autorretrato número dois

O vestido saco confirma: é sábado, o dia favorito dos poetas. Os cachos displicentemente amarrados em um coque e as unhas cortadas rente escancaram o desejo de simplicidade. O resto do corpo aponta para carboidrato em excesso, Coca Cola além da conta, ausência do alongamento prescrito pelo doutor e uma espécie de síndrome leve das pernas inquietas – os roxos estão por toda a parte.

Mantenho o rádio desligado enquanto a playlist imaginária começa a tocar uma versão comovente de “Dindi”, segue com um tango do qual sei absolutamente nada, emenda o piano de “Drume Negrita” e termina com uma melodia tristíssima da velha guarda de Cuba, pero si un atardecer las gardenias de mi amor se mueren es porque han adivinado que tu amor me ha traicionado porque existe otro querer.

Os meses correm fora de controle e eu continuo sem gostar de bife de fígado.

Sigo também me submetendo a uma disciplina atroz em troca de textos. Continuo a batalha íntima e intransferível para escrever parágrafos mais curtos. Exatamente como Gabo, com seus modos de colombiano errante e nostálgico, só que com resultado infinitamente menos arrebatador, luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence. Mas sou dedicada e insisto, apesar dos desvios.

Ao contrário dele, que criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], não estou convencida de que o mundo seria o mesmo sem a literatura. Sem a polícia, sou forçada a concordar: as coisas seriam diferentes.

Ainda acho que minha verdadeira vocação reside na cozinha. Gosto de estudar o tempo certo do cozimento, a textura conveniente dos ingredientes, a intensidade exata do fogo, a forma adequada do tabuleiro, equilíbrio no tempero, harmonia na textura, paciência na espera. Às vezes os amigos chegam, às vezes somos só nós, cantando e dançando diante dos pratos mais simples como se fôssemos convidados do banquete preparado por Babette, redimidos pela boa mesa e plenamente conscientes de que o Céu também se faz nos pequenos encantos da vida.

Sempre que posso, aliás, advogo a favor dos pequenos encantos: cozinhar os pratos herdados dos livros de receitas em letra miúda e depois comê-los, ver a cidade do alto ou os prédios antigos em torno, entrar a madrugada fresca entre confissões e declarações de amor, rir de tudo, o quanto possível, apesar das faltas.

[Porque, de fato, como escreveram, as pessoas são como a palavra panegírico: uma hora estão e, no instante seguinte, resta apenas a ausência].

Também os persigo, tantas vezes quanto consigo: pedalar pelo bairro, desafinar debaixo do chuveiro, tomar sorvete de cereja com calda de Nutella, fazer silêncio, ouvir do dia, do trabalho, da agonia, dos projetos, das expressões que o dicionário não tem e de um exame que negou as suspeitas mais graves, outra vez rir diante do sol, olhar, conversar, sorrir e a frase do físico, imensamente boa, boa de doer:

– Ser livre é poder escolher ao que se prender.

da série leituras

TEXTOS DO CARIBE
Gabriel García Márquez

aspasA madrugada – em seu sentido poético – é uma hora quase lendária para nossa geração. Tínhamos ouvido nossos avós dizer coisas fantásticas daquele esquecido pedaço de tempo. Seis horas construídas  com uma arquitetura diferente, talhadas na mesma substância das histórias. Falavam-nos do bafo quente dos gerânios inflamados sob um balcão por onde o amor subia até o sono dos jovens. Disseram-nos que antes, quando a madrugada era verdade, ouvia-se no pátio o rumor que se desprendia do açúcar quando subia às laranjas. E o grilo, o grilo exato, invariável, que desafina seus violinos para que coubesse em seu ar a rosa musical da serenata. Nada disto encontramos  no desolado patrimônio dos nossos antepassados. Nós já recebemos o nosso tempo desprovido desses elementos que faziam da vida uma jornada poética. Entregaram-nos um mundo mecânico, artificial, no qual a técnica inaugura uma nova política de vida. O toque de recolher é – nesta ordem das coisas – o símbolo de uma decadência. Há uma grande distância histórica entre esta clarinada proibida e a voz amável do guarda-noturno colonial. […] Com este mundo materializado, onde os peixes têm que abrir água aos submarinos, com esta civilização de pólvora e clarins, como podem nos pedir que sejamos homens de boa vontade?

até mais, gabo [e obrigada pelos peixes]

Querido Gabo,

As notícias a respeito da sua morte estão por toda parte. Há frases suas, listas de livros, fotografias comportadas e retratos nem tanto, relatos das agruras, das escolhas, das imposições e das guerras particulares que você travou pela arte, pela América Latina e – verdade seja dita – também por sua própria vaidade. Há descrições da trajetória que você percorreu desde os primeiros tempos em Aracataca, das invenções que publicou nos jornais como se fossem reais, dos prêmios e do prestígio obtidos dentro e fora do continente que você afirmava ser um fantástico reino de homens alucinados e mulheres históricas.

