quando um homem interrompe uma mulher

Há um movimento curioso no isolamento forçado pela escalada mundial do coronavírus. Como a maioria das conversas têm sido mediadas pela tecnologia, encontramos atrás da tela do celular, do computador ou do tablet o disfarce perfeito para este mal moderno, onipresente e onisciente, que é a nossa imensa dificuldade de ouvir o outro.

A saída da comentarista Gabriela Prioli do programa Grande Debate, da CNN brasileira, apenas 15 dias depois da estreia, evidenciou o quanto a falta de educação ainda impera no tête-à-tête. Falta de educação, no caso, temperada com generosa pitada de machismo. 

Mestre em direito penal pela Universidade de São Paulo e professora na pós-graduação da Universidade Mackenzie, Prioli ascendeu como flecha no recém-inaugurado canal de notícias. Mas, apesar das credenciais de respeito e da ótima desenvoltura diante das câmeras, a comentarista esbarrou no péssimo hábito dos parceiros de bancada de interromper suas falas, tantas vezes e de modo tão agressivo que ela preferiu pedir para sair.

A prática tem nome: manterrupting. Colagem das palavras homem + interrupção em inglês, a expressão é usada quando um homem interrompe uma mulher, num debate, em reuniões de trabalho, na mesa de bar, no ambiente acadêmico ou em conversas entre amigos, tentando desqualificar sua posição sem deixá-la nem mesmo completar o raciocínio.

Seu primo próximo é o mansplaining, quando um homem explica coisas óbvias para uma mulher, como se ela não fosse intelectualmente capaz de entender sem a ajuda masculina. 

O termo foi popularizado pela escritora norte-americana Rebecca Solnit em “Os Homens Explicam Tudo para Mim”, livro em que ela conta o caso do homem que tentou explicar PARA ELA o trabalho que ELA MESMA havia escrito. Parece piada, né? Não é.

sororidade e o que aprendi ao divulgar o trabalho de mulheres inspiradoras

Há uma máxima bastante conhecida segundo a qual devemos começar por nós mesmos a transformação que desejamos ver no mundo. Ano passado, nas bordas do Dia Internacional da Mulher, decidi começar por mim uma pequena mudança: fazer um exercício de sororidade e, ao longo de um mês, divulgar, propagar a elogiar nas minhas redes sociais o trabalho de mulheres inspiradas e inspiradoras.

Uma das eleitas no meu modesto empreendimento de comunicação era a cientista responsável pela criação de um robô cão-guia que alerta usuários cegos sobre a presença de obstáculos em ruas e calçadas. Outra dava aulas de ioga e meditação, como voluntária, para as detentas em uma penitenciária. 

Quatro delas faziam rap no majoritariamente masculino e machista mundo do hip hop, cantando desigualdades, resistência, respeito, violência, a vida na periferia e a força feminina. Outra incentivava a autoestima e o direito de escolha das mulheres em desenho feitos à mão, com lápis de cor e caneta nanquim sobre papel kraft. 

Uma defendia a construção de um modelo afetivo diante do fogão, recriando com ingredientes frescos o sabor, o aroma e a textura de pratos caros ao gosto comum. Outra transbordava força, fé e resistência, à frente de um grupo de quilombolas no interior do Espírito Santo. 

Uma atravessou as últimas quatro décadas com bravura, navegando tanto por épocas de ouro quanto por cenários de crise, para manter de pé uma galeria de arte. A outra, cadeirante desde os 20 anos de idade, tornou-se uma incansável divulgadora de questões ligadas à acessibilidade e à superação.

Pode parecer óbvio, mas a verdade é que, com raras exceções, fomos criadas para colaborar com os homens e competir com as mulheres. Demoramos para perceber que agindo assim reforçamos o machismo, nutrimos a desigualdade e enfraquecemos a nós mesmas. Ao divulgar durante um mês o trabalho de mulheres de dentro e fora do meu círculo de convivência, aprendi que sororidade não é apenas uma palavra da moda. Ela é, ou precisa ser, uma revolução feita de dentro para fora.

o discurso de joaquin phoenix

Os merecidos prêmios conquistados por Joaquin Phoenix por sua atuação no filme “Coringa” têm sido acompanhados de discursos vigorosos.

