os homens e a roupa suja

Há um modo de operação anterior à pandemia que acabou potencializado durante o isolamento imposto pelo coronavírus. Uma obrigação invisível que vai além da desigual divisão de tarefas domésticas entre homens e mulheres. Uma atividade silenciosa, despercebida, que tem um enorme peso físico e emocional sobre muitas de nós: o planejamento, a organização e a tomada de decisões em casa e sobre a casa.

Os relatos se repetem e se parecem. Muitas mulheres estão exaustas da carga mental de organizar, planejar e decidir. Além da execução em si, do home office e da própria angústia do momento, é preciso pensar no que fazer. Como distrair as crianças? E o dever de casa? Cadê a senha do Zoom? Supermercado segunda ou quinta? O que comer no jantar, delivery ou de qual produtor local? Quando faremos faxina? O que e por quê a coisa toda, o tempo inteiro? 

A sobrecarga do confinamento já tem até nome. É o efeito do cesto de roupa suja de que fala Brigid Schulte, diretora de um programa de políticas públicas ligadas a trabalho, questões de gênero e vida familiar, nos Estados Unidos, chamado Better Life Lab.

A pesquisadora e sua equipe entrevistaram um grupo de parceiros de mulheres que trabalham no setor de saúde e, por isso, tiveram que se isolar dos familiares para evitar um possível contágio. Assim, os homens assumiram totalmente os cuidados em casa. 

De acordo com a pesquisa, o cesto de roupa suja é um elemento que se repete nas conversas com todos os homens. “Muitos me disseram entre risos que antes achavam que a roupa dobrada ia parar magicamente em suas gavetas. Eles nem pensavam nesse trabalho invisível. Agora, estão conscientes de que eram suas mulheres que faziam isso e que, também, o cesto se enche o tempo todo”, explica Brigid.

Ainda não dá para dizer que o despertar desse pequeno grupo vai mudar os padrões da divisão de trabalho ou reduzir a sobrecarga mental feminina. A boa notícia, pelo menos para nós mulheres, é que alguns homens sairão do confinamento mais conscientes a respeito do trabalho que dá manter o cesto, e todo o resto, em ordem.

a menina de ponta-cabeça [ou pequena homenagem às minhocas que por vezes habitam a alma das mulheres]

Quando deita no sofá, ajeita o corpo para os pés ficarem encaixados em cima beirando o chão. Se está na rua, firma as mãos na calçada, dá o impulso e torce para ter calculado certo a força e o espaço que há entre seu corpo e a parede. Acha melhor quando vê o mundo de cabeça para baixo, e acha graça, muita graça, mesmo não sabendo se é porque dá vontade de conversar com os pés ou porque a barriga desce pro nariz e faz cócegas.

Com os pés pra cima e a cabeça do lado oposto, observa os outros, as coisas, o céu, os bichos, tudo. De outro ângulo, olha com cuidado e delicadeza, como convém quando é preciso tentar entender o que nos é estranho, um diálogo dissonante, o exagero daqueles tempos, um quase desconhecido que se aproxima trazendo nas mãos todas as possibilidades do mundo, uma postura que você cansa de ouvir a explicação mas não entende, não consegue e então teima.

As costas esticam, o ar enche o peito daquela sensação boa de fim de dia com dever cumprido. O pescoço larga o peso do mundo no ângulo imaginário de 90 graus que o corpo forma com o chão.

Com o cérebro pendurado e os dedos voando, vai descobrindo o mundo, entendendo por que o sujeito dos óculos de grau embaralha os dedos quando fala ou aquela moça batuca o calcanhar quando conta da vida. Compreende, ao seu modo, os caminhos tortos do seu amor e ama ainda mais. Arrisca, e desta maneira garante que conhece verdadeiramente a personalidade alheia, porque acha que não é fácil disfarçar nem defeito nem qualidade quando tem alguém plantando bananeira na sua frente.

Faz sentido.

Adora ficar de ponta-cabeça, e até dorme às vezes, e ri quando assusta os outros ou acorda de bom humor, massageia o cabelo no azulejo e coloca pra fora as minhocas que habitam por ali. Sacode elas, pra ver se somem, porque minhocas atrapalham a vida da gente, roubam o sono, criam fantasmas, levam os queridos para o planeta dos sonhos perdidos, num lugar qualquer entre a Augusta e a Jerônimo Monteiro, perto da barraca de filmes de arte, mais perto ainda do boteco dos ovos coloridos.

Minhocas não servem pra muita coisa além de adubo e anzol.