pequeno dicionário para o ano que começou

A
Afetos
Alongar
Alegria

B
Bicicleta
Balanço
Bonsai

C
Cartas Extraordinárias, o livro
Cozinhaterapia
Crônicas & Canções, sempre

D
Descartar os excessos
Decoração
Dialética, o poema

E
Equilíbrio
Estude seu viver, observe sua deriva
Esperança [“é o que nos resta em tempos difíceis”]

F
Filtro 40
Foco

G
Gastronomia sentimental
Grafite de boa ponta
Gim com água tônica

H
Haruki Murakami
Hidroginástica
Horta caseira

I
Ítalo Calvino
Inspiração
Iodo e amendoim não pode

J
Jazz
Jards Macalé, sobre as coisas passando [eu quero é passar com elas eu quero]
Jornalismo

K
Kind of Blue, o disco

L
Leveza, sempre que possível
Livro novo, quem sabe
Legumes orgânicos

M
Movimento
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo
Madrugadas

N
Navegar
Na rua, na chuva, na fazenda
Nina Simone

O
O dia fora do tempo
O que for essencial, cada vez mais
Organização

P
Pão caseiro
Peixes no aquário
Paciência e perseverança

Q
Queijo de feira
Quitanda
Quase um Segundo quase esgotado

R
Reformar a casa
Respirar profundo
Reciclar o lixo, reaproveitar as sobras

S
Suavidade
Samba
Sábado [para aumentar a vitrola]

T
Textos novos
Tempo
Then you can star to make it better

U
Universidade
Utopias possíveis
Umbigo não é o centro do mundo

V
Vento sul
Vitória, a cidade
Vestido, sempre que possível

W
Wi-Fi
www
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
Xampu com cheiro bom

Y
Yin-Yang
Yoga
Yes, we can

Z
Zen
Zelo
Zarpar quando for preciso

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a insustentável leveza do sol [ou da alegria de estar no verão]

Há quem diga que as estações do ano começam com estados de espírito. Eles coincidem mais ou menos com os períodos marcados pelos equinócios e solstícios, aqui e no outro hemisfério, mas seguem a lógica da poesia e a geografia dos afetos, não a matemática da inclinação da Terra com relação ao Sol, a química dos vapores, raios e frações de luz ou a física das temperaturas nos trópicos.

Vejam, por exemplo, como entre dezembro e março somos frequentemente tomados pelo desejo de transformação e pela ideia de que a vida pesa menos. Vejam que, talvez por causa dos dias mais longos que as noites, temos mais pedais pedalando no sentido do vento, mais projetos novos anotados na agenda, mais vestidos que balançam conforme a brisa, mais disposição para sentir os cheiros que vêm da rua, da cozinha ou da memória.

Vejam que experimentamos a esperança em dias melhores, a disposição em escancarar as janelas, a promessa de reencontrar os queridos de maneira mais habitual, talvez movidos pelo horário com uma hora de diferença, figurino leve e caipirinha de tangerina, vai ver impulsionados pela profusão de vermelhos, amarelos, cinzas e verdes do entardecer. Vejam que as canções parecem, mais do que nunca, dispostas a cantar noite afora, pela madrugada, até que amanheça.

Vejam como o cardápio à base de folhas frescas, legumes orgânicos e frutas da temporada parece estimular a harmonia do corpo, a digestão eficiente e o equilíbrio de energia. Vejam como os recomeços induzem aos aprendizados e quem sabe a um estilo de vida mais próximo dos antigos povos essênios, que sabiam produzir toda a sorte de instrumentos para escrita, culinária e agricultura, tinham as artes como prática e os sábados como um dia dedicado ao estudo, aos encontros e à música.

[Delícia].

Enquanto a primavera lembra desabrochares e o outono marca a hora de colher e ver as folhas que caem, mais ou menos amarelas, na calçada, nas ruas e na varanda, o verão remete à leveza, à simplicidade e ao movimento, sedimentar o caminho das colheitas, reencontrar o foco, planejar caminhos diferentes e de preferência voltar a sorrir também com o espírito, e não apenas com os dentes.

