o discurso de joaquin phoenix

Os merecidos prêmios conquistados por Joaquin Phoenix por sua atuação no filme “Coringa” têm sido acompanhados de discursos vigorosos.

No Oscar, há alguns dias, o ator exaltou a possibilidade que ele e os colegas têm de usar a voz em favor dos que não têm voz. “Um dos maiores dons que eu recebi, e como muitos aqui neste recinto, é a oportunidade de dar voz aos que não podem falar. Acho que quando falamos sobre equidade de gênero, racismo, direitos LGBTQI+, direitos dos indígenas e direitos dos animais, nós estamos lutando contra injustiças. Estamos lutando com a crença de que uma nação, uma pessoa, um gênero uma espécie tem o direito de dominar, controlar e explorar os outros”, declarou.

Uma semana antes, no Bafta, seu discurso foi igualmente duro com a falta de representatividade na indústria do entretenimento: “Sinto-me honrado e privilegiado por estar aqui esta noite. Mas devo dizer que me sinto em conflito, porque muitos colegas atores que também merecem [o prêmio] não têm o mesmo privilégio. Lançamos uma mensagem muito clara às pessoas negras: que vocês não são bem-vindos aqui. Essa é a mensagem que estamos enviando às pessoas que tanto contribuíram para o nosso meio, fazendo coisas das quais nos beneficiamos”.

Na cerimônia de entrega do Globo de Ouro, que ele também venceu pelo papel do perturbado Arthur Fleck no filme de Todd Phillips, Phoenix teve partes de sua fala cortada, oficialmente por causa do excesso de palavrões, extraoficialmente pelo constrangimento embutido nas pesadas críticas que fez à indústria do cinema e a seus integrantes.

Numa histórica mea culpa, Phoenix destacou os privilégios que homens brancos como ele têm e elevou minorias que as premiações, lideradas pelo Oscar, insistem em ignorar, apesar de protestos como o #OscarSoWhite e o #MeToo, que tomaram as redes sociais pedindo representatividade e diversidade nas escolhas do prêmio.  

Desde a primeira edição do maior festa do cinema norte-americano, em 1929, por exemplo, apenas cinco diretoras receberam indicações: Lina Wertmüller (“Pasqualino Sete Belezas”, 1977), Jane Campion (“O Piano”, 1994), Sofia Coppola (“Encontros e Desencontros”, 2004), Kathryn Bigelow (“Guerra ao Terror”, 2010) e Greta Gerwig (“Lady Bird”, 2018). Kathryn Bigelow foi a única a vencer.

Em 2020, mais uma vez, o prêmio de Melhor Direção teve um total de zero mulheres.

Globo de Ouro e Bafta tampouco tiveram diretoras indicadas nesta edição. O cenário não é muito diferente para artistas negros. O discurso que Joaquin Phoenix levou aos palcos nos lembra de números desanimadores também neste aspecto: das pouco mais de 3.100 estatuetas entregues desde a primeira cerimônia do Oscar, apenas 44 foram para profissionais negros. São, apenas, 2% dos vencedores. 

do que eu falo quando eu falo de minorias

Outro dia falávamos do desafio proposto pela escritora nigeriana Luvvie Ajayi para mostrar como certos grupos têm privilégios por sua origem, cor da pele ou orientação sexual, e o quanto as diferenças os distanciam dos outros. 

Ajayi propôs uma atividade aos participantes de uma palestra, fazendo perguntas sobre facilidades e dificuldades encontradas por eles ao longo da vida. Dependendo da resposta, os integrantes eram orientados a dar um passo adiante ou atrás. No final da ação, alguns estavam bem à frente dos outros, distantes o bastante para não conseguirem mais se comunicar. 

A ideia era mostrar como negros, mulheres, homossexuais e pessoas com deficiência, por exemplo, ficam para trás por causa da cor da pele, do gênero, da orientação sexual ou de impedimentos físicos. 