No Oscar, há alguns dias, o ator exaltou a possibilidade que ele e os colegas têm de usar a voz em favor dos que não têm voz. “Um dos maiores dons que eu recebi, e como muitos aqui neste recinto, é a oportunidade de dar voz aos que não podem falar. Acho que quando falamos sobre equidade de gênero, racismo, direitos LGBTQI+, direitos dos indígenas e direitos dos animais, nós estamos lutando contra injustiças. Estamos lutando com a crença de que uma nação, uma pessoa, um gênero uma espécie tem o direito de dominar, controlar e explorar os outros”, declarou.

Uma semana antes, no Bafta, seu discurso foi igualmente duro com a falta de representatividade na indústria do entretenimento: “Sinto-me honrado e privilegiado por estar aqui esta noite. Mas devo dizer que me sinto em conflito, porque muitos colegas atores que também merecem [o prêmio] não têm o mesmo privilégio. Lançamos uma mensagem muito clara às pessoas negras: que vocês não são bem-vindos aqui. Essa é a mensagem que estamos enviando às pessoas que tanto contribuíram para o nosso meio, fazendo coisas das quais nos beneficiamos”.

Na cerimônia de entrega do Globo de Ouro, que ele também venceu pelo papel do perturbado Arthur Fleck no filme de Todd Phillips, Phoenix teve partes de sua fala cortada, oficialmente por causa do excesso de palavrões, extraoficialmente pelo constrangimento embutido nas pesadas críticas que fez à indústria do cinema e a seus integrantes.

Numa histórica mea culpa, Phoenix destacou os privilégios que homens brancos como ele têm e elevou minorias que as premiações, lideradas pelo Oscar, insistem em ignorar, apesar de protestos como o #OscarSoWhite e o #MeToo, que tomaram as redes sociais pedindo representatividade e diversidade nas escolhas do prêmio.  

Desde a primeira edição do maior festa do cinema norte-americano, em 1929, por exemplo, apenas cinco diretoras receberam indicações: Lina Wertmüller (“Pasqualino Sete Belezas”, 1977), Jane Campion (“O Piano”, 1994), Sofia Coppola (“Encontros e Desencontros”, 2004), Kathryn Bigelow (“Guerra ao Terror”, 2010) e Greta Gerwig (“Lady Bird”, 2018). Kathryn Bigelow foi a única a vencer.

Em 2020, mais uma vez, o prêmio de Melhor Direção teve um total de zero mulheres.

Globo de Ouro e Bafta tampouco tiveram diretoras indicadas nesta edição. O cenário não é muito diferente para artistas negros. O discurso que Joaquin Phoenix levou aos palcos nos lembra de números desanimadores também neste aspecto: das pouco mais de 3.100 estatuetas entregues desde a primeira cerimônia do Oscar, apenas 44 foram para profissionais negros. São, apenas, 2% dos vencedores. 

privilégios

Em 2017, durante um encontro entre líderes de negócios, entretenimento, tecnologia e finanças, a escritora nigeriana Luvvie Ajayi propôs ao público um desafio surpreendente. A autora do best-seller I’m Judging You: The Do-Better Manual (ainda sem edição brasileira) convocou brancos, pretos, jovens, idosos, gays, transexuais, heterossexuais e pessoas com deficiência a subirem ao palco para formar uma linha, um com a mão no ombro do outro. 

Ajayi fez aos integrantes do grupo perguntas sobre facilidades e dificuldades encontradas ao longo da vida. Dependendo da resposta, eles eram orientados a dar um passo adiante ou atrás. No final da ação, alguns estavam bem à frente dos outros, distantes o bastante para não conseguirem mais manter um a mão no ombro do outro. 

A ideia era mostrar, na prática, como certos grupos têm privilégios por sua origem, cor da pele ou orientação sexual, e o quanto as diferenças os separam. Quanto mais à frente um deles estava, mais difícil se tornava ver e se comunicar com os outros. 

Privilégios são prerrogativas, permissões para executar determinadas atividades ou acessar áreas restritas, direito válido apenas para um indivíduo ou grupo. Alguns deles podem ser adquiridos pelo cargo no trabalho, pelas habilidades pessoais, por atributos físicos como força ou beleza, pelo esforço intelectual e por diversos outros caminhos. 

Outros não dependem da dedicação individual, mas da estrutura da sociedade e de suas relações de poder. Eram eles que a iniciativa de Luvvie Ajayi destacava: os privilégios que têm os brancos sobre os negros, os homens sobre as mulheres, os heterossexuais sobre a comunidade LGBTI+, os mais jovens sobre os mais velhos, aqueles sem impedimento físico sobre as pessoas com deficiência. 

