assar, rezar, amar

Existe um adágio nas artes da culinária segundo o qual “a bom cozinheiro se chega, o bom assador se nasce”. Seu autor, um juiz francês nascido em meados dos anos 1700, escreveu um apanhado de meditações sobre a comida, seus modos e o amor pelas receitas intitulado A Fisiologia do Gosto, em que teoriza, com ironia fina, a respeito de coisas que governam o bem cozinhar, o bem receber e o bem comer.

Quando não estava preparando faisões recheados, filé mignon ao molho de trufas ou omeletes de atum, Jean Anthelme Brillat-Savarin, o juiz francês de ironia fina e meditações sobre cozinhar, receber e comer, passava os dias e respectivas noites organizando degustações e defendendo a capacidade de servir receitas acalentadas no forno como um talento nato surgido com o próprio cozinheiro.

Qualquer um, ele dizia, pode aprender as medidas e as técnicas de qualquer prato, cru ou cozido, doce ou salgado, picante ou suave, desde que feito do lado de fora do fogão. Seu interior, ao contrário, exige um dom genuíno, de raízes profundas, tal e qual a liberdade do velho poema sobre a palavra humana que o sonho alimenta.

[Não há ninguém que explique nem ninguém que não entenda…]

Anos depois, uma escritora de nome igualmente francês, estômago forte, coração inquieto e alma cigana ensinou que a verdadeira cozinha é feita por quem adiciona um fio de azeite enquanto sonha, acrescenta uma pitada de sal enquanto dança, pesa sem balança, marca o tempo sem relógio, vigia o assado apenas com os olhos da alma, mistura ovos, manteiga e farinha guiada exclusivamente pela inspiração.

Estou com eles.

Gosto de estudar o tempo certo do cozimento, a textura conveniente dos ingredientes, a intensidade exata do fogo, a forma adequada do tabuleiro, equilíbrio no tempero, harmonia na textura, paciência na espera.

Da avó paterna herdei o gosto pela culinária dos sírios e dos libaneses, o chancliche envolvido em azeite que ela servia com folhas de pão na grande mesa de madeira, berinjelas recheadas, folhas de couve e repolho ao redor do arroz com especiarias, cebolas cruas com quibe e por fim uma colherada generosa de pasta de gergelim.

Da avó materna vieram o feijão espesso do qual ainda hoje sinto o cheiro, os refogados e uma exótica salada de músculo de boi com azeitonas, tomate e temperos posta na mesa com pães de sal frescos que comprávamos pouco antes do almoço.

Minha mãe ensinou o resto – com exceção do arroz, que errei até os dois primeiros anos do casamento, insistindo nos blocos que denunciavam ausência de empenho e excesso de água.

Os assados simplesmente surgiram, a costelinha regada a vinho encorpado e purê de maçã verde, o frango inteiro com batatas coradas e tomates desidratados, a carne dormida em temperos com os legumes que estiverem à mão, o escondidinho de batata doce, a caponata que antecede os pratos e croutons para acompanhar.

Às vezes os amigos chegam, às vezes somos apenas nós, cantando e dançando diante dos pratos mais simples como se fôssemos convidados do banquete preparado por Babette, redimidos da culpa e da guerra pela boa mesa e plenamente conscientes de que o Céu também se faz nos pequenos encantos da vida.

chorador destampado

“Mas tudo isso porque Gal, Zeca e eu andamos muito à flor da pele”.
Zuenir Ventura

Dizem que eu choro muito, e é verdade. Choro no cinema, nos poemas, em certos trechos de determinados livros, diante de algumas ausências. Às vezes até em final de novela eu choro. Choro de raiva, de desapontamento, de felicidade ou em momentos singulares de um dia especialmente bom, um propósito cumprido, um afeto correspondido, um encontro bem-sucedido, minha hora favorita aos sábados, uma declaração de amor, a primeira frase que a senhorinha leu tão logo aprendeu a ler, o silêncio sossegado que construímos para descansar do barulho que vem de fora.

Há explicações mais ou menos inventivas e motivos abrigados tanto na ciência quanto na poesia. Segundo os fisiologistas, por exemplo, o choro é a resposta da associação feita pelo sistema límbico entre os estímulos emotivos que recebemos e determinados sentimentos guardados no cérebro, tristeza, doença, indignação, insegurança, medo ou alegria. Para os artistas, ao contrário, chorar costuma estar exclusivamente dentro, no nó das coisas que passaram, nas dores que ainda virão, nos amores desfeitos ou nos desencontros, no que falta e nos dias em que não dá tempo nem de dizer adeus.

Para os químicos, a fórmula do que escorre pelos olhos é simples: água, muco, lipídios, proteínas, magnésio, potássio, enzimas e um pouco de gordura e, de acordo com os biólogos, apenas nos humanos, entre todas as espécies do reino animal.

Nas contas – e aqui entram os estatísticos – aproximadamente 75% dos homens e 85% das mulheres sentem-se melhor depois do choro, enquanto na matemática dos hormônios chorar libera substâncias como a leucina-encefalina, a noradrenalina e a serotonina, que suavizam a angústia, aliviam a tensão e proporcionam uma sensação semelhante a de uma anestesia leve.