De quebra, o que se viu é que homens (e só depois as mulheres) brancos (e só depois os negros) heterossexuais (e só depois os LGBTI+) sem deficiência física (e só depois as pessoas com deficiência) haviam sido, de algum modo, privilegiados em muitos momentos de suas caminhadas simplesmente por terem nascido como e onde nasceram. 

Os outros, ao contrário, engrossavam as fileiras das minorias, mesmo que em grande número.

Não deveria ser de se estranhar, portanto, quando alguém defende que minorias não necessariamente estão em menor número numa comunidade. Embora o significado oficial da palavra seja “condição do que é numericamente inferior a outro”, quando falamos de grupos minoritários num determinado contexto ou sociedade estamos nos referindo não à quantidade de integrantes, mas a uma situação de desvantagem ou dependência social. 

O conceito não guarda um consenso absoluto, nem caberia num artigo modesto como este. Mas, em resumo, a partir desse ponto de vista, são as relações de dominação e privilégio que definem quem é minoria. Elas também, e cada vez mais, reforçam a urgência em proteger os diferentes, a importância de fortalecer a empatia e a necessidade de estimular a diversidade. 

privilégios

Em 2017, durante um encontro entre líderes de negócios, entretenimento, tecnologia e finanças, a escritora nigeriana Luvvie Ajayi propôs ao público um desafio surpreendente. A autora do best-seller I’m Judging You: The Do-Better Manual (ainda sem edição brasileira) convocou brancos, pretos, jovens, idosos, gays, transexuais, heterossexuais e pessoas com deficiência a subirem ao palco para formar uma linha, um com a mão no ombro do outro. 

Ajayi fez aos integrantes do grupo perguntas sobre facilidades e dificuldades encontradas ao longo da vida. Dependendo da resposta, eles eram orientados a dar um passo adiante ou atrás. No final da ação, alguns estavam bem à frente dos outros, distantes o bastante para não conseguirem mais manter um a mão no ombro do outro. 

A ideia era mostrar, na prática, como certos grupos têm privilégios por sua origem, cor da pele ou orientação sexual, e o quanto as diferenças os separam. Quanto mais à frente um deles estava, mais difícil se tornava ver e se comunicar com os outros. 

Privilégios são prerrogativas, permissões para executar determinadas atividades ou acessar áreas restritas, direito válido apenas para um indivíduo ou grupo. Alguns deles podem ser adquiridos pelo cargo no trabalho, pelas habilidades pessoais, por atributos físicos como força ou beleza, pelo esforço intelectual e por diversos outros caminhos. 

Outros não dependem da dedicação individual, mas da estrutura da sociedade e de suas relações de poder. Eram eles que a iniciativa de Luvvie Ajayi destacava: os privilégios que têm os brancos sobre os negros, os homens sobre as mulheres, os heterossexuais sobre a comunidade LGBTI+, os mais jovens sobre os mais velhos, aqueles sem impedimento físico sobre as pessoas com deficiência. 

O experimento da escritora nigeriana mostrou também que, entre os ocupantes das posições dianteiras, havia diferentes graus de clareza dos próprios privilégios. Os mais conscientes sabiam do poder de sua voz para reduzir o abismo que, por motivos alheios às vontades e aos esforços individuais, os separava dos outros. 

Em alguns, havia, ainda, a compreensão de que privilégios não são necessariamente uma ofensa, um palavrão, um xingamento. Ao contrário: eles podem ser um degrau, um sopro, um primeiro passo, para atuarmos em favor dos que ficaram atrás de nós.

escreva como uma garota

O Enem tem sido um campo fértil em polêmicas e equívocos. Mas há um dado que merece ser destacado no mar de “inconsistências” em torno do Exame Nacional do Ensino Médio: mulheres escrevem a maioria das redações com nota máxima na prova aplicada nos quatro cantos do Brasil.

