carta aberta a conceição evaristo

Vitória, 19 de julho de 2019

Estimada Conceição Evaristo,

Recentemente impus, de mim para mim mesma, uma tarefa sob vários aspectos desafiadora: produzir um artigo sobre a escrevivência como estratégia narrativa e política. Meu ponto de partida seria a perspectiva da segunda onda do movimento feminista, surgida entre as décadas de 1960 e 1970, de que o pessoal é político. 

O texto serviria como instrumento de avaliação em um curso na universidade a respeito da senhora e de Carolina Maria de Jesus, um curso em que aprendi um bocado, não apenas de literatura, mas também da vida, das diferenças, de perdas, das faltas e de afetos que a gente constrói até quando menos espera. 

Minha proposta, gentilmente aceita pelo professor, havia nascido de duas sementes plantadas ao longo das aulas, à espera de semeadura. A primeira era um depoimento em que a senhora contava que a origem de sua escrita estava no acúmulo do que ouviu desde a infância, nos que vieram antes da senhora, nos gritos das vizinhas debruçadas nas janelas ou nos vãos das portas, dizendo mazelas e alegrias umas para as outras. 

A segunda viajava um pouco para trás na linha formal do tempo. Um artigo escrito em 1969 por Carol Hanisch, uma jornalista como eu, jogava luzes sobre grupos em que mulheres compartilhavam dores, anseios, dúvidas e o que mais viesse como forma de suporte e superação. Hanisch entendia, como talvez também a senhora, o ato de dizer coisas em voz alta como um ato político, porque revolucionário na essência, gerador ou potencializador de transformações.

Como provavelmente também a senhora, ela defendia que devemos dizer aquilo em que acreditamos, ao invés daquilo que sempre nos foi dito para dizer. É possível que, para Carol Hanisch, o efeito de compartilhar histórias com outras mulheres era como o falar-e-ouvir de suas vizinhas, talvez a única defesa que havia contra a dominação machista, o preconceito, as dificuldades financeiras e outras durezas que assolam as mulheres, em especial as pretas.

Eu tinha a impressão, àquela altura e ainda agora, que a sua escrevivência seguia bem de perto o pessoal-e-político do artigo de 1969. O jogo de letras, sentidos e ideias nascido do encontro entre os verbos escrever, viver e ver combinava à perfeição com a literatura nascida daquele falar-e-ouvir de sentimentos, memórias e expressões das meninas mulheres da pele preta, como na canção, só que diferentes.

Minha intenção passava por reforçar, nesta perspectiva e a partir da leitura dos contos de “Olhos D’Água”, como questões pessoais no nosso ir e vir são também políticas. Como aspectos centrais da vida pública afetam o cotidiano de mulheres, o modo como constroem seus relacionamentos, a forma como alimentam – ou não – sua independência econômica e afetiva. 

Como os padrões fincados no mundo de todos entram na esfera doméstica para, em muitíssimos casos, refletir desigualdade, misoginia, machismo, patriarcado e seus valores. Como a degradação e a violência se estendem da rua à casa, das leis do trabalho aos laços de família, do que se vê para o que quase ninguém nota. 

Acontece que, quanto mais e mais pesquisava para o artigo, menos à vontade eu ficava para defender, aprofundar ou refutar qualquer tese. Quem era eu na fila daquele pão?

*****

Não pude assisti-la na ocasião de sua recente passagem pelo Espírito Santo, mas juro que tive duas boas razões: o auditório em que a senhora faria a palestra estava absolutamente lotado e meus companheiros de feira literária naquele fim de tarde – um menino de 10 e uma menina de 13 anos – queriam ver as batalhas de rima embaladas pelo rap a meia dúzia de metros dali.

Meu primeiro contato com a sua visão das coisas datava de dois anos antes, uma frase potente estampada no jornal de domingo: “Vem de longa data a certeza, em minha mente, de que black is power and beautiful”. 

Às notas iniciais de seu recado com destino a Angela Davis se seguiram memórias da época em que a senhora ganhou coragem para enfrentar os deboches e a censura e, inspirada pela vasta cabeleira da vizinha norte-americana, deixou para trás o sacrifício do ferro quente e do alisar de cabelos. Concordo plenamente com o que a senhora escreveu, que o penteado de Angela Davis simboliza a beleza e a coragem dela. Quase consigo visualizar quando a senhora a abraçou e disse, baixinho: 

– Muito obrigada, my sister. 

Seu agradecimento é o de muitas de nós, pretas e brancas que aprendemos com Angela Davis a compreender a intrínseca relação que há entre raça, classe e gênero, desde a escravidão e suas terríveis consequências até o fato de a combinação entre racismo, pobreza e machismo colocar as mulheres negras em um lugar ainda maior de vulnerabilidade.