As memórias surgem aqui e ali, Gabo, nas notícias a respeito da sua morte, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos de idade: o Nobel de 82, os 50 milhões de exemplares de “Cem Anos de Solidão” em 25 línguas, seus modos de colombiano errante e nostálgico, a entrevista sobre de que forma a fama o condenou a ser sozinho, exatamente como a estirpe condenada dos Buendía; o câncer linfático, a fundação para estudos de jornalismo em Cartagena das Índias, a escola de cinema em Cuba, a amizade com Fidel, o soco de Vargas Llosa que quase o nocauteou, ao que tudo indica movido por ciúmes; Mercedes, é claro.

Do mesmo modo, dois ou três registros sobre a sua partida resgatam a temporada em que as lembranças simplesmente desapareceram da sua cabeça, Gabo – um amigo seu declarou que você não falava mais ao telefone porque não reconhecia seus interlocutores pela voz e, para tentar reencontrar o rumo da prosa, fazia perguntas iguais repetidas vezes e que, quando não sabia com quem estava conversando, despejava um “o que tem feito?” ou um “quando volta de Paris?”.

Desculpa se repito coisas que você sabe de cor, Gabo, se converso com você morto como se estivesse vivinho da Silva, se ajo com menos reverência do que devia, se desenterro o menino pálido, subnutrido e atormentado pelos piolhos que você um dia foi, a leiteira descrente que disse para sua mãe que você não sobreviveria à infância ou a relação difícil que você teve com seu pai – custo a acreditar que, se não fosse a intervenção de sua mãe, ele abriria sua cabeça num ritual caseiro de trepanação; custo a acreditar que ele mandou um recado para que “aquele espermatozoide” [você] fosse visitar a família.

Desculpa se conto da noite em que você precisou comer lixo para sobreviver em Paris ou do dia em que empenhou o aquecedor, o secador de cabelo e o liquidificador para juntar os 30 pesos que faltavam para o envio das 490 páginas originais de “Cem Anos de Solidão” pelo Correio para a avaliação da editora. Desculpa se falo, invasiva, como se conhecesse, da velha casa repleta de mulheres religiosas e de homens que ou estavam indo ou tinham vindo da guerra.

Desculpa, Gabo, mas é que, quando soube da sua morte, era como se tivesse perdido um parente próximo, um vô querido, um professor remoto na arte de lutar fisicamente com cada palavra [e é quase sempre a palavra que vence, você tem toda razão]. O hábito de ler seus livros foi desde sempre uma lição e tanto, cada capítulo, cada entrevista rara, cada discurso, o autorretrato em que você confessou achar que o mundo seria o mesmo sem a literatura, mas bem diferente sem a polícia, a maneira como você acrescentava pessoas vivas aos mortos que atormentavam sua imaginação.

Você criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], de quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo; e até os peixes do quarto em que escrevo têm um pouco de você, Gabo. Melquíades, que também morreu esses dias, era o meu favorito, um pouco mais que Aureliano, que Arcádio, que Amaranta, que Rebeca, um pouco mais que o cascudo grudado no fundo e que o outro Kinguio, maior e mais clarinho.

Olhar pra ele, Gabo, sossegava tudo. Sua calma acalmava as noites abafadas, sua cortesia abrandava o peso das horas complicadas e seu modo de conviver em harmonia com os outros peixes ditava como podia ser também a vida das espécies do lado de cá: temperança, boas intenções, equilíbrio, tolerância e justeza – e de repente ele estava lá, parado onde antes era um balé, vazio no espaço até então ocupado pelo hábito de nadar com leveza, a barriga dourada para cima, as escamas pretas opacas como o quê, os olhos protuberantes vidrados em lugar nenhum.

Melquíades era pura calma, Gabo, mesmo diante das tempestades do lado de fora, mesmo nas horas em que chovia dentro de mim, sereno e certeiro como a resposta que Florentino Ariza tinha preparado havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites para a pergunta de Fermina Daza, diante do céu sem nuvens de dezembro e da suspeita de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites.

– E até quando acredita o senhor que podemos continuar neste ir e vir do caralho?