[E tem ainda a arte da ironia, segundo a qual chorar lágrimas de crocodilo significa parecer desolado por fingimento, porque os répteis, que chegam a ter 80 dentes, quando comem uma presa engolem sem mastigar. Sua mandíbula comprime a glândula lacrimal e, enquanto devoram a vítima, eles lacrimejam].

Minha mãe tem outra explicação para o hábito que acompanha meus dias desde os tempos de criança, e pode ser também o seu, o de todo mundo:

 Ela tem o chorador destampado.

O chorador, a julgar pela tese de minha querida mãe, é o órgão do corpo responsável pela produção daquela sensação de que não é possível segurar as lágrimas. Acompanhado do adjetivo destampado, quer dizer que ele apresenta um defeito na válvula que controla o fluxo do choro, um defeito de nascença, como um osso torto ou predisposição para glaucoma, sensibilidade demais ou neurotransmissores em festa, vontade de lavar a alma ou falta do que fazer.

Nos autos da família consta que um dia eu estava chorando copiosamente e, ao me perguntarem o que havia acontecido, eu parei um pouco, pensei e voltei a chorar, simplesmente porque não lembrava o motivo inicial do choro. De lá para cá, o drama virou comédia – a maioria acha graça; eu também – e não se passa um par de meses sem que a história volte a animar convidados, parentes, vizinhos, conhecidos ou nem tanto.

A boa notícia é que chorar faz bem à saúde quase tanto quanto rir, porque esvazia o coração do que pesa, porque remove a tensão acumulada, porque libera substâncias químicas que dão a sensação de alívio imediato. Até o velho Braga colaborou comigo e meu chorador destampado, obviamente sem saber. Consta em seus autos familiares que certa vez o pequeno Rubem chorava sentado na varanda da casa de Cachoeiro. Chorava sem parar, cabeça baixa entre os braços, enquanto as visitas e os moradores iam e vinham. Até que alguém parou e perguntou por que chorava. Soluçando ainda, ele respondeu:

– Eu já se me esqueci…

o rum e o refúgio

“Difícil é essa condição humana.
Eu não estava armado para isso.
Esses trens, essa vida…”

Em uma das cenas mais bonitas de 35 Doses de Rum, um homem diz para sua filha que eles têm, dentro de casa, absolutamente tudo o que precisam. Talvez tenham, de fato: afeto, liberdade, livros, música, comida e as memórias, quase tudo. Pai e filha vivem num subúrbio de Paris, e só aos poucos sabemos da morte da mãe, da relação despedaçada do viúvo silencioso com a motorista de táxi que mora ao lado, da barreira que a menina impõe ao amor, do vizinho que ameaça ir embora numa atitude de quase desespero.

Aos poucos sabemos, ou porque o filme sugere ou vai ver são as cicatrizes, das razões de pai, filha, motorista de táxi e vizinho. Aos poucos entendemos, ou porque o filme sugere ou vai ver vocês sabem, que as razões deles são um pouco como as de todos nós: o medo do envolvimento, a dor da perda, o desequilíbrio dos traumas, a vontade do encontro.

O lar deles, como acredito devem ser os verdadeiros lares, é o abrigo que protege da solidão da cidade grande, dos caminhos tortos do trem, do mau humor cuspido no trânsito, dos vazios e das expectativas desfeitas, das tristezas acumuladas no tempo, dos finais, das ausências [até mesmo as dos vivos, que são tão ou mais difíceis do que a falta que nos fazem os que já estão mortos] e da própria morte.

Seus silêncios dizem quase tudo, como dizem entre si – sem palavras, ou com poucas – aqueles que atingiram a beleza de não precisar dizer da raiva ou da saudade, do desejo ou da tristeza, do amor ou das necessidades, raiva, amor, saudade, desejo, tristeza e necessidade subentendidos, e compreendidos igual. São como talvez devêssemos ser todos, também, afetuosos, silenciosos, simples e tranquilos, verdadeiros, sinceros e presentes, quase nunca indelicados, quase nunca indiferentes, quase nunca reticentes.

Os personagens de 35 Doses de Rum compartilham o desconforto diante da realidade, como fazem os amigos de verdade, agem como cúmplices diante do gato morto que vai pro lixo, do flerte e da dor de cotovelo embaladas por Nightshift e aquela melodia tristíssima dos Commodores, tristíssima como a expressão da personagem que insiste num amor não correspondido; do trabalho, da panela nova, da faxina catártica, do carro que pifa numa noite de chuva em que a música compensa até as divergências.

O filme é todo de movimentos suaves, corpos e objetos dançando a dança sutil dos melhores encontros, aqueles que a gente carrega quando vai embora – e deixa um pedaço com eles. É como são as melhores coisas do mundo, como a madrugada em que havia um violão e nenhuma expectativa; como o tempo em que não havia mais nada de importante, só os dois. É como são as melhores noites ou então os dias que a gente celebra com as 35 doses de rum destinadas apenas às ocasiões mais importantes da vida.