Projetos de dominação política, econômica, social, cultural ou doméstica são recorrentes na trajetória de inúmeras mulheres, na minha, na sua, na de muitas de nós. Quantas tivemos, temos ou teremos histórias afetivas e teias familiares que repetem o arcabouço das relações de poder nas quais estamos, rotineiramente, em larga desvantagem? Quantas nos calamos diante do som alto das vozes dominantes e do patriarcado, no trabalho ou no quarto?

A senhora e seus 72 anos de jornada bem sabem, tantas são suas histórias protagonizadas por mães, avós, tias, vizinhas, esposas, irmãs e filhas pretas e pobres que têm a opressão em comum, mas também a força. E que força.

Enredadas em dramas diversos, as tramas que a senhora traça reafirmam as difíceis condições de vida da população mais pobre, a violência, a negritude e a exclusão. Mas sua postura me soa subversiva e transformadora, porque tira  a mulher de um lugar predeterminado pelo passado e pelo preconceito, para estabelecê-la como figura detentora de saberes ora herdados dos ancestrais ora ofertados pela própria vida.

Penso nisto quando releio Ana Davenga ou então a saga da mãe que costurou a vida com fios de ferro, o caminhar de Cida na corda-bamba do tempo, a fome de Duzu-Querença. Penso nisto diante de Natalina e do filho concebido nos frágeis limites da vida e da morte, diante da menina Ayoluwa e seu nascer em boa hora para todos ou então diante da primeira de sete filhas que, desde cedo, buscou dar conta das próprias dificuldades.

De que cor eram os olhos da mãe dela?

*****

Mesmo em frente a desfechos muitas vezes trágicos, as mulheres que a senhora conta ocupam não mais um lugar unicamente marginal, mas um espaço de resistência repleto de significados. Sua escrevivência – palavras que peço licença para repetir por aqui, pela incrível força que têm – não foi escrita para ser lida como história de ninar os moradores da casa-grande, mas para incomodá-los nos seus sonhos injustos. 

Tenho a impressão de que, como as leituras mais profundas, questões pessoais são capazes de estimular a transformação em mulheres oprimidas, de maneira consciente ou não. Acredito que certas práticas podem abrir portas para percepções, compreensões, reflexões, conexões e quem sabe revoluções.

Afinal, o que escondem as histórias que a senhora escrevive além do hábito de contarmos umas para as outras a verdade sobre nossas dores? Quais vivências entre as que a senhora narra, misturando a crueza da realidade com a mágica de seus ancestrais, nos são comuns? Quanto há daquilo que as vizinhas falavam cravado na minha pele branca de origem árabe e na minha família preta?

E os seus? Quem como onde quando e por que aparecem, e o que nos dizem? Quase que vejo em Duzu, Davenga, Natalina, Cida e cia um pouco dos ensinamentos de seu tio Oswaldo Catarino Evaristo sobre Martin Luther King, Malcolm X, Patrice Lumumba e Nelson Mandela. Um pouco dos dias que a senhora passou como militante da Juventude Operária Católica da Belo Horizonte natal. Um pouco de – outra vez – Angela Davis e aquela vasta cabeleira feita de beleza e coragem.

Falar de nossas questões nos permite mergulhar na essência de aspectos que, de tão pessoais, são também universais. Talvez seja um pouco o que acabei por fazer aqui, nesta carta aberta que tomo a liberdade de rascunhar para a senhora. Se a opressão de gênero, de poder e de raça do espaço público costuma se repetir no espaço privado, textos como os seus são lugares de luta por participação e transformação repletos de potência.

Tenho consciência de que sou privilegiada,  a despeito das dificuldades pelas quais passei, dos meses em que o que tínhamos não dava para tudo, das dores que carrego e nem sempre me permito compartilhar, dos dias em que elas pareceram intransponíveis.

[Não foram].

Hoje entendo que o lugar de onde assisto os acontecimentos e me posiciono a respeito deles facilita a ida e a volta para casa, além da travessia em si mesma. Agradeço aos deuses e deusas, à criação que tive, às leituras que fiz, às ausências e saudades, ao tempo e ao modo como aprendi com ele a olhar a vida. Agradeço à senhora, por sua escrevivência, pela inspiração e pelo amor que seus textos transbordam, mesmo os mais áridos.

Sabemos o que as autoridades fingem ignorar. Que há 5 milhões de famintos em nosso país. Que ditaduras são sombrias. Que o racismo segue firme em quase todo lugar. Que o machismo mata. Que a violência caminha par e passo com a desigualdade social, a falta de escolas, a ausência de perspectivas e a omissão do Estado.

Mas conhecemos bem [ufa!] a capacidade de cura da fala, da escuta, da escrita e da leitura. Sabemos, eu, a senhora e muitas outras, o quanto o compartilhar de histórias nos fortalece, o quanto grupos de apoio nos estimulam a superar dores, projetos de dominação, perdas, a solidão, a falta de afeto e a opressão. 