O experimento da escritora nigeriana mostrou também que, entre os ocupantes das posições dianteiras, havia diferentes graus de clareza dos próprios privilégios. Os mais conscientes sabiam do poder de sua voz para reduzir o abismo que, por motivos alheios às vontades e aos esforços individuais, os separava dos outros. 

Em alguns, havia, ainda, a compreensão de que privilégios não são necessariamente uma ofensa, um palavrão, um xingamento. Ao contrário: eles podem ser um degrau, um sopro, um primeiro passo, para atuarmos em favor dos que ficaram atrás de nós.

palavras que deveríamos eliminar do vocabulário em 2020 [ou lista branca de palavras para jogar fora]

Certas palavras, expressões e frases feitas podem até parecer inofensivas à primeira vista, mas são exatamente o oposto. Popularizadas ao longo da História, elas escondem origens e visões racistas, homofóbicas e machistas, reforçando desequilíbrios e desigualdades. Por melhor que sejam as intenções de quem fala, o que os raivosos chamam de mimimi tem outro nome: preconceito. 

Então, deixo aqui um desafio de ano novo, pra mim, pra você, pra todos nós: o que acham de eliminarmos do nosso vocabulário palavras como DENEGRIR, expressões como LISTA NEGRA e frases feitas do tipo “não sou preconceituoso, até tenho um amigo gay” ou “ela devia ser muito bonita quando era magra” e sua variação “ela devia ser linda quando era mais jovem”?

Segundo o Aurélio (aliás, chamar dicionário de Pai dos Burros soa mal pra vocês também?), DENEGRIR significa tornar negro, escurecer. Portanto, ao associar alguém de reputação ruim a algo escuro, estamos sendo tão racistas quanto ao dizer LISTA NEGRA ou MERCADO NEGRO ao nos referirmos a um grupo indesejado ou a operações ilegais de compra e venda.

Dia de trabalho, responsabilidade e compromisso, ao contrário, é DIA DE BRANCO. INVEJA BRANCA também seria “do bem”: aquela que não faz tão mal quanto a “outra”. Filho da pá virada ganha fama de OVELHA NEGRA, porque, graças ao racismo estrutural que nos acompanha desde os tempos da escravidão, coisas proibidas, perigosas, mortais ou ilegais são negras como a peste (olha aí…). 

CABELO BOM é cabelo liso. Cacheados ou crespos são CABELO RUIM. “Mulher no volante perigo constante”, “não fale assim comigo porque eu não sou tuas negas”, “mulher tem que se dar ao respeito”, “essa é pra casar”, “pode ser gay, mas não precisa beijar em público”, “respeito sua OPÇÃO SEXUAL, mas não aceito”, “ele parece um homem normal, não acredito que seja gay”: são inúmeros os preconceitos impregnados no vocabulário nosso de cada dia, muitos deles despercebidos ou minimizados. 

Silenciosamente, eles contribuem para que a sociedade intolerante e preconceituosa em que vivemos continue exatamente do mesmo jeito: intolerante e preconceituosa. 

outras vozes, outros saberes

Leio a história da jovem de 18 anos, mãe de três filhos, presa por negligência porque, enquanto trabalhava como faxineira, o marido espancou uma das crianças até a morte. Uma história real e bem mais comum do que a gente imagina, que escancara a combinação perversa entre machismo, racismo e ineficiência das políticas públicas para problemas privados.

Mas por onde começar para acertar o passo? Como compreender que as consequências da falta de estrutura de uma família dessas é uma questão muito maior do que a casa deles? Como ultrapassar a visão de que aquela jovem poderia ter evitado chegar aos 18 anos com três filhos? Como sair do ciclo vicioso que nos leva a ver como vilã uma mulher nessas condições?

Poucos dias atrás, falávamos aqui sobre a ideia de que apenas o respeito à diversidade e uma profunda conexão com a natureza podem trazer um novo significado à vida moderna. A sugestão  está no maravilhoso livrinho Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak, líder indígena para quem a saída da humanidade passa pelo reordenamento dos espaços, pelo respeito às diferenças, por novos modos de relacionamento com a terra e por outro tipo de compreensão sobre as coisas que realmente importam.

Desprezar a pluralidade das formas de existência, ao contrário, torna mais longa e mais difícil a estrada para a recuperação da humanidade que ficou pelo caminho. Afinal, como sustentar que somos humanos diante da escalada da intolerância, do extremismo e da desigualdade que têm marcado o nosso tempo?

Fazer as coisas de outro modo para obter resultados diferentes é o que nos ensina a velha máxima comumente atribuída a Albert Einstein. 