Segundo dados do Inep, órgão do Ministério da Educação responsável pelo exame, 60% dos textos considerados perfeitos em 2019 são de autoria feminina. Em 2018, o índice chegou a 76,4%. No total, 3,6 milhões de redações foram corrigidas na última edição. Apenas 53 obtiveram a pontuação máxima, 32 delas escritas por mulheres.

É verdade que o número de sucesso acompanha a supremacia feminina no total de inscritos – entre os mais de 5 milhões de concorrentes, 59,5% são mulheres. Mas é verdade também que o grau obtido pelas alunas nos últimos dois anos tem ligação estreita com o aumento da presença de mulheres em posições de liderança, sua crescente participação nos meios acadêmicos e a ampliação dos debates a respeito da igualdade, da equidade e da diversidade.

O conhecimento move muitas de nós, e move também a conquista de espaço. Entre 2013 e 2017, as buscas no Google pela expressão “desigualdade de gênero no mercado de trabalho” cresceram 451%. No mesmo período, a procura por “mulher ganha menos” aumentou 298%. A combinação “empoderamento feminino” foi quatro vezes mais buscada em 2017 do que em 2012. Em cinco anos, a procura por “empoderamento feminino no mercado de trabalho” ultrapassou os 459 mil resultados.

As informações são do Think with Google, uma ferramenta do gigante mundial de buscas que fornece dados sobre o mercado, tendências de consumo e outros temas.

O que elas sugerem: que, apesar do longo caminho a ser trilhado em direção ao equilíbrio entre os gêneros, há cada dia mais gente interessada no tema. Há cada vez mais gente dedicada a reduzir o abismo que ainda separa homens e mulheres e cada vez mais gente – homens, inclusive – conscientes de que a igualdade de direitos não rouba a brisa de ninguém, apenas compartilha seus benefícios entre todos.

diversidade, empatia e inclusão como estratégia anti-abismo

O ano de 2019 não foi dos mais fáceis. O Brasil retrocedeu em setores sensíveis como o combate à pobreza e a proteção ao meio ambiente. Muitos preconceitos saíram do armário. O cerco cada vez mais fechado para as diferenças matou uma mulher a cada quatro horas, um LGBTQ+ a cada 23 horas, jovens que se divertiam na periferia, índios que defendiam sua terra e muitos outros que viviam à margem neste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas ainda extremamente desigual.

Para alívio de quem acredita na diversidade, na empatia e na inclusão como estratégia anti-abismo, no entanto, 2019 deixa lições preciosas e boas perspectivas.

Afinal, poucas vezes na História se falou tanto sobre os ganhos de sermos plurais. A compreensão de que representatividade importa tem se mostrado cada vez maior e as estratégias ligadas à diversidade já começam a apresentar resultados concretos, mesmo nos ambientes corporativos e mais conservadores.

De acordo com relatório da consultoria Mckinsey, especializada no universo corporativo, o potencial de aumento no faturamento é 15% maior em empresas com mulheres em cargos de liderança e 33% superior com relação à diversidade étnica.

Segundo a mesma McKinsey, empresas públicas com conselhos executivos diversos têm um retorno sobre o patrimônio 95% maior do que aquelas com conselhos homogêneos. Já organizações inclusivas têm 1,7 vezes mais chances de serem líderes em inovação em seus respectivos mercados.

Inovação e criatividade andam par e passo com ambientes plurais e inclusivos. Olhares variados tendem a trazer novas soluções para antigos problemas. Diversidade também pressupõe doses extras de empatia, porque o ouvido apurado e a capacidade de dialogar facilitam e estimulam o sucesso de atividades e processos feitos por colaboradores diferentes.

Gêneros, idades, religiões, deficiências, etnias, origens culturais, orientações sexuais e classes sociais: em 2020, nada deve se impor ao encontro dos diversos. Os desafios ainda são imensos, mas, ao que tudo indica, terão campo fértil no ano que começa. Até lá!

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 28 de dezembro de 2019.