– Toda a vida.

autorretrato à moda de Gabo

Meu nome, senhoras e senhoras, é Ana Laura Nahas. Houve um tempo em que as cinco letras do meio incomodavam; hoje gosto. A escolha foi das minhas irmãs, inspiradas na canção de João de Barro que minha mãe cantava para embalar o sono delas e que ainda quero tatuar perto do cóccix. Nasci em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, há trinta e sete anos, e ainda não me arrependi. Meu signo é Aquário e meu marido inventa palavras. Estudei jornalismo, vivo em paz entre papéis e cresci ouvindo música brasileira de todo o tipo, a agulha do toca disco chiando enquanto eu existia ou brincava no quarto, e graças às conjunções permitidas por estas atividades tenho sido capaz de sobreviver escrevendo.

Minha verdadeira vocação é ser cozinheira, mas fico tão encabulada quando dizem que o quibe, a cafta, a pasta de grão de bico e a berinjela que fazemos na cozinha de casa são melhores que os dos restaurantes que achei melhor me refugiar na solidão da literatura. Tenho tido de me submeter a uma disciplina atroz para terminar meia página depois de duas horas de trabalho. Exatamente como Gabo, só que com resultado infinitamente menos arrebatador, luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence, mas sou tão dedicada que tenho este blog, uma coluna quinzenal e consegui publicar dois livros em quatros anos. O terceiro, que escrevo agora, progride mais devagar que os outros, porque, entre as tarefas do dia e as minhas dores de cabeça, tenho pouco tempo livre.

Falo sobre literatura talvez mais do que devia, porque palavras, frases e parágrafos me movem de modo mais agradável do que o excesso de exibicionismo destes tempos de tanto blá-blá-blá e tão pouca essência. Ao contrário de Gabo, não estou convencida de que o mundo seria o mesmo sem os livros. Por outro lado, acredito, como ele, que as coisas seriam diferentes sem a polícia. Apesar disto, terrorismo – sinto muito – não é comigo.

Escrevi este autorretrato à moda de Gabo três dias depois de sua morte, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos. A inspiração é este texto aqui, dele, de 1966. Quando soube da sua morte, foi como se tivesse perdido um parente próximo, um vô querido, um vizinho gentil, um professor remoto. O hábito de ler seus livros foi desde sempre uma lição e tanto, cada capítulo, cada entrevista rara, cada discurso, a maneira como ele acrescentava pessoas vivas aos mortos que atormentavam sua imaginação. Com seus modos de colombiano errante e nostálgico, Gabriel García Márquez criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], de quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo; e até os peixes do quarto em que costumo escrever têm um pouco dele: Aureliano, Arcádio, Amaranta, Rebeca e – meu ligeiro favorito, que também se foi recentemente – o Telescópio Melquíades.

cem anos de solidão

De repente reapareceu aquele livro. Um sujeito que conheci no avião contou que havia acabado de reler “Cem Anos de Solidão”, repetindo aos 40 o ritual dos 20 e dos 30, o de voltar a Macondo a cada dez anos, imagino que para redescobrir as coisas por diferentes óticas do tempo, vê-las de outro modo, primeiro com angústia, depois com pretensão e aí sim com certa – mesmo que ainda não definitiva – serenidade. Dois dias depois, o exemplar azul com ilustrações simpáticas que comprei há séculos no Centro caiu, literalmente, da estante do quarto.

Eu tinha mais o que fazer, era verdade; tinha armários por arrumar, compras por comprar, poeira por tirar, ressaca por curar, o urgente, o importante e o imprescindível separados pelos post-its em cor e ordem de importância, três amarelos, um verde e o outro alaranjado como o sol dos desenhos de criança. Tinha “Ensaio sobre a Lucidez” [empréstimo], “Na Pior em Paris e Londres” [presente], “200 Crônicas Escolhidas” [escolha], uma biografia de Ernesto Che Guevara [não sei] e o projeto prometido [obrigação] na pilha dos não lidos, as revistas do mês, o sono atrasado e aquela saudade antiga que não doía muito mais, só que também não sossegava.

Mas tinha também certa e reverência a livros que caem da estante, apesar dos post-its, das urgências e das importâncias, do sono e de todo o atraso. Então obedeci, e comecei a reler o livro que li pela primeira vez quando fazia pré-vestibular, e outras duas quando já estudava Jornalismo, no auge da descoberta do meu amor pelas palavras, pelas perguntas mal respondidas e pela ideia fixa e nem sempre bem-sucedida de que palavras, perguntas e ideias podem mudar o mundo.

