desapego

Chega a ser irônico que a mesma temporada em que uns compram enlouquecidamente inspire outros a jogar fora, doar, vender pro sebo, colocar em exposição no bazar do final da rua. É tarefa para várias noites: diminuir a pilha de livros à espera das traças, de vestidos que há algum tempo deixaram de cair bem, de panelas e garfos e facas que não servem, de rancores, lembranças e histórias que o coração não quer e o estômago não aguenta.

Estou dentro.

Olho, por exemplo, o vestido marrom de uns três ou quatro invernos atrás. O corte é elegante, tecido de primeira, figuras geométricas em preto espalhadas por toda a sua extensão, viés na cintura, zíper nas costas, destaque para o espaço originalmente destinado ao balanço das cadeiras e algumas memórias guardadas nele, uma noite, uma companhia, um presente delicado, uma cidade inteira e uma certeza: dificilmente vou caber outra vez ali dentro.

[Que dó].

Olho então as estantes do quarto dos livros, arrumadinhas [ou semi]. Os de jornalismo vivem numa prateleira, os romances na outra, os latinos em uma, os sobre música em outra. As aquisições recentes à espera de tempo e dedicação estão em uma, as revistas e jornais em outra, em ordens diversas que estabeleço vai saber como [a gente se entende], as caixas de lápis, canetas e post-its, tesoura, cola, caderno [adoro], telefone, caixa de som, fotografias, aquilo tudo, em contante construção.

Olho os discos que há algum tempo não compramos mais e as exceções – o Chico novo, o Moska duplo, a Tulipa porque isso é o que o amor faz, o Jeneci e ainda um pouco do novo samba que se faz por aí, porque a vida [lembra?] é pra se levar como o Geraldo, o Angenor, o Nelson, o Heitor, o João, o Noel, o Baden, a Ivone, o Jorge, a Clementina, o Adoniran e o Alfredo ensinaram, cobertos de razão e ainda hoje, que era para levar.

Olho para trás, exatamente como a época inspira: escolha, decisão, definição, mudança, aprendizado, felicidade, madrugada, promessa, caminho; um ano bom apesar das faltas que cheiram à indiferença e dos desapontamentos que parecem movidos pela pura vaidade; um ano bom, apesar dos deslizes, dos arroubos, das deslealdades; um ano bom, apesar dos pesares.

Chega a ser irônico que a mesma temporada em que uns compram enlouquecidamente inspire outros ao desapego, ao árduo trabalho de deixar o superficial para cada vez mais abrir espaço ao fundamental, escolher, organizar, descartar, mudar. É difícil, mas funciona. O planeta agradece. A alergia, a faxineira, os desabrigados pela chuva e as amigas magras que cabem no vestido marrom também.

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céus

Dizem que o céu dos que acreditam é azul. Lá, segundo os livros sagrados, há muitas moradas, coisas que os olhos não viram e os ouvidos não ouviram, silêncio por quase meia hora depois de aberto o sétimo selo e todo o repouso do mundo. Dizem também do céu dos que acreditam que ele não é pra todos. Só os virtuosos, os bem aventurados e os arrependidos de todo o coração podem entrar, e apenas depois de um processo longo de reflexão, purificação e autopunição, não necessariamente nessa ordem.

Dizem ainda que os apegados vão para um céu diferente dos desapegados, aqueles – bendito sejam – capazes de viver segundo os princípios da leveza, alheios aos preconceitos que envenenam o mundo, longe dos desafetos que envenenam o corpo, distantes do excesso de razão que envenena o espírito, livres da necessidade de estar perto de pessoas e de coisas, livres como aquela tarde, livres como no poema da palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique nem ninguém que não entenda.

Daí imagino: Chet Baker, Frank Sinatra, John Coltrane e Nina Simone tocam no céu dos desapegados, nos dias de festa tem samba rock, samba de raiz e às vezes silêncio, diariamente, sem hora marcada, mas provavelmente de madrugada, eles cultuam o momento e as ausências, com absoluta devoção. Quase não comem e choram ao ouvir a quinta sinfonia, exaustivamente reescrita por Beethoven, liberdade, igualdade e fraternidade em dó menor, tensão, solenidade, o terceiro movimento e o gran finale, irretocável.

[Parece bom].

Mas também imagino que o céu dos apegados deve ser divertido, do mesmo modo ou quase. É ainda um céu, afinal, destinado aos que viveram com polidez, fidelidade, prudência, temperança, coragem, justiça, generosidade, compaixão, misericórdia, gratidão, humildade, simplicidade, tolerância, pureza, doçura, boa-fé, humor e amor, mas tiveram, apesar das virtudes do Pequeno Tratado do filósofo francês, um bocado de necessidade, necessidade de presenças e palavras, necessidade de discos e papéis, de abraço apertado, satisfações constantes e encontro sempre que possível.

Daí imagino, com alguma ajuda: no céu dos apegados tem bichos de estimação, plantas e chocolate alpino pra comer em prestações. Tem esmalte pra pintar as unhas – Tomate pros dias de animação, Misturinha ou Renda pros ao contrário – e dias de sol. Tem um pouco de tudo, um monte de nada e, às vezes, personagem de novela mexicana. Tem música, suco de pêssego com tangerina e algum ciúme – afinal, são apegados, fazer o quê?

sobre o desapego

Um dia descobri que a palavra ingênuo vem do latim e designa, antes de mais nada, aquele que nasceu sem servidão ou escravidão. Sem apego. Talvez por isso algumas ingenuidades me comovam tanto, como as dos que são livres dos preconceitos que nos fazem ver mais do que há, livres dos desafetos que envenenam o corpo e o resto, livres do excesso de razão que atrapalha a visão e os outros sentidos, livres como no poema, livres.

“Liberdade
Palavra que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique
Nem ninguém que não entenda”
(Cecília Meireles)