em favor dos que ficaram atrás de nós.