A cada uma das vezes foi um livro diferente, embora fosse sempre a mesma a saga do Coronel Aureliano Buendía, que muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e, para mencioná-las, era preciso apontar com o dedo, e a cada página, eu pensava em Rebeca, Amaranta, Úrsula e Fernanda e no menino nascido com rabo de porco, nos Josés Arcádios, nos Arcádios e nos outros Aurelianos, que agora podiam ser eu, você, qualquer um; pensava na dor das estirpes condenadas a cem anos de solidão e no fato, no fundo consumado como a canção, de que elas não tinham uma segunda chance sobre a Terra.

a memória de gabo


Um amigo próximo contou numa entrevista que Gabriel García Márquez está perdendo a memória. Disse que Gabo não fala mais ao telefone porque não reconhece seus interlocutores pela voz, que faz perguntas iguais repetidas vezes e que, quando não sabe com quem conversa, despeja um “o que tem feito?” ou um “quando volta de Paris?”, para tentar reencontrar o rumo e as lembranças que ficaram num lugar que vai saber. Coisas mais antigas, de acordo com o amigo, continuam intactas na cabeça mirabolante do menino pálido, subnutrido e atormentado pelos piolhos que se tornou um dos maiores escritores de seu tempo.

Estão lá – devem estar, como não? – o amor desde a infância até hoje e a velha residência dos avós em Aracataca repleta de mulheres religiosas e de homens que ou estavam indo ou tinham vindo da guerra, o jornalismo e o avô que tirou o neto do mundo feminino de premonições em que vivia e o levou ao mundo masculino da política. Estão lá – devem estar, como não? – a professora esperançosa, a leiteira descrente que disse que aquela criança não vingava e a saga das estirpes condenadas a cem anos de solidão, os personagens e as aventuras que ele viveu, ou vai ver inventou, há 30, 40, 50 anos, frescos como os legumes da feira de quarta à noite, à disposição das conversas, das perguntas e da imaginação.

Gabo criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], de quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. [O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos].

Num autorretrato feito em 1966, contou que se tornou autor por causa da timidez: “Meu nome, senhor, é Gabriel García Márquez. Sinto muito: também não gosto do nome, porque é uma sequência de lugares-comuns cuja conexão nunca fui capaz de fazer. Nasci em Aracataca, Colômbia, há quarenta anos, e ainda não me arrependi. Meu signo é Peixes e minha esposa é Mercedes. Sou escritor por causa da timidez. Minha verdadeira vocação é ser mágico, mas fico tão encabulado tentando fazer os truques que tive de me refugiar na solidão da literatura. As duas atividades me conduziram à única coisa que me interessa desde criança: que meus amigos pudessem me amar mais”.

De lá para cá, talvez um pouco antes, adotou a estratégia de relatar versões diferentes de um mesmo fato para confundir seus ouvintes, flertou com diferentes lados do poder de um continente politicamente instável, alimentou relações quase tão contraditórias quanto seu guarda-roupa barroco. Bebeu óleo de fígado de bacalhau para fugir da tuberculose, comeu o pão que o diabo amassou antes de viver de seus livros, ganhou prêmios e admiradores, perdeu amigos e afetos e agora, segundo consta, simplesmente não lembra mais.

Gabo simplesmente não lembra mais, segundo consta, esqueceu, largou pra trás alguns rostos, algumas palavras, algumas vozes, quem sabe tristezas, quem sabe saudades, uma conversa com o filho mais velho, um encontro, as chegadas, as estadas e as partidas. Quem sabe exatamente qual parte?, se as melhores ou a ideia, defendida por ele mesmo durante tanto tempo, de que a vida não é a que a gente viveu, mas a que a gente recorda, e como recorda, para contar.

da série releituras

Atormentado de amor, mandei consertar os estragos da borrasca e aproveitei para providenciar muitos outros remendos que vinha demorando fazia anos por insolvência ou por indolência. Reorganizei a biblioteca, na ordem em que os livros tinham sido lidos. No fim me livrei da pianola como se fosse relíquia histórica, com seus mais de cem rolos de clássicos, e comprei um toca-discos usado mas melhor que o meu, com alto-falantes de alta fidelidade que aumentaram o ambiente da casa. Fiquei à beira da ruína mas bem compensado pelo milagre de estar vivo na minha idade.

A casa renascia de suas cinzas e eu navegava no amor de Delgadina com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheci em minha vida anterior. Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza.

Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.

Gabriel García Márquez, Memórias de Minhas Putas Tristes