Talvez por causa das celebrações ainda frescas do ano novo e dos desejos que costumam nascer com ele, somos nesta parte do ano tomados pela vontade de jogar os excessos fora e, como um típico habitante de Gana, cavar um buraco e falar dentro dele o que se passou de ruim nos últimos 365 dias, discorrer suavemente sobre as coisas boas para janeiro, fevereiro, março e todo o resto, depois jogar um pouco de vinho ou cachaça sobre a terra em homenagem aos ancestrais e, enfim, beber também um pouco.

[Terminada a liturgia, você está pronto para recomeçar].

Talvez por causa dos aprendizados de verões passados, nesta parte do ano temos mais disposição para seguir rumo às tarefas e algum descanso, aos encontros e reencontros, entregar um trabalho, terminar um livro, fazer o jantar, ouvir o silêncio, limpar as estantes, jogar conversa fora, escolher a música certa pra cada ocasião. Temos ao que parece mais afinco em descobrir o que realmente importa, tornar mais curto o caminho entre nós e o que nos faz de fato felizes, mergulhar inteiros em um projeto, um amor ou um propósito, inteiros como o sol, como se não houvesse mais nada além dele e de nós.

obrigada, 2014 | seja bem-vindo, 2015

Foi um ano de passos grandes, mudanças significativas, algumas ausências e algumas expectativas desfeitas. Causei também os meus desapontamentos, que espero corrigir na temporada que começa agora. Ouvi menos música do que gostaria, passei a entender melhor o que o corpo ensina, respirei com mais consciência que antes, vi meus amigos menos do que me faz bem, trabalhei um bocado pensando no bem da cidade em que vivo. Mudei de emprego. Coloquei no papel o casamento da prática. Testei inúmeras receitas novas na cozinha e felizmente a maioria deu certo. Aprendi um pouco mais sobre a vaidade dos homens e senti ainda mais forte minha convicção de que melhor que o poder é a potência, melhor que o acúmulo é a permanência, melhor que o exagero é o equilíbrio, melhor que a posse é o sentido. Dancei e cantei. Pedalei menos do que gostaria. Li Diários de Bicicleta e gostei do que David Byrne anotou. Optei sempre que possível pelos alimentos orgânicos, reaproveitei as sobras das panelas e separei o lixo seco do úmido, em pequenas tentativas diárias de fazer algo pela sobrevivência do planeta. Sei que posso fazer ainda um pouco mais. Acordei mais cedo que em anos anteriores. Continuei alérgica a camarões e amendoins. Sorri com os olhos. Sorri com os dentes. Sorri com o corpo todo. Chorei outro tanto. Consultei o dicionário, o horóscopo e o oráculo. Fiz acupuntura. Ganhei duas orquídeas. Cuidei das plantas com menos zelo do que devia. Concordei com o compositor, por fim: o lema do Brasil podia ser Amor, Ordem e Progresso.

14 coisas que aprendi em 2014

1. A paz não é tarefa fácil, mas respirar fundo, apostar no poder da serenidade e acreditar que a saída quase sempre aponta para o que for simples ajuda a, quase sempre, transformar peso em força, exemplo em inspiração, limão em limonada.

2. Atitudes e palavras gentis demonstram força, não o seu oposto. Confiança, respeito e admiração são sentimentos incrivelmente mais poderosos do que medo, obediência e subserviência. Precisamos não apenas de lógica, de logística, inteligência, organização e eficiência, mas também de sensibilidade e afeto para compreender as transformações do mundo. Devemos não apenas trabalhar duro, mas igualmente investir em encontros com aqueles que pensam menos na posse e mais no sentido, menos no acúmulo e mais na permanência, menos no exagero e mais no equilíbrio, menos no poder e mais na potência.

3. A humildade talvez seja parente próxima da beleza, ou então da simplicidade, aquela que o implacável imperador encontrou, depois de duas décadas de conquistas e crueldades, em uma pequena horta na sua terra natal. Certo dia, diante da sugestão de que retornasse ao poder, o ex-imperador teria dito:
– Se você visse meus lindos repolhos, não me pediria uma coisa dessas.