Ouvir outras vozes, buscar soluções em lugares tradicionalmente colocados à margem, entender outras práticas e outros saberes, estreitar o diálogo com o que nos é estranho e distante: quem sabe desta maneira seja possível reescrever estruturas econômicas, rever relações sociais, restabelecer a ética no fazer político, acreditar novamente na ação coletiva.

Taí um desafio interessante.

diversidade, empatia e inclusão como estratégia anti-abismo

O ano de 2019 não foi dos mais fáceis. O Brasil retrocedeu em setores sensíveis como o combate à pobreza e a proteção ao meio ambiente. Muitos preconceitos saíram do armário. O cerco cada vez mais fechado para as diferenças matou uma mulher a cada quatro horas, um LGBTQ+ a cada 23 horas, jovens que se divertiam na periferia, índios que defendiam sua terra e muitos outros que viviam à margem neste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas ainda extremamente desigual.

Para alívio de quem acredita na diversidade, na empatia e na inclusão como estratégia anti-abismo, no entanto, 2019 deixa lições preciosas e boas perspectivas.

Afinal, poucas vezes na História se falou tanto sobre os ganhos de sermos plurais. A compreensão de que representatividade importa tem se mostrado cada vez maior e as estratégias ligadas à diversidade já começam a apresentar resultados concretos, mesmo nos ambientes corporativos e mais conservadores.

De acordo com relatório da consultoria Mckinsey, especializada no universo corporativo, o potencial de aumento no faturamento é 15% maior em empresas com mulheres em cargos de liderança e 33% superior com relação à diversidade étnica.

Segundo a mesma McKinsey, empresas públicas com conselhos executivos diversos têm um retorno sobre o patrimônio 95% maior do que aquelas com conselhos homogêneos. Já organizações inclusivas têm 1,7 vezes mais chances de serem líderes em inovação em seus respectivos mercados.

Inovação e criatividade andam par e passo com ambientes plurais e inclusivos. Olhares variados tendem a trazer novas soluções para antigos problemas. Diversidade também pressupõe doses extras de empatia, porque o ouvido apurado e a capacidade de dialogar facilitam e estimulam o sucesso de atividades e processos feitos por colaboradores diferentes.

Gêneros, idades, religiões, deficiências, etnias, origens culturais, orientações sexuais e classes sociais: em 2020, nada deve se impor ao encontro dos diversos. Os desafios ainda são imensos, mas, ao que tudo indica, terão campo fértil no ano que começa. Até lá!

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 28 de dezembro de 2019.

leitura para adiar o fim do mundo

Na margem esquerda do Rio Doce, em Minas Gerais, vivem os índios Krenak, uma tribo que luta para sobreviver desde a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500. Na margem direita há uma serra chamada Takukrak. De manhã, só de olhar em sua direção, dá para saber se o dia vai ser bom ou se é melhor ficar quieto: ou a montanha amanhece com cara de quem não está para conversa ou acorda esplêndida, indicando que os vizinhos podem fazer festa, dançar, pescar, o que quiserem.

A história da montanha com personalidade própria é contada por Ailton Krenak no livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, uma pequena e potente defesa de que apenas a diversidade e uma profunda conexão com a natureza podem trazer um novo significado à existência e salvar a humanidade do abismo.

Krenak é o líder indígena que, em 1987, na Assembleia Constituinte, pintou o rosto com a tinta preta do jenipapo para protestar contra retrocessos na luta dos povos primitivos do Brasil. Seu gesto foi um dos pontos altos da campanha de mais de 300 etnias pelo direito de existir e influenciou a inclusão de um capítulo na Constituição sobre os direitos dos índios.

Para ele, naquela época como agora, a distância entre os homens e a natureza nega a pluralidade das formas de existência. O caminho contrário passa pelo reordenamento dos espaços, pelo respeito às diferenças, por novos modos de relacionamento com a terra e por outro tipo de compreensão sobre as coisas que realmente importam.

Afinal, como sustentar a ideia de humanidade diante da violência de colonizadores contra nativos, de uma certa verdade única (ou concepção de verdade) contra qualquer divergência? Como justificar que somos um só povo diante de tantos homens e mulheres sem os acessos mínimos para o exercício de ser? Como bancar a ideia de que somos humanos diante da intolerância que tem dado as cartas?

O nosso tempo produz ausências no sentido de viver em sociedade e no próprio sentido da experiência da vida, Krenak nos diz. As faltas, ele defende, geram uma enorme intolerância com relação a quem ainda é capaz de experimentar – palavras do pensador indígena – o prazer de estar vivo, de dançar e de cantar.

