hermeto pascoal, o jazz e o poder da diferença

Se há um artista que representa a diversidade da música popular brasileira e, de algum modo, a diversidade do próprio Brasil, este artista é o gênio albino, baixinho, gordinho, estrábico e quase cego Hermeto Pascoal.

Nascido em Olho d’Água das Flores, no sertão de Alagoas, o filho de dona Divina e seu Pascoal se aproximou de melodias e harmonias ainda criança, primeiro ouvindo passarinhos, depois dedilhando uma sanfona de oito baixos e, em seguida, tocando piano, cavaquinho, flauta, violão, órgão, sax, vento, garrafa, copo com água, chaleira, máquina de costura e o que mais visse pela frente.

Sempre atento aos sons da natureza e às múltiplas possibilidades de tirar barulhos novos de instrumentos inventados, o bruxo alagoano brindou Vitória, no último sábado (19), com uma apresentação à altura do homenageado Marien Calixte, saudoso jornalista, escritor, radialista e colecionador de discos que nos deixou no Natal de 2013.

Carioca radicado no Espírito Santo desde os primeiros tempos de vida, Marien comandou por 52 anos o programa de rádio O Som do Jazz, reconhecido como o mais longevo da América Latina na história das atrações dedicadas ao gênero. Para celebrar seu legado, nasceu o Marien Calixte Jazz Music Festival, que teve Hermeto e suas experimentações como convidados especiais desta primeira edição.

É para o jazz que Hermeto volta, invariavelmente, depois de passear por dezenas de ritmos com sutileza, elegância e precisão. O jazz que muitos de nós aprendemos a reverenciar com Miles Davis e John Coltrane, Chet Baker e Oscar Peterson, Nina Simone e Billie Holiday, Charlie Parker e Dizzy Gillespie. O jazz que Eric Hobsbawm nos ensinou a entender não apenas como um tipo de som produzido por uma determinada combinação de instrumentos tocados de uma forma característica, mas como uma realização extraordinária, um aspecto marcante do tempo em que estamos.

Se o jazz é comovente, escreve Hobsbawm, um historiador judeu nascido no Egito e radicado na Inglaterra, é porque homens e mulheres são comoventes. Se o jazz é um pouco louco e descontrolado, é porque a sociedade em que vivemos também é assim.

Pois o filho de dona Divina e seu Pascoal é tal e qual o jazz. Ainda hoje, aos 83 anos, Hermeto tem um modo de tocar comovente e também um pouco louco e descontrolado. Sua música pode ser ouvida não apenas como um tipo de som produzido por uma determinada combinação de instrumentos, mas como uma realização extraordinária, tal e qual o jazz segundo Eric Hobsbawm.

O jazz sempre foi uma manifestação da diversidade. Pelo modo como nasceu, pelo improviso que acompanha suas origens, pela variedade de figuras, acervos e memórias que compõem seus caminhos, desde o início até agora. Por tudo o que representa para a música e para a sociedade do século XX, especialmente.

Hermeto é revolucionário e plural como o jazz com suas raízes profundamente pretas, mas com frutos de inúmeras cores. Mais que isso: tal e qual o jazz, o gênio albino, quase cego, baixinho e gordinho nascido no sertão de Alagoas manifesta, por sua própria natureza, a riqueza e o poder guardados na diferença.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 26 de outubro de 2019.