diversidade, empatia e inclusão como estratégia anti-abismo

O ano de 2019 não foi dos mais fáceis. O Brasil retrocedeu em setores sensíveis como o combate à pobreza e a proteção ao meio ambiente. Muitos preconceitos saíram do armário. O cerco cada vez mais fechado para as diferenças matou uma mulher a cada quatro horas, um LGBTQ+ a cada 23 horas, jovens que se divertiam na periferia, índios que defendiam sua terra e muitos outros que viviam à margem neste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas ainda extremamente desigual.

Para alívio de quem acredita na diversidade, na empatia e na inclusão como estratégia anti-abismo, no entanto, 2019 deixa lições preciosas e boas perspectivas.

Afinal, poucas vezes na História se falou tanto sobre os ganhos de sermos plurais. A compreensão de que representatividade importa tem se mostrado cada vez maior e as estratégias ligadas à diversidade já começam a apresentar resultados concretos, mesmo nos ambientes corporativos e mais conservadores.

De acordo com relatório da consultoria Mckinsey, especializada no universo corporativo, o potencial de aumento no faturamento é 15% maior em empresas com mulheres em cargos de liderança e 33% superior com relação à diversidade étnica.

Segundo a mesma McKinsey, empresas públicas com conselhos executivos diversos têm um retorno sobre o patrimônio 95% maior do que aquelas com conselhos homogêneos. Já organizações inclusivas têm 1,7 vezes mais chances de serem líderes em inovação em seus respectivos mercados.

Inovação e criatividade andam par e passo com ambientes plurais e inclusivos. Olhares variados tendem a trazer novas soluções para antigos problemas. Diversidade também pressupõe doses extras de empatia, porque o ouvido apurado e a capacidade de dialogar facilitam e estimulam o sucesso de atividades e processos feitos por colaboradores diferentes.

Gêneros, idades, religiões, deficiências, etnias, origens culturais, orientações sexuais e classes sociais: em 2020, nada deve se impor ao encontro dos diversos. Os desafios ainda são imensos, mas, ao que tudo indica, terão campo fértil no ano que começa. Até lá!

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 28 de dezembro de 2019.

a menina, o cacique e a empatia

A contradição é profunda. Estamos cada vez mais conectados, mas nossa capacidade de ouvir e de incluir perspectivas diversas no modo como enxergamos o mundo caminha para o lado oposto. Temos Facebook, Instagram, LinkedIn, WhatsApp, Twitter, Skype e afins, mas somos incrivelmente limitados na hora de nos colocar uns no lugar dos outros. 

O que falta tem nome: empatia.

Empatia significa ver o mundo do ponto de vista do outro, com boa vontade e disposição. Para além do próprio umbigo, ser empático passa pelo interesse sincero em compreender perspectivas que nos são estranhas. A empatia ergue pontes ao invés de muros. 

Mais que isso, o propósito de compreender e se conectar verdadeiramente com o outro parece ser um instrumento potente na construção de ambientes abertos à diversidade. Diversidade – não custa lembrar – tem estreita ligação com a pluralidade de visões e com a inclusão de grupos que, no geral, não são adequadamente representados nas empresas, nos meios de comunicação e até mesmo nos nossos círculos de convívio. 

Por isso, falar de diversidade inspira, também, a falar de empatia. Nos ambientes de trabalho ou nos encontros que travamos pela vida, exercitar a arte de ouvir e de se colocar no lugar do outro é uma prática com enorme possibilidade de sucesso.

gretaA adolescente sueca Greta Thunberg faltou às aulas no dia 20 de agosto de 2018 para discursar contra a desatenção do poder público com relação ao aquecimento global. Seu questionamento expressou uma lucidez que a maioria de nós não espera de uma menina à época com 15 anos de idade (hoje 16): “Faço tudo isso porque vocês, adultos, estão cagando para o meu futuro. De que adianta ir à escola se não vai ter amanhã?”.