Seres que cantam, que dançam e que têm a visão mágica do mundo, por sua vez, alimentam nossa esperança, ele prossegue. Adiar o fim do mundo, o sábio índio escreve, é exatamente para podermos contar e ouvir mais uma história.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 21 de dezembro de 2019.

pra que discutir com madame?

Foto: Lalo de Almeida/UOL
Noventa anos e mais de 400 quilômetros separam o Rio de Janeiro nos anos 1930 da Paraisópolis neste difícil 2019. Mas, apesar do tempo e da distância geográfica entre a boemia carioca e a segunda maior favela de São Paulo, uma coisa não mudou: a forma como certas manifestações culturais no espaço público são, com frequência assustadora, maltratadas pela polícia. 

Parece piada, mas não é. Nos primórdios do samba, um sujeito que andasse pela rua com um pandeiro na mão corria o sério risco de ir para a cadeia. Parece mentira, mas também não é. Quase um século depois, frequentadores de festas de periferia são criminalizados, encurralados, pisoteados e mortos porque paira no ar a ideia de que, ali, todos são culpados até que se prove o contrário.

O que se diz, para justificar a violência com que os bailes são tratados: que eles são 100% feitos de drogas, menores bêbados, sexo desenfreado e outros comportamentos considerados inaceitáveis pelas autoridades e pela população que elas representam.

O que NÃO se diz: que, na maioria absoluta das vezes, os bailes ao ar livre são a única opção de lazer de comunidades inteiras e que  movimentam a frágil economia local.

Depois de anos de resistência, o “sambista vagabundo” sai de cena, de certo modo assimilado pelos costumes e pelos representantes da ordem. Em seu lugar entra o “funkeiro marginal”, como se estudantes e trabalhadores em sua busca legítima por diversão não fossem a maioria entre as quatro, cinco mil pessoas de um evento feito de forma autônoma nas comunidades da margem.

O saldo desigual e desolador se traduz em números como os registrados em Paraisópolis: 12 feridos e nove mortos, engrossando a taxa de homicídios de negros com idade entre 15 e 29 anos, que é três vezes maior que a de brancos, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

O mesmo Brasil que produz sua identidade e alimenta sua diversidade com enorme contribuição das periferias oprime manifestações que escapem da caixinha por puro preconceito. O racismo é histórico. Muda o ritmo, a repressão continua.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 14 de dezembro de 2019.

o afeto é revolucionário

Certas obras de arte são capazes de aquecer os dias em que faz frio dentro de nós. AmarElo, o novo disco de Emicida, é assim: uma sequência de rimas preciosas sobre a solidariedade, a delicadeza em meio a um mar de durezas e a força do amor.

O álbum promove um encontro de diferenças, exalta a empatia, aplaude a camaradagem, aposta na inclusão e celebra o poder da diversidade.

O recado estava dado desde o lançamento do videoclipe que dá nome ao disco, quatro meses antes. No vídeo, Emicida divide as trincheiras, os vocais e a cena com as cantoras Pabllo Vittar e Majur. Nas vielas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, eles jogam luzes sobre a depressão na periferia e transformam em rap uma das mais melancólicas canções de Belchior, “Sujeito de Sorte”, de 1976.

Não é pouca coisa. Um artista negro, nascido nas quebradas da cidade de São Paulo, uma drag queen saída de São Luís do Maranhão e um gay negro, nordestino e transgênero recitando um cearense maldito numa das áreas mais violentas do Rio de Janeiro deixam claro que AmarElo não está para brincadeiras.

Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro…

Seu discurso é o do afeto, mas carrega também o peso das estatísticas de um Brasil desigual e cruel. Um Brasil onde, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto, somando 63 por dia, 23 mil por ano. Um Brasil que registra uma morte por homofobia a cada 16 horas, 552 pessoas LGBTQI+ assassinadas por ano em razão de sua orientação sexual. Um Brasil que pouco fala sobre depressão e suicídio nas áreas mais pobres e entre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, queers, intersexuais, assexuais e pansexuais.

Elos, laços, conexões: é sobre eles que AmarElo trata. O nome vem do antológico poema de Paulo Leminski (“amar é um elo | entre o azul e o amarelo”). Amar, o músico defende, é a forma mais revolucionária e instantânea de conectar as pessoas. Sentir e falar de afetos, podemos concluir, não deixa de ser um belo modo de resistência.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 7 de dezembro de 2019.