da série leituras

BEM NO FUNDO
Por Paulo Leminski

aspasNo fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

leminski e o sentido da vida

Conversávamos sobre o sentido da vida, a pureza, a angústia, a injustiça do mundo e o modo como cada um de nós encarou, nos últimos anos, a busca por qualquer coisa que explicasse todo o resto. Meu amigo era quase sempre um filósofo e, às vezes, como naquela noite em que o mundo e nós parecíamos não estar com pressa, apelava para a Física, a Metafísica ou a Política. Quando não havia mais nada, invocou Paulo Leminski.

“Haverá um dia
Em que tudo o que eu disser
Será poesia”

Ao contrário de mim, ele alimentava esperanças na procura, achava a própria busca em si um sentido, via nas interrogações e nas inquietudes um projeto capaz de dar significado ao que, à primeira vista, parecia sem lógica. Eu de minha parte achava que não era possível ser de todo feliz sem antes entender os propósitos do mundo, o egoísmo alheio, as razões da dor que talvez seja um pouco de todo mundo, o tempo e suas transformações.

Ele argumentava que não, que havia sentido até na falta de sentido, que o despropósito da guerra, o desatino do trânsito e o destempero do amor se explicavam pelo simples fato de que não se explicavam, e que era de certo modo bonito ver um sujeito abatido por angústia crônica. Leminski, de novo, socorria aquela conversa que ia pela madrugada, porque como sempre era o tempo por trás de tudo, o mesmo tempo que andava faltando naquele final de inverno, que às vezes dói, noutras vezes conserta, que tem dias que ri, mas em outros desgasta, que machuca, cicatriza ou que vai, apenas.

“Um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto”

Era tempo, experiência, bola, sânscrito, pedra, vizinha, porrada, passo, endereço, assunto, amor e presença, era poesia, divagação e Existencialismo, era o filósofo que dizia que o homem estava sozinho no mundo, forçado, por um lado, a ter consciência de sua solidão e do vazio e absurdo da existência e, por outro, livre para se definir a si mesmo, para se reinventar todo o tempo.

Falta ler os existencialistas, eu pensava, com uma ponta de preguiça, porque a pilha dos não lidos não parava de crescer, porque havia capítulos intocados e páginas atrasadas e mensagens à espera de resposta, porque quase sempre os intelectuais aborrecidos me cansam antes da hora – e não é que às vezes é bom ter três ou quatro interrogações?

Meu amigo concordaria, acho, apesar da paciência dele com os intelectuais aborrecidos – lê, pensa senta, conversa, bebe junto, com toda a dedicação do mundo. A dedicação, aliás, é o que importa, ele diz. Diz que para encontrar o sentido da vida é preciso procurar com todo o popozão. Diz popozão quando quer dizer coração, fazendo graça, e eu digo Leminski de novo, desta vez no meu verso favorito, que há quem diga que tem toda a lógica do mundo [e que eu acho que tem mesmo].

“Acordei bemol
Tudo estava sustenido
Sol fazia
Só não fazia sentido”