A jovem estimulou uma série de protestos ao redor do mundo e, em março de 2019, a primeira greve global de estudantes levou 1,5 milhão de manifestantes às ruas. Em 20 de setembro, mais de quatro milhões de adolescentes deixaram as escolas para gritar novamente contra as mudanças no clima. Três dias depois, Greta discursou na Cúpula de Ação Climática da ONU, em Nova York.

raoniTrinta anos antes, o cacique caiapó Raoni Metuktire já jogava luzes sobre temas ambientais. Hoje, aos 89 anos, ele guarda um longo histórico de defesa da floresta amazônica e dos povos nativos do Brasil. 

Nascido no Mato Grosso, Raoni tinha a idade de Greta quando recebeu em seu lábio inferior o icônico botoque, disco de madeira tradicionalmente usado por chefes de guerra e grandes oradores das tribos. De lá para cá, dedicou a vida à batalha pelos direitos indígenas e pela preservação da Amazônia.

A despeito do tempo que os separa, Greta e Raoni têm muito em comum, e é preciso que olhemos para eles com o olhar da dobradinha empatia-diversidade. Greta é uma menina com Transtornos do Espectro Autista (TEA), extremamente articulada e de enorme poder de mobilização. Críticos com zero empatia escolheram palavras como “retardada” e “vagabundinha” para desqualificar sua atuação. Raoni, um índio à beira dos 90 anos, também tem sido alvo de declarações pouco generosas a respeito da idade avançada e de sua origem indígena, vindas inclusive de representantes do país que ele luta para proteger.

A questão que aqui se coloca não é concordar ou discordar das causas que a menina e o cacique defendem, agora como 30 anos atrás. A questão passa por tentar compreender as visões e particularidades de cada um deles, com cortesia e respeito à diferença, independentemente das concordâncias ou discordâncias. É bom lembrar que, ao olhar para fora e para o lado, olhamos também para dentro.

Artigo publicado em A Gazeta no dia 12 de outubro de 2019.

diversidade: o que você e eu temos a ver com a palavra da moda?

Antes de mais nada, é preciso dizer que falar de diversidade não significa necessariamente falar de minorias. Falar de diversidade significa refletir sobre a pluralidade de visões, experiências, condição socioeconômica, origem, orientação sexual, gênero, raça, cor, e sobre a inclusão de grupos que no geral não são adequadamente representados, estando ou não em vantagem numérica.

Significa, por exemplo, ampliar a participação de mulheres nas esferas de decisão das empresas de uma nação majoritariamente feminina (51,7%, segundo o IBGE), em que apenas 13,6% dos cargos executivos são ocupados por elas (dados do Instituto Ethos coletados nas 500 maiores companhias nacionais).

Significa estimular que os negros de um país predominantemente preto (54%, de acordo com o mesmo IBGE e apenas 4,7% em posições de liderança, nos números do Ethos) enriqueçam culturalmente, evoluam profissionalmente e igualmente alcancem os espaços de poder. Significa fazer valer, sem meias palavras, o artigo quinto da Constituição Federal: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

Falar de diversidade pressupõe compreender que temos, todos, o direito à diferença.

Pressupõe também, é claro, dialogar com as minorias que enfrentam obstáculos físicos e culturais impostos pelo preconceito, pela falta de políticas públicas adequadas e pela omissão de quem, simplesmente, não enxerga os diferentes. Pressupõe não ser insensível aos buracos que diariamente impedem uma pessoa com deficiência física de sair de casa.

Pressupõe não fingir que a matança de gays, bissexuais, travestis e transgêneros não existe – ela existe e ostenta um número que deveria envergonhar todo brasileiro: uma morte por homofobia a cada 16 horas, conforme relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

A boa notícia é que nunca se falou tanto sobre os ganhos de sermos plurais. A despeito da intolerância que assombra as ruas e as redes, ou talvez movidos por ela, marcas, grupos e indivíduos como eu e você passaram a promover a multiplicidade de olhares, o respeito pela assimetria e a formação de times heterogêneos como estratégia para obter bons resultados.

O diálogo está posto.

Representatividade importa e, para além do clichê, tem se mostrado um ingrediente e tanto no posicionamento de organizações e pessoas conectadas com as mudanças de seu tempo.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 5 de outubro de 2019.