rotina na pandemia é feita de miudezas do cotidiano e esperança em dias melhores

Poucos meses atrás, éramos um acúmulo de sonhos, projetos, fazeres, prazeres e afazeres. Afetos, dores, alegrias, encontros, ausências e memórias dividiam espaço com metas e objetivos de prazos variados, mais ou menos organizados, dependendo do afinco e da disciplina de cada um. Mas, desde o início da pandemia, a vida parece se alimentar apenas das miudezas do cotidiano e da esperança em dias melhores. O calendário avança, e nós seguimos, envelhecendo diante das coisas grandes suspensas pelo coronavírus e suas curvas assustadoramente ascendentes.

A boa notícia é que o miúdo da vida nunca foi tão significativo. Na falta de alternativa mais excitante, o ganha-pão dos cronistas ganhou também a atenção dos outros. 

Assim, de obrigações periféricas e desbotadas, o expediente para cumprir, a louça suja, a roupa lavada e as compras à espera de desinfecção viraram acontecimentos dignos de nota. O bicho de estimação, o que disseram no grupo da firma, o pão feito em casa, eles e tantas outras pequenas rotinas que antes até podiam passar despercebidas agora preenchem o vazio criado pelo isolamento e pelas más notícias.

Li estes dias um poema da poeta carioca Marília Garcia que diz o seguinte, assim mesmo, em minúsculas: 

“o que se passa todos os dias e que volta todos os dias
o banal o cotidiano o óbvio o comum o ordinário
o infraordinário
o barulho de fundo o hábito
— como perceber todas essas coisas?
como abordar e descrever aquilo que de fato
preenche a nossa vida?”

A pandemia ceifou pelo menos 400 mil vidas até agora. Interrompeu projetos, ampliou distâncias, colocou a morte diariamente no nosso campo de visão, levou gente querida de muitos de nós, colocou muitos modelos em xeque. Mas também nos mostrou que, de fato, há vida escondida no que é banal, habitual, ordinário. E, na despercebida potência do cotidiano, no enorme significado dos objetos à nossa volta e na força do que fazemos enquanto esperamos, quem sabe está uma saída para dias melhores. 

como aderir ao “novo normal” ou quem sabe escapar dele

Vitória (ES), meados de maio, 2020, outono-inverno. O isolamento social exigido pela pandemia do coronavírus continua, apesar dos comportamentos e recomendações que navegam perigosamente pelo caminho contrário. Em meio às notícias em profusão, mortes distantes, perdas próximas e piadas de gosto duvidoso, uma expressão chama minha atenção: o “novo normal”. 

A combinação parece ter ganhado força nos últimos meses, quando percebemos que a pandemia não apenas havia se instalado para durar, como também nos obrigaria a mudar antigos hábitos e certas formas de fazer as coisas. 

Ainda não sabemos como vamos sair desta fase, mas é certo que sairemos diferentes, dizem que mais empáticos, quem sabe mais conscientes, um pouco menos consumistas talvez, possivelmente mais solitários. Sairemos do isolamento mais solidários e menos apegados às convenções que vimos cair por terra enquanto estávamos trancafiados em casa? Sairemos mais silenciosos ou, pelo contrário, mais falantes do que nunca?

Afinal, o que devemos fazer para aderir ao “novo normal” – ou quem sabe escapar dele?

Pode ser que o contexto nos ajude a entender, um pouco que seja. O “novo normal” é uma expressão cunhada pelo economista norte-americano Mohamed El-Erian em maio de 2009, 11 anos atrás, portanto. Sua inspiração foi o cenário global pós crise de 2008, considerada a mais grave desde a Grande Depressão de 1929. Segundo ele, o novo normal traduzia a ideia de que, após 2008, o mercado passou a ter características bem diferentes das que até então apresentava.

Corta para a pandemia que chacoalhou o mundo do pior jeito possível, com quase 5 milhões de infectados em seis meses, 320 mil mortos no mundo, 20 mil no Brasil, até a noite de 20 de maio e em curva ascendente. Visto que a Terra não é plana, rodamos um pouco e nos deparamos, novamente, com o “novo normal”. Ou, mais exatamente, o novo “novo normal”.

Mais uma vez, pode ser que o contexto nos ajude a entender, um pouco que seja. 

O novo “novo normal” significa tornar comuns atitudes que antes nos eram estranhas. Andar de máscara na rua, por exemplo. Trabalhar em casa. Cumprimentar com o cotovelo. Sorrir com os olhos. Comprar dos pequenos negócios locais. Comer em casa, limpar as sacolas do supermercado, logística para sair, ritual de desinfecção na volta, happy hour virtual, sapatos na entrada, saudades na estante, certezas na gaveta. 

O novo “novo normal” como um modelo de vida que vamos descobrindo aos poucos, a duras penas. Com menos poluição, mas menos emoção também. Com mais equilíbrio no consumo, mas menos dinheiro também. Com mais amigos desempregados e a maioria das possibilidades perdidas na pandemia. Com a pele melhor, mas cheia de desesperança. Com um pouco de esperança também, mas medo do futuro, do espirro, de quase tudo. Com a impressão de que o tempo parou, mas a vida corre lá fora, à espera de reinvenção.