Acredito que temos uma pequena noção do quanto ainda há por fazer. 

Obrigada por nos iluminar nesta caminhada.

Com um fraterno abraço,

Ana Laura Nahas

dylan e os recomeços

bob-dylan-2016-nobelUm texto antigo, por ocasião do anúncio de que Bob Dylan venceu o Prêmio Nobel de Literatura neste dia de vento frio.

Aquele homem foi um caso típico na minha vida. Antes até de sua música, estive interessada no que dizia, no que fazia, no que não dizia, no que não fazia, nas inúmeras reinvenções de si mesmo. Há uns seis ou sete anos, passei as noites de uma semana inteira lendo uma das suas biografias desautorizadas e ouvindo sem parar canções que nem sempre entendia, e ainda hoje. Tempos depois me encantei com “I’m not There”, o filme que Todd Haynes fez sobre Bob Dylan ou com Bob Dylan ou para Bob Dylan.

[Não sei direito].

Gosto das inúmeras reinvenções de Dylan, porque ensinam que é preciso e possível, mesmo que no momento não pareça. Gosto das contradições dele, talvez porque aproximem o gênio do homem, e “I’m not There” tem um monte delas. Seis personagens representam os vários Dylans que existem dentro do estranho Dylan: Jude Quinn (Cate Blanchett), Billy the Kid (Richard Gere), Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin), Jack Rollins (Christian Bale), Robbie (Heath Ledger) e Arthur Rimbaud (Ben Whishaw).

Quinn é a cara dele, de cabelo emaranhado e olhar perdido no tempo. Ele, Rollins e Robbie encarnam o tormento do artista. Rimbaud, angustiado igual, defende diante de um tribunal opressor que a criação deve ser evitada. Por quê? Porque, fatalmente, haverá interpretações dissonantes e um processo eterno de falta de relação entre aquilo que o artista imagina e a maneira como o público vê o que resulta desta imaginação.

Guthrie homenageia o guru do músico, ativista social sobre quem ele diz que “podia escutar suas canções e de fato aprender a viver”, como alguns de nós aprendemos a viver com Chico, com John, com o Tom ou com o tango – e alguém disse certa vez que devemos ter, todos, alguém com quem aprender coisas, no trabalho e na vida. O de Dylan canta os vagabundos, cruza o país de carona, vive de bebida e sonho.

“I’m not There” é um filme de ficção, mas podia ser uma conversa daquela madrugada ou a própria vida, feita de andanças, mudanças, recomeços, regressos e reinvenções. Como as muitas de Dylan nas últimas quatro décadas. Como as que nos encontram em determinados momentos, esperadas ou não. Como a curiosa história do escocês de séculos atrás chamado Thomas Carlyle, que compartilho antes de encerrar o expediente.

O sujeito, durante anos, trabalhou intensamente num amplo registro da Revolução Francesa. Era pobre e contava com a ajuda, em livros e dinheiro, do filósofo John Stuart Mill. Quando acabou o extenso primeiro volume, emprestou o manuscrito a Mill. Por uma dessas coisas que ninguém explica, o texto pegou fogo, acidentalmente. Carlyle não acreditava em Deus; não podia, portanto, reclamar da tragédia com Ele. Então sentou, respirou fundo e começou do zero, palavra por palavra, linha por linha, página por página.

Talvez tenha entendido que a resposta, meu amigo, sopra com o vento.

da série leituras

AS CIDADES E OS SÍMBOLOS
Por Italo Calvino

aspasQuem viaja sem saber o que esperar da cidade que encontrará ao final do caminho, pergunta-se como será o palácio real, a caserna, o moinho, o teatro, o bazar. Em cada cidade do império, os edifícios são diferentes e dispostos de maneiras diversas: mas, assim que o estrangeiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar em meio às cúpulas de pagode e claraboias e celeiros, seguindo o traçado de canais hortos depósitos de lixo, distingue quais são os palácios do príncipes, quais são os templos dos grandes sacerdotes, a taberna, a prisão, a zona. Assim – dizem alguns – confirma-se a hipótese de que cada pessoa tem em mente uma cidade feita exclusivamente de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, preenchida pelas cidades particulares.

Não é o que acontece em Zoé. Em todos os pontos da cidade, alternadamente, pode-se dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, consultar oráculos. Qualquer teto em forma de pirâmide pode abrigar tanto o lazareto dos leprosos quanto as termas das odaliscas. O viajante anda de um lado para o outro e enche-se de dúvidas: incapaz de distinguir os pontos da cidade, os pontos que ele conserva distintos na mente se confundem. Chega-se à seguinte conclusão: a existência em todos os momentos é uma única, a cidade de Zoé é o lugar da existência indivisível. Mas então qual é o motivo da cidade? Qual é a linha que separa a parte de dentro da de fora, o estampido das rodas do uivo dos lobos?