4. Cartografia é uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa.

5. Depois de um tempo e a certa distância, até o rancor vira outra coisa e a verdade feita de saudade, ciúme, cansaço, ansiedade e apego abre espaço para a percepção de que rupturas são indispensáveis, de que coragem e criatividade fazem melhor ao mundo que conformismo. Em outro momento ou de um lugar diferente, uma angústia sufocante não passa de nada, o pior ressentimento não passa de uma lembrança vaga, um monstro gigante não passa de um ciuminho bobo, uma paixão incurável não passa de um amontoado de memórias. Em outro momento ou de um lugar diferente, os pesos pesam menos e, depois de algumas horas de sono, dá até pra reconhecer o tamanho do passo que pareceu pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso. Depois de um período e a certa distância, as coisas mudam, ou então muda o olhar que colocamos sobre elas.

6. Adianta bem pouco acumular mil experiências se a mente não descansa.

7. Emoção mal digerida é como comida pesada: faz mal ao estômago, sobrecarrega o fígado, atravanca o intestino. Se, conforme determina a medicina tradicional chinesa, a barriga for o centro do homem, os sentimentos negativos, preocupação excessiva e pensamentos obsessivos alteram profundamente o funcionamento de certos órgãos, deixando o corpo todo em total desarmonia.

[Ai].

8. Mia Couto tem toda razão. Cozinhar é um modo de amar os outros.

9. Eugenio Mussak também sabe o que diz: o que dá a verdadeira dimensão de um lugar, seja uma casa, uma cidade ou um planeta, não é o quanto que ele é grande, mas o quanto que ele é justo.

10. Desde remotos anos antes de Cristo, a civilização Maia tinha tinha por hábito medir a passagem dos dias e respectivas noites, registrar o movimento dos astros, demarcar as celebrações religiosas, as vitórias militares, a fundação das cidades e as colheitas, além de erguer nas pedras inscrições que contribuíssem para a memória das gerações futuras. Os ciclos se repetiam de 13 em 13 luas de 28 dias cada, somando 364 dias, com início em 26 de julho e fim no 24 de julho seguinte. O dia 25 não pertencia nem a um ano nem ao outro, e os maias o chamavam de O Dia Fora do Tempo. Durante estas 24 horas, as tarefas eram meditar a respeito da vida, agradecer pelo resultado das semeaduras anteriores, cancelar dívidas materiais ou metafísicas, dedicar-se às artes, elevar o estado de consciência e respirar com toda a liberdade do mundo. Nelas se concentrava a energia para o período que em breve começaria, bem ou mal, alegre ou triste, leve ou pesado, de acordo com o que fosse – bom ou mau, alegre ou triste, leve ou pesado – o Dia Fora do Tempo.

Taí, gostei.

11. A dica 11 do livro de autoajuda é, como a de número 171 em 2013, inacreditavelmente eficiente, apesar de livro de autoajuda ser aquela coisa: “Quando estiver de bom humor, sente-se à sua escrivaninha e faça uma lista de atividades, comidas, lugares, pessoas e situações que o fazem se sentir bem”.

12. As dicas 26, 27 e 28 de um outro exemplar também funcionam:
Descarte as coisas que não usa mais | Descarte os hábitos e sentimentos que você ainda usa, mas que são nocivos ao seu bem estar | Poupe ao menos 20% de seu ganhos

13. Dançar é um santo remédio. O que diz a canção faz bem igual: “Cuide tudo o que for verdadeiro. Deixe tudo o que não for passar”.

14. O vento sul guarda a melancolia dos domingos de inverno, mas também a leveza do descanso e a imensa possibilidade dos recomeços, limpar o céu com sua força, inspirar palavras com a tristeza que prenuncia, dispersar os maus presságios que insistem apesar da fé, como fosse não apenas o movimento do ar em relação à superfície terrestre com variações de velocidade e direção, mas também um pequeno teco de esperança, uma canção em tom maior, um abraço com o braço mais firme de todos, a crônica otimista do instante que passa:

“Não há muita pressa, mas é preciso aprender a continuar. É preciso plantar uma rosa, cumprir promessa, escrever o poema que um dia pediram de mim, numa mesa de bar. É preciso voltar a crer, e você, Maria, nunca mais vai dizer que já não é mais tempo de esperar. Nunca senti que a vida exigisse tanta esperança de mim, como exige agora. Deve haver sempre a espera, enchendo todas as mãos, todos os olhos, todos os silêncios. Não deve faltar jamais a esperança, Maria: ela precisa estar também no sonho, no gesto, em todas as palavras e em todas as canções”.
Carmélia Maria de Souza