parar [porque às vezes precisa]

Ao olhar de longe, percebi que precisava voltar, pelo menos de vez em quando, ao tempo em que deixei de ter pressa. Era um dia qualquer, uma quarta-feira, talvez, daquelas que começam, correm e terminam, como os dias comuns começam, correm e terminam. Eu andava às voltas com o trabalho em excesso, um vazio ligeiro e uma certa inquietação que fazia doer a coluna, os ombros e as têmporas.

O trânsito estava aquele trânsito de sempre, de carros devagares na pista dos carros velozes, de ônibus verdes e tortos na pista dos ônibus verdes e tortos, do sol na janela e a minha dose diária de alegria, do rádio ligado na canção que não canso de ouvir e aquele gosto bom de morar perto da praia.

Era preciso parar o mundo, por uns minutos que fosse, descer, ver a Ilha e seus contornos, sentir o vento sul e o movimento que guarda a melancolia dos domingos, mas também a leveza do descanso e a imensa possibilidade dos recomeços, assistir à vida e seus contornos, a proximidade, a paixão e o vício nos lugares em que antes só havia distância, antipatia e indiferença.

Era preciso, acima de tudo, desaprender do costume de não olhar para fora, de tomar café correndo por causa do atraso, de ouvir sobre a violência e aceitar estatísticas, as besteiras das músicas e a morte lenta dos rios, de ser ignorado quando precisava tanto ser visto, de pagar mais do que as compras valem e todas aquelas outras coisas bonitas sobre as quais dizia aquele texto da Marina Colasanti.

O tempo da delicadeza, quando olhei de longe, parada como às vezes deve ser, pareceu mais capaz, mesmo que nem sempre, de transformar o vazio, os desejos, as dores e as dúvidas em outra coisa. A outra coisa era [como ainda é] a vontade de viver os temas essenciais da vida com o corpo todo, com toda a calma do mundo.

enfim, um indivíduo de ideias abertas

por Marina Colasanti

“A coceira no ouvido atormentava. Pegou o molho de chaves, enfiou a mais fininha na cavidade. Coçou de leve o pavilhão, depois afundou no orifício encerado. E rodou, virou a pontinha da chave em beatitude, à procura daquele ponto exato em que cessaria a coceira. Até que, traque, ouviu o leve estalo e, a chave enfim no seu encaixe, percebeu que a cabeça lentamente se abria.”