o vinil vive

vynilÀ meia-noite do dia 14 de fevereiro de 2016, o cineasta Martin Scorsese e o Rolling Stone Mick Jagger lançaram Vinyl, uma série de TV que resgata o universo de sexo, drogas e rock’n’roll ao redor da música feita em Nova York durante os anos 1970.

Não é pouca coisa. Ali, naquele período, o punk, o glam, o rock, a disco music e o hip hop davam seus primeiros passos, enquanto gravadoras erguiam impérios poderosos à base de apostas ousadas, garimpo de artistas iniciantes, disputas nos bastidores, favorecimento de rádios e, em muitos casos, álcool, cocaína e trapaças.

A indústria da música era outra, não apenas porque os personagens fossem gente como John Lennon, Elvis Presley, David Bowie, Alice Cooper, Sex Pistols, New York Dolls, Velvet Underground, Andy Warhol e sua trupe de artistas múltiplos, mas também porque não havia internet, MP3, SoundCloud, Spotify, Ipod e ITunes, MySpace, MTV, financiamento coletivo e ferramentas do tipo.

As canções não estavam ao alcance de um clique, nem as opiniões a respeito de tudo. Ouvir música exigia um pouco além do ouvinte. Era preciso ter atenção, tempo e um toca-fitas em pleno funcionamento, alimentar uma coleção de LPs, cultivar amigos bem-informados, beber em bares fora do eixo ou frequentar casas noturnas de segurança duvidosa em busca de novidades, por exemplo.

Na série exibida pelo canal a cabo HBO, o ator Bobby Cannavale encarna o produtor musical Richie Finestra, fundador e presidente da gravadora American Century Records, uma empresa à beira da falência no agitado ano de 1973. Suas esperanças estão em um contrato com uma promissora banda de rock chamada Led Zeppelin e na venda da companhia para um grupo econômico da Alemanha.

Tanto a negociação com Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham quanto a venda para a Polygram naufragam logo nos primeiros episódios, dando início ao movimento de Vinyl em direção aos meandros sujos da indústria fonográfica, às drogas, ao submundo nova-iorquino, aos músicos e às músicas.

Quatro décadas e meia separam a estreia da série de Scorsese e Jagger do profícuo período que ela retrata, e não deve ser coincidência que Vinyl seja lançada com pompa e circunstância em um momento ímpar da volta por cima do disco de vinil.

Em 2015, segundo relatório recente da RIAA, a associação de gravadoras dos Estados Unidos, as vendas de LPs cresceram 30% e, em valores brutos, superaram o rendimento de quatro dos maiores serviços de música online do mundo juntos.

De acordo com o documento, Youtube, SoundCloud, VEVO e Spotify levantaram cerca de 163 milhões de dólares ao longo do ano passado (algo em torno de 650 milhões de reais). A venda de LPs bateu a casa dos 220 milhões de dólares (cerca de 790 milhões de reais). No último Natal, a gigante virtual Amazon vendeu mais vitrolas do que qualquer outro produto de seu setor de áudio e, na mesma temporada de fim de ano, a maior revendedora de música da Grã-Bretanha comercializou um aparelho de LPs por minuto.

No Brasil, as cifras ainda não refletem a explosão dos países de língua inglesa, mas o interesse pelos discos tem certamente sua maior alta desde que as prensas deixaram de produzi-los, no início da década de 1990. A previsão é que, ainda no primeiro semestre deste ano, uma nova companhia produtora de bolachões seja instalada em São Paulo, de olho no mercado ascendente e no objetivo de desafogar a demanda da única fábrica atualmente em atividade na América Latina.

O público capixaba faz coro ao renascimento da cultura do vinil. A festa Môio Grosso, que produzimos em Vitória desde abril de 2013, colocou o Espírito Santo na rota de DJs brasileiros e estrangeiros que têm no LP sua principal mídia. Pioneiros como o DJ Hum, parceiro do rapper Thaíde e autor de hits como Tempo Bom e Senhorita; e KL Jay, DJ do principal grupo de rap do país, o Racionais MCs; estiveram na Capital pela primeira vez como convidados da festa.

Entusiastas da música nacional fora do Brasil, como o DJ e radialista búlgaro-alemão Kosta Kostov e a MC espanhola Indee Styla, além de pesquisadores como o DJ Paulão Tahira, sócio da Patuá Discos, um dos novos templos do vinil em São Paulo, também passaram pela Môio Grosso, em 16 edições já realizadas.

Todos têm em comum ligações estreitas com a música negra – notadamente o soul, o jazz, o rap, o blues, funk de raiz e o samba rock – e o amor pelos long plays, quase sempre garimpados em feiras, lojas e sebos, ao vivo ou pela internet.

Hoje, com raras exceções, quem tem discos em casa sabe do seu valor artístico e, a não ser por razões ou necessidades muitíssimo particulares, não os recoloca no mercado. As frequentes listas de melhores álbuns de todos os tempos criadas por publicações especializadas tornam a produção antiga, principalmente aquela nascida nos mesmos anos 1970 da série Vinyl, alvo de cobiça ainda maior.

Aos adeptos resta fazer coro ao que um colecionador disse certa vez a respeito dos LPs: que não há suporte mais perfeito para o exercício amoroso de se ouvir música.

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