das voltas que a vida dá

A vida dá voltas do jeito mais doido possível. Basta uma decisão errada e – catapluft! – as coisas saem do lugar de um modo que parece que nunca mais vão voltar para o endereço de origem.

No fundo a gente sabe que um dia tudo se ajeita, mas na hora, na hora, não. Na hora, o buraco esfrega seu tamanho na cara da gente de uma maneira tão vigorosa que falta tudo: chão, esperança, equilíbrio, tudo, até o ar.

A gente só respira porque sabe que precisa, como aprendeu, por puro instinto de sobrevivência, desde mais ou menos a décima oitava semana da existência. Respira e vai, colecionando dias e respectivas noites como Florentino Ariza em sua longa espera por Fermina Daza – cinquenta e três anos, sete meses e onze dias, para ser exato como o grande Gabito em sua inesquecível saga de encontros, desencontros e reencontros.

De repente, uma ou outra inspiração acenam de longe, depois se achegam um pouquinho mais. A respiração fica ligeiramente mais leve, o buraco aparenta ser algum tanto menor. Um pé depois do outro, a gente levanta e anda, como na canção: sonhar, seguir.

🎶 [Eu sei, cansa].

Um pé depois do outro, levantar, andar, sonhar, seguir, como na canção, a gente reaprende que a vida dá voltas e, de repente – catapluft! – as coisas se ajeitam e tornam a ocupar seu lugar de modo que parece que sempre estiveram ali. A vida dá voltas do jeito mais doido possível.

pequena crônica sobre toda gente

Gente do mal atrapalha os planos da gente, altera a nossa rota, bagunça os nossos afetos, põe em xeque o gosto por coisas que, em outros tempos, tinham sabor de bolo quentinho de chocolate. Gente do mal desnorteia a inspiração da gente, aniquila a nossa fé no movimento, abala a esperança que temos em dias melhores e madrugadas.

Gente do mal transforma o riso em pontas cobertas de poeira e ferrugem, detona o equilíbrio que vai dentro, bloqueia a energia que corre nas veias. Gente do mal é capaz de jogar projetos, anseios e desejos de uma vida inteira num buraco escuro e fundo. Gente do mal não leva em conta a dedicação, despreza o esforço e tem pouquíssima consideração com o trabalho e a história da gente. Gente do mal finge que se importa, mas ai ai ai. Gente do mal um dia morre na gente.

Às vezes até as nossas pacientes economias entram na roda torta dessa gente maldosa que, vez ou outra, esbarra no caminho da gente. Gente do mal não tem freio, simplesmente.

Graças aos deuses e deusas, gente do bem é justo o oposto. Gente do bem não rouba da gente – nem tempo nem dinheiro nem a fé no movimento nem a esperança em dias melhores. Gente do bem não finge afeição, não estimula a desavença, não alimenta a discórdia nem solta da mão da gente.

Gente do bem ajuda a gente a lembrar de onde veio e contribui na construção de endereços, sequências e desfechos, nos consertos e nos recomeços. Gente do bem diz o que é preciso dizer, a despeito da timidez, do embaraço ou de possíveis constrangimentos. Gente do bem vibra com a alegria da gente.

Às vezes até as nossas causas mais secretas entram na pauta dessa gente amável que, vez ou outra, esbarra no caminho da gente. Gente do bem colore a estrada da gente e valoriza cada segundo de dedicação e lealdade. Gente do bem é como na canção.

[Quando os teus olhos cansarem dos meus olhos, não é preciso haver falsidade entre nós].

Graças aos deuses e deusas, gente do bem combate a violência com argumento, verdade e brandura. Gente do bem salva dias, noites e madrugadas de falta de sentido, dias, noites e madrugadas em que a maldade alheia bate na porta da gente, dias, noites e madrugadas de injustiça, desequilíbrio ou uma ausência daquelas.

Gente do bem mora de pantufas no coração da gente.

agradecer

Alguém já disse, com toda razão, que a gratidão transforma o caos em ordem, a negação em aceitação, a confusão em clareza. O oposto é um perigo. Quando estamos tomados de insatisfação, sentimos que nossas escolhas não acrescentam, nossos empregos não satisfazem, nossas roupas não cabem, nossa casa não acolhe, o sal não tempera, os amigos não ligam ou então são outros os desagrados.

Em meio ao turbilhão de faltas, esquecemos dos braços, pernas, pés e mãos que funcionam bem, do teto que nos acolhe, da possibilidade de enxergar, das pequenas vitórias, das canções e dos afetos, de gente próxima com quem realmente podemos contar, do amor em estado puro a despeito das dificuldades. Em meio ao turbilhão de faltas, esquecemos do que nos é essencial e que nos serve, bem ou mal, dia e noite, faça chuva ou faça sol.

