outono

Apesar dos protestos alheios, sempre adorei os dias de calor, abrir a janela felicíssima com o quente que vinha de fora, aproveitar os minutos que sobravam do almoço plantada debaixo do sol como uma planta que precisasse da fotossíntese para seguir, olhar atrás do vidro a profusão de vermelhos e amarelos e cinzas e verdes do entardecer, pensar no quanto faz bem viver embalada pela ideia de que, no verão, a vida pesa menos. Mas o outono, oficialmente inaugurado aos 20 dias do mês de março, tem seu lugar; é certo que tem – e significados interessantes.

Para maias, astecas, chineses, hindus e japoneses, outono é tempo das mudanças. Segundo a canção, é a chuva chovendo, a conversa ribeira das águas de março; é o fim da canseira. De acordo com o olhar de dois anos atrás, e ainda hoje, é uma temporada de transformações, de colher e ver as folhas que caem, amarelas.

Conforme a Física, é a época em que a luz solar incide perpendicularmente sobre o Equador, as temperaturas estão mais amenas, os dois hemisférios ficam igualmente iluminados, dias e noites têm duração semelhante e o ar, menos umidade. Pelos cálculos do Instituto Nacional de Tempo, Clima e Transformações, a previsão é outra: mudanças bruscas no céu e formação de nevoeiros que terão se dissipado até o fim da temporada.

[Ufa].

Outono é tempo de projeto novo, fôlego novo, caminho novo; e cuidar dos afetos de sempre e plantar as sementes à espera de semeadura, cada uma com exigências muitíssimo particulares, terras com alto teor de matéria orgânica e água uma vez por dia para as mudas da Habanero Red, um pouco de calcário no canteiro da Chapéu de Bispo, as violetas que parecem sufocadas quando fechamos as cortinas, o verde plástico das samambaias, dependuradas e firmes como poucas coisas no mundo conseguem ser ao mesmo tempo, casca de ovo e borra de café para adubar as acerolas e um pouco de conversa, que no final das contas não deve fazer mal.

É tempo de leitura nova e descobrir, pelas páginas que se seguem, as dores do homem que, quando menino, usava calças curtas e pensava que a vida era uma fita em série e, crescido já, de calças compridas, continuou pensando do mesmo modo, de maneira que, quando uma coisa triste tinha de acontecer, acontecia mesmo.

– É o diabo.

Enquanto o verão remete a leveza, simplicidade e movimento, o outono lembra faxina, arrumação, reencontrar o foco, planejar outro caminho, voltar a sorrir também com o espírito, e não apenas com os dentes. Se um abriga chegadas e reencontros [e também algumas idas, e às vezes nem dá tempo de dizer adeus], o outro guarda a decisão, difícil, mas certeira, de deixar, transformar, virar a página.

Se franceses, paquistaneses, chineses e holandeses eram capazes de viver com gramáticas e relações em que nunca houve a dor da ausência, por que não a gente? Saudade, afinal, faz parte da lista das palavras [é a sétima] mais difíceis de traduzir do mundo – só perde para ilunga [alguém disposto a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez”, no idioma africano Tshiluba], shlimazi [“alguém cronicamente azarado”, em ídiche] e outras quatro que não lembro mais.

Outono é tempo de alimentar a paciência, investir nos afetos mais serenos, manter a casa arrumada, a mesa, as estantes, os armários e as lembranças, aprender receitas novas, o ponto certo, alecrim e molho de café.

[Delícia].

Enquanto o verão se embalava com um cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola e a rima segundo a qual não precisa sofrer para saber o que é melhor para você, no outono os sons têm um tom a menos e as receitas, um condimento a mais. Se um abria espaço para música alta e caipirinha, o outro costuma ser de novos ares, desfazer do apego, do medo e do aconchego, jogar fora os papéis que não servem, e também certas histórias e as faltas, lavar a alma com a chuva que cai em profusão, exatamente como a canção diz que faz.

outono, desde ontem

Apesar dos protestos, sempre adorei os dias de calor, abrir a janela felicíssima com o quente que vem da rua, aproveitar os minutos que sobram do almoço plantada debaixo do sol como uma planta fazendo sua fotossíntese, olhar atrás do vidro a profusão de vermelhos e amarelos e cinzas e verdes do entardecer, pensar no quanto faz bem viver embalada pela ideia de que, no verão, a vida pesa menos. Mas o outono, que começou oficialmente às 14h32 do divertido sábado-de-samba, tem seu lugar, certo que tem.

Enquanto o verão lembra leveza e movimento, o outono lembra faxina, arrumação, vender o carro polido aos sábados com certa displicência, os eletrodomésticos da casa de paredes brancas, geladeira, fogão, mesa com tampo de vidro, tela plana e até a cama, desde sempre recostada na parede. Se o verão lembra praia, música alta e caipirinha, o outono lembra mudar de ares, desfazer do apego, do muito medo, do aconchego e da timidez, jogar fora os papéis que não servem, e também algumas histórias e as faltas.

Enquanto o verão tem chegadas e reencontros, o outono tem a decisão, difícil mas certeira, de deixar, virar a página. Se franceses, paquistaneses, chineses e holandeses eram capazes de viver com gramáticas e relações em que nunca houve a dor da ausência, por que não a gente? Saudade, afinal, faz parte da lista das palavras (é a sétima) mais difíceis de traduzir do mundo – só perde para ilunga (“alguém disposto a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez”, no idioma africano Tshiluba), shlimazi (“alguém cronicamente azarado”, em ídiche) e outras quatro que não lembro agora.

Outono é tempo das mudanças, dizem os maias, os astecas, os chineses, os hindus e os japoneses. É temporada de transformações, de colher e ver as folhas que caem, amarelas. É a época em que a luz solar incide perpendicularmente sobre o Equador, ambos os hemisférios igualmente iluminados, dias e noites com duração semelhante, temperaturas mais amenas, menor umidade do ar, redução de chuvas (é?), mudanças bruscas no céu e, segundo o Instituto Nacional de Tempo, Clima, Psicologia e Transformações em Geral, formação de nevoeiros que, chova ou faça sol, terão se dissipado até o final da estação. Oba.