da série leituras

E AMANHÃ É DOMINGO
Por Clarice Lispector

aspasSegunda-feira é […] sempre a tentativa do começo de vida nova. Façamos cada domingo de noite um réveillon modesto, pois se meia-noite de domingo não é começo de Ano Novo, é começo de semana nova, o que significa fazer planos e fabricar sonhos.

Meus planos se resumem, para esta semana nova, em arrumar finalmente meus papéis, já que a governanta eu não vou ter mesmo. Quanto aos sonhos desculpem, guardo-os para mim, como vocês guardam, com o olhar pensativo, de quem tem direito, os próprios.

ode ao domingo

É o dia em que os antigos povos pagãos reverenciavam seus deuses, contemplavam o tempo, dançavam com mais vigor a dança das colheitas e a libertadora ausência do pecado, do mau e do inferno, celebravam a relação para eles mágica do homem com a natureza, cultuavam seus ancestrais e destinavam suas preces ao quente e ao amarelo que vinham do céu.

[Um dia dedicado ao sol não pode ser mau].

É dia de cerveja, campo, bola, esquema tático, juiz ladrão e palavrão [porque xingar o juiz é mais terapêutico que qualquer técnica de William Reich, inclusive chutar o colchão], aquele dia em que pros que gostam de bola só o futebol basta e pras que gostam das belezas do mundo tem expressão dos olhos, torneado dos braços, definição do tórax, espessura da coxa e sorriso de propaganda de pasta de dente.

É dia de conhecer música nova, ou reconhecer, como aquelas do Rei que a gente ouvia de criança e ainda hoje, aquele dia de ouvir as verdades da baladinha sobre quando a gente não imagina por quê, as mentiras daquele sambinha sincopado, os cinco acordes daquele roquezinho singelo, exatamente assim, no diminutivo que não diminui em nada, só acrescenta um pouco da doçura que às vezes falta.

É dia de comer comida de mãe, um almoço depois outro, aquele imperdível macarrão com frango à milanesa que tem na mesa desde tanto tempo que nem sei e beber Coca-Cola sem culpa, assistir às reprises de desenho animado com os pequenos na TV, conversar fiado com os grandes na varanda, espalhar o jornal pela sala e depois ler, pedaço por pedaço, cortando o que interessa e elaborando notas mentais ou a lápis.

É dia de reencontrar os queridos no final da tarde, café, cinema, Original, os ombros que ajudam a gente a carregar o peso do mundo, os ouvidos que ouvem o útil, o fútil, o fundamental e o nem, as pernas que batem pela cidade, as mãos que ajudam a secar o choro e a enterrar os que nos deixam cedo demais, o braço que aperta, olho, boca, nariz, joelho, pescoço e cotovelo para tantos verbos quantos caibam na arte do diálogo.

É dia de ler o físico meio poeta, que defende que os cientistas podem provar com experiências as leis da natureza, podem mostrar como objetos em queda livre são acelerados em direção ao chão independentemente de suas massas, podem elaborar teorias que explicam a atração quase sobrenatural entre dois objetos, prever a chegada dos cometas, explicar as marés, entender o formato achatado da Terra, calcular a precessão dos equinócios e muito mais, mas não podem explicar o motivo das coisas, seus propósitos, as razões de elas acontecerem.

Domingo é dia de tanta coisa, celebrar o sol, música nova, música velha, comida de mãe, desenho animado, café, cinema, Original e os ombros que ajudam a gente a carregar o peso do mundo, jornal, cientista poeta, físico astrônomo escritor roteirista e talvez a graça da vida… É dia de tanta coisa que não dá pra entender porque quase todo mundo diz que fica entediado. Pra ser melhor, só faltava ter supermercado aberto.