[O essencial é entender o que nos move, estar próximo do que nos emociona, investir no que importa e dispensar o resto. O essencial é aquela história: escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Não deve ter sido coincidência. Às vésperas do Natal, uma época em que tradicionalmente somos [ou deveríamos ser] tomados pelo hábito de dizer obrigado, fui internada às pressas para uma cirurgia de emergência na vesícula. A dor era imensa, a maior que lembro ter sentido. A operação não foi das mais simples, mas saí de lá quase inteira.

Dois dias depois, recebi alta e, apesar da recuperação dolorida e do susto, por todo o lado havia motivos para dizer obrigado. Eu estava viva, antes de mais nada. Caminhava com dificuldade, mas caminhava. A família inteira estava sintonizada, os de perto e os de longe, e as alianças permaneciam firmes e fortes. Felizmente tínhamos condições de comprar os medicamentos prescritos pelo médico, a dieta completa, o conforto todo.

Quando fomos para casa, Melodia esperava na porta. Os enormes olhos amarelos do meu gato de estimação contrastavam com seu pêlo preto brilhante. O balanço do rabo indicava felicidade. Os discos acumulados ao longo da caminhada e os livros cuidadosamente enfileirados nas prateleiras estavam exatamente do jeito que eu havia deixado.

Era bom voltar.

Quando olhei em torno, lembrei daqueles dias em que tradicionalmente somos [ou deveríamos ser] tomados pelo hábito de agradecer, apesar de todo o peso que o ano acumula. Dezembro havia começado com chuva. Meu estado de espírito não andava muito diferente. Eu precisava serenar a pele, organizar a casa e, mais urgente que tudo, cuidar para que meus pensamentos voltassem a ser leves. O coração batia pesado. Apesar disso, eu sabia: precisava pensar profundamente no lado bom da vida.

O tempo, uma vez mais, desempenhava com maestria seu papel de santo remédio, e eu não tinha escolha mais indicada a fazer do que simplesmente agradecer.

carta para quando felipe souber ler

Querido afilhado,

Este ano infelizmente não pude comprar um presente para o seu aniversário. As coisas estão ligeiramente difíceis – você vai entender quando estiver um pouco mais crescido. A economia anda ressentida, as pessoas andam sem rumo. A política então nem se fala: crise de um lado, desesperança de outro, e os sujeitos em quem um dia confiamos para cuidar do nosso país gastam o tempo deles e o nosso dinheiro tomando conta apenas dos interesses deles mesmos.

Confiança, você vai saber também, é um sentimento incrível. Não se perca dela, mesmo quando as coisas apertarem. Você vai aprender um dia que a palavra confiança vem do latim con fides, com fé, e espero que a sua fé esteja fortalecida, em Deus, na Física, na música, no tempo e nas pessoas, apesar dos medos, das decepções, das expectativas desfeitas e das provas em contrário.

Quando as coisas apertarem, lembre-se também dos tempos de criança, quando seu riso fácil enchia os nossos domingos de alegria.

Sei o quanto a sua chegada foi esperada. Desejo que você cresça forte, feliz e saudável, que tenha no Pedro um irmão tão maravilhoso quanto seu pai é para mim, que encontre uma linda parceira, como sua mãe é para nós. Desejo que aprenda coisas novas todos os dias e que tenha a simplicidade e a leveza como companheiras.

Peço também que você saiba ser justo, porque o que dá a verdadeira dimensão de um ser humano não é o quanto ele é grande, rico ou poderoso, mas principalmente o quanto ele é justo. Torço para que você supere com tranquilidade as dificuldades [e que de preferência elas sejam bem poucas]. Torço para que você entenda também o quanto elas nos ajudam a crescer, mesmo que na hora não pareça.

Espero que o preconceito passe longe dos seus olhos, que a intolerância não tenha morada no seu coração, que a maldade esteja distante do seu espírito. O mundo nem sempre é bom, mas muitas vezes [ufa!] há gente de boa índole e boas intenções para nos estimular a amar, construir, compreender, criar e perdoar. Reme com eles a favor de um mundo mais equilibrado, menos violento, mais tolerante, menos mesquinho. Faça a sua parte, mesmo que modestamente.

Com todo o amor da sua madrinha,

Ana Laura

pequeno dicionário para o ano que começou

A
Alongamento, para começar
Arrumações, literais ou simbólicas
A vida em seus métodos diz calma.

B
Blog, ano 14
Basquete enquanto escrevo
Beleza pura [tudo é chique demais, tudo é muito elegante]

C
Condições naturais de temperatura e pressão, por favor
Cuidar do corpo, cotidianamente
Caranguejo e amendoim não pode

D
Doar, apesar das faltas
Descansar, apesar das obrigações
Dançar, apesar das dores

E
Equilíbrio no pensar
Equilíbrio no querer
Equilíbrio no fazer

F
Forno e fogão
Fé, uma vez mais [que a fé não costuma faiá]
Força para seguir adiante

G
Girassóis
Gengibre com limão, hortelã, erva doce e, antes de dormir, camomila
Guinga, Egberto, Donato, Tim, Tom, Elis, Chico, Gil, Aldir…

[Gosto quando anoitece que só vendo]

H
Há de ser
Há de haver
Há de passar

I
Invenções
Inspirações
Inovações

J
Jardinagem
Janelas abertas
Jeitinho brasileiro não dá

K
Kind of Blue
Kind of Magic
Kind of Books

L
Livro novo, quem sabe
Lápis
Livres como aqueles do poema: ser livre é escolher ao que se prender

M
Música toda hora
Machado, Gabito, Carmélia, Clarice, Borges, Cortázar, Drummond, Rubem, Rosa…
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo [mantra!]

N
Nós desatados
Nós, firmes e fortes
Na rua, na chuva, na fazenda

O
O que disse o professor: “Estude seu viver, observe sua deriva”
O que disse o compositor: “Deixemos de coisa e cuidemos da vida, se não chega a morte ou coisa parecida e nos arrasta moço sem ter visto a vida”
O que disse o poeta: “O preço do feijão não cabe no poema”

P
Pare, repare
Prepare-se para o melhor, espere pelo pior [ou crie peixes, plantas ou o que convier mas não crie expectativas]
Posso tudo, mas nem tudo me convém.

Q
Quereres
Quitanda
Quando pessoas viram coisas cabeças viram degraus.

R
Reinvenções
Reencontros
Recomeços

S
Sementes
Serenidade
Sidarta [Herman Hesse, a primeira releitura do novo ano]

T
Tom maior, sempre que possível
Textos, porque eles são como o ar que produz pequenas felicidades
Then you can start to make it better

U
Uma coisa de cada vez, os pensamentos a seu tempo
#umaboanovapordia [projeto para qualquer dia]
Ubuntu

V
Virar a página
Virar o disco
Virar o bicho, quando for preciso

W
White, E.B., uma vez mais: “Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis”.

X
Xilografar [quem sabe…].

Y
Ybytu, Y e Yby [do tupi-guarani: vento, chão que se pisa e água]

Z
Z, o conjunto dos números inteiros
Zeitgeist, o espírito do tempo em que vivemos
Zarpar quando for preciso, como antes.

o equilibrista

– Por que você fez isso?, alguém perguntou ao equilibrista, tão logo ele terminou de atravessar as torres gêmeas do World Trade Center, em um cabo de aço estendido, sem proteção e sem autorização, a 417 metros de altura.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo: sabe que às vezes faz bem não saber?

Quando a gente não sabe, pensei, a cabeça deve doer menos a tristeza dos dias turbulentos, o abdome deve sustentar mais o peso das vértebras retorcidas. A gente, quando não sabe, investe com mais pureza nos encontros, nos diálogos, no prazer e na arte. Protegidas pela graça da ignorância, acolhidas pelo benefício do desconhecimento, mimadas pela dádiva da inocência, as madrugadas passam quietas e a ansiedade respira no compasso certo – ou o mais perto possível.

As horas tendem a pesar menos quando a gente não sabe.

Ao contrário das estações em que chove dentro da gente, mesmo que lá fora faça sol, quando não sabe a gente experimenta a liberdade de se dedicar com menos peso à busca de respostas, sejam elas metafísicas ou prosaicas, sejam elas a respeito dos rumos do jornalismo, dos versos de Bob Dylan ou do sentido da vida, sejam elas sobre o teor alcoólico do gim ou sobre as razões daquele equilibrista.

O equilibrista, a propósito:

Às 7 da manhã do dia 7 de agosto de 1974, um francesinho chamado Philippe Petit estendeu um cabo de aço entre as torres gêmeas do World Trade Center e atravessou, sem proteção e sem autorização, o espaço entre os prédios que Osama Bin Laden mandaria pelos ares em 11 de setembro de 2001. Petit tinha 24 anos, vestia preto e cruzou o vão entre as edificações a 417 metros de altura, por oito vezes, durante pouco mais de 40 minutos. Acabou na delegacia, feliz da vida.

A traquinagem foi exaustivamente planejada. Petit alugou um helicóptero para fotografar o topo das torres, convenceu um executivo do 82º andar a ajudá-lo, fingiu ser repórter de uma revista inventada para entrevistar o síndico.

Enquanto fazia malabarismos na rua para se manter, observou, fotografou. Tomou notas. Subiu e desceu do complexo que ainda passaria por um incêndio em 13 de fevereiro de 1975, um atentado a bomba em 26 de fevereiro de 1993 e um assalto em 14 de janeiