todo sentimento por aí

O negócio é o seguinte: 30 exemplares do meu livro de crônicas Todo Sentimento estão sendo colocados por 30 pessoas em lugares públicos de 10 cidades do Brasil. Cada exemplar tem um pequeno cartão de instruções, que sugerem que quem encontrar o livro escolha um texto, faça as anotações que quiser e, novamente, deixe o volume em um local público. É pra espalhar tá? Aqui tem detalhes.

sobre o coração e coisas do tipo

Tem dias em que a gente olha em volta e o mundo inteiro parece estar com o coração partido. O assunto das madrugadas são as ausências e as saudades, as madrugadas em si são feitas igual, de vazios e faltas, o músico canta o ponto final dele sob a ótica um pouco do querer e outro pouco [ou então muito] do pensar. A menina que sempre ri chora a sua perda e a vizinha aumenta o som quando a Maria da Graça canta aquela canção lindíssima do Lupicínio, noites durmo cama sentir explicar quando ama calor cobertas aquece direito mundo frio braço volta, pois o corpo está acostumado.

O olho vê as coisas mais cinzas [porque a ciência diz que a tristeza dilui o contraste entre o preto e o branco e muda o modo como funcionam as células que transformam os sinais luminosos em impulsos enviados ao cérebro]. A testa franze com mais frequência, a boca diz coisas mais amargas, o ouvido escuta as notas mais agudas. As escolhas se tornam pesadas, penosas, inconsistentes, marcadas pela fragilidade daquele músculo involuntário que mora entre os pulmões e bate também no peito dos anelídeos, dos artrópodes, dos moluscos, dos cordados e dos desafinados.

Está escrito: o coração é um órgão oco que bombeia o sangue de forma que circule pelo corpo todo, um percurso que, nos seres humanos, demora cerca de 50 segundos em repouso. Durante este tempo, impulsiona sangue suficiente a uma pressão razoável para percorrer braço, boca, nariz, peito, batatas da perna, cérebro, mão, joelho, o cantinho da unha [ai], fígado, estômago, tudo, ida e volta transportando o oxigênio e os nutrientes necessários às células que sustentam as atividades do organismo.

Está implícito: o coração é um órgão cheio que sustenta ações e reações, opções e decisões, caminhos e desvios, um hábito que, nos seres humanos, dura cerca de uma vida inteira. Durante este tempo, determina escolhas, seleciona encontros, recorta sentimentos, amor, amigo, desgosto, expectativa, espera, insistências, desistências, reticências ou o que for, feliz ou nem, inesquecível ou aquele abril inteiro que era melhor apagar, chegadas e partidas alimentando o movimento que sustenta as atividades do espírito.

Daí, um pouco por causa do escrito e outro tanto por causa do implícito, o coração se dedica diariamente à árdua tarefa de cuidar da circulação do sangue e dos afetos, um dia sendo um pote até aqui de mágoa [qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água] e no outro sendo como na outra canção, aquela da propaganda [o meu eu sei porquê bate feliz; e o seu?], um dia devotado às atividades aeróbicas, pedala, corre, nada, caminha, respira, e no outro descansando de leve, como o do Milson, repaginado.

Convenhamos: é uma baita responsabilidade, mas uma obrigação bonita que a gente precisa cumprir, dentro do possível, até nos dias em que olha em volta e é isso aí.