a lição dos buldogues

bulldog-ingles-caraBuldogues franceses não precisam de grandes espaços para serem felizes. Vivem em lugares pequenos, próximos aos donos daquele afeto todo. Buldogues franceses são afetuosos por natureza. Segundo consta, o pior dos castigos para eles é a solidão.

Apesar da aparência marrenta, são suaves e bem-humorados. Preferem as horas frescas do dia ou a então calma do sofá. Segundo consta, são cães de pensamento solto: fazem as coisas como bem entendem, daquele modo levinho de que são feitas as tortas que escapam da receita, determinados encontros e as tardes de domingo.

Buldogues franceses são em geral silenciosos como um dogon, quase preguiçosos, preferem o repouso ao excesso de movimento, gostam de servir e experimentar novos sabores. Segundo consta, precisam de contato constante com humanos.

Buldogues brincam sempre que possível, como devia ser, em certos momentos, a postura minha, sua, de todos nós: rir apesar das ausências, dançar a dança dos dias felizes das perdas, levar ao pé literalmente da letra a lição gingada segundo a qual quando você para de brincar de mexer o coração, ao invés de bater, padece.

Buldogues são livres como a cronista de óculos grossos e coração apertado escreveu que era [ou queria ser] – livre para rir ou chorar, lembrar ou esquecer, sentir saudades de ontem e, ao mesmo tempo, construir os mais belos planos para o dia de amanhã, livre para desenhar o rosto do amor dela apesar de não saber desenhar e porque já não corria o risco de vê-lo chegar de repente e se botar cinicamente a rir do sentimento e do desenho dela.

Segundo consta, a cara achatada dos buldogues franceses exige respiração pausada e um pouco de sombra, distância da água e toques sutis. Buldogues franceses adoram um cafuné. Apesar da leveza, da liberdade e da brincadeira, buldogues franceses envelhecem rápido: aos 12, 13 anos, estão próximos do fim da linha, mas mantêm a alegria e a liberdade dos primeiros tempos.

Com Bilbo, o buldogue francês com quem aprendi o que agora escrevo, foi assim. Um dia, dois veterinários diagnosticaram que ele tinha pouco tempo de vida. Disseram que seu coração era do tamanho da caixa toráxica e que seus rins não funcionavam bem. Receitaram remédios, ração especial, manhã, tarde e noite de privações e limites. Ele detestou, emagreceu, ficou tão mal-humorado e deprimido que seus donos decidiram deixá-lo em paz para que fosse feliz, mesmo que por pouco tempo.

Livre das pílulas de velho e da comida de doente, Bilbo voltou a viver como um buldogue francês típico, adepto do riso e da suavidade.

Foi a lição, mesmo que involuntária, instintiva, animal: saudar mais a vida que a morte, mais o riso que a doença, mais a dança que as restrições, como devemos também fazer, sempre que possível, respirar, sorrir, conversar, respeitar, uma mão, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, aquilo tudo. Em lugares pequenos, com os afetos por perto, com bom humor e pensamento solto, a calma do sofá, a leveza das tardes de domingo, a lição gingada sobre o movimento e as tortas que escapam da receita.

sobre o desapego

Um dia descobri que a palavra ingênuo vem do latim e designa, antes de mais nada, aquele que nasceu sem servidão ou escravidão. Sem apego. Talvez por isso algumas ingenuidades me comovam tanto, como as dos que são livres dos preconceitos que nos fazem ver mais do que há, livres dos desafetos que envenenam o corpo e o resto, livres do excesso de razão que atrapalha a visão e os outros sentidos, livres como no poema, livres.

“Liberdade
Palavra que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique
Nem ninguém que não entenda”
(Cecília Meireles)