agradecer

Alguém já disse, com toda razão, que a gratidão transforma o caos em ordem, a negação em aceitação, a confusão em clareza. O oposto é um perigo. Quando estamos tomados de insatisfação, sentimos que nossas escolhas não acrescentam, nossos empregos não satisfazem, nossas roupas não cabem, nossa casa não acolhe, o sal não tempera, os amigos não ligam ou então são outros os desagrados.

Em meio ao turbilhão de faltas, esquecemos dos braços, pernas, pés e mãos que funcionam bem, do teto que nos acolhe, da possibilidade de enxergar, das pequenas vitórias, das canções e dos afetos, de gente próxima com quem realmente podemos contar, do amor em estado puro a despeito das dificuldades. Em meio ao turbilhão de faltas, esquecemos do que nos é essencial e que nos serve, bem ou mal, dia e noite, faça chuva ou faça sol.

[O essencial é entender o que nos move, estar próximo do que nos emociona, investir no que importa e dispensar o resto. O essencial é aquela história: escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Não deve ter sido coincidência. Às vésperas do Natal, uma época em que tradicionalmente somos [ou deveríamos ser] tomados pelo hábito de dizer obrigado, fui internada às pressas para uma cirurgia de emergência na vesícula. A dor era imensa, a maior que lembro ter sentido. A operação não foi das mais simples, mas saí de lá quase inteira.

Dois dias depois, recebi alta e, apesar da recuperação dolorida e do susto, por todo o lado havia motivos para dizer obrigado. Eu estava viva, antes de mais nada. Caminhava com dificuldade, mas caminhava. A família inteira estava sintonizada, os de perto e os de longe, e as alianças permaneciam firmes e fortes. Felizmente tínhamos condições de comprar os medicamentos prescritos pelo médico, a dieta completa, o conforto todo.

Quando fomos para casa, Melodia esperava na porta. Os enormes olhos amarelos do meu gato de estimação contrastavam com seu pêlo preto brilhante. O balanço do rabo indicava felicidade. Os discos acumulados ao longo da caminhada e os livros cuidadosamente enfileirados nas prateleiras estavam exatamente do jeito que eu havia deixado.

Era bom voltar.

Quando olhei em torno, lembrei daqueles dias em que tradicionalmente somos [ou deveríamos ser] tomados pelo hábito de agradecer, apesar de todo o peso que o ano acumula. Dezembro havia começado com chuva. Meu estado de espírito não andava muito diferente. Eu precisava serenar a pele, organizar a casa e, mais urgente que tudo, cuidar para que meus pensamentos voltassem a ser leves. O coração batia pesado. Apesar disso, eu sabia: precisava pensar profundamente no lado bom da vida.

O tempo, uma vez mais, desempenhava com maestria seu papel de santo remédio, e eu não tinha escolha mais indicada a fazer do que simplesmente agradecer.

desde o fim até o começo

Finais de ano são um desafio em si mesmos. O tempo encurta. O barulho aumenta. O clima esquenta. O ritmo acelera. A respiração segue a cadência do mundo e pesa. Mesmo que a experiência de períodos anteriores garanta que em breve as coisas se acalmam, o equilíbrio construído a duras penas nos meses que ficam para trás ameaça ruir. A lista de tarefas, exatamente como o preço do feijão, o gás, a luz, o telefone e o operário, não cabe no poema – porque o poema, senhores, está fechado, e não há vagas.

As exigências são inúmeras: dar conta das promessas que não saíram do papel, comprar os presentes do Natal, escolher as vestes do Ano Novo, preparar o cardápio da ceia, buscar os parentes que chegam de longe, acertar as contas, ajeitar a casa, limpar os papéis, a faxina no armário, a festa da firma, o amigo secreto, aquilo tudo.

Por puro pragmatismo, caminhamos rumo a resultados imediatos para questões urgentes, como se fôssemos bombeiros que correm contra o relógio para salvar uma casa em chamas, obrigação, utilidade, cozinha, entrega, família, compra, pedaço, cobrança, criatividade, força, prato, olho, faxina, planejamento, analgésico, compromisso, reunião, prazo de entrega, encontro, banco, jantar, exame, encanador, um caminhão de tarefas à espera de resoluções, a vida inteira. O que sobra à contemplação é quase nada.

Felizmente, os começos de ano são o justo oposto, porque guardam em si uma dose extra de esperança no futuro e uma extraordinária disposição para recolocar as coisas na perspectiva da generosidade com o mundo, com os outros e com nós mesmos.

Separados do peso por um pequeno espaço de tempo e tomados pela insustentável leveza do sol, os primeiros dias da nova temporada parecem feitos sob medida para a empreitada de pedalar sem desculpas, para a promessa de reencontrar os queridos de modo mais habitual, para os projetos que esperam na gaveta, para o cardápio à base de folhas frescas, legumes orgânicos e frutas da estação, para o calor, a simplicidade, a fé e o movimento.

“Estude seu viver, observe sua deriva”, escreve um professor que tem por missão despertar a capacidade de utilizar potenciais criativos para impulsionar as mudanças desejadas por seus aprendizes. Cada passo, cada reação e cada nova forma de pensar surgida entre uma e outra lição são fundamentais, ele anota; o que nos coloca para andar, o que acorda a nossa imaginação, o que estimula a nossa energia.

Talvez por isto, tão logo janeiro se aproxime, reservo uma noite calma, escolho as canções, tomo um lápis de boa ponta, os projetos, as metas e os sonhos e realizo o ritual igualmente silencioso de passar a limpo a agenda do ano, preenchendo o novo volume com aniversariantes e telefones de emergência, compromissos e desejos.

Costuma ser exatamente deste modo, como uma ciência poeticamente exata, na medida da esperança: em que médico voltar e quando, as contas a vencer, os contatos que preciso retomar, rever anotações, olhar para trás, avaliar projetos, reorganizar desejos, analisar feitos, tomar nota frescas do que for preciso e apagar o resto, com todo o desapego do mundo. Terminada a liturgia, estou pronta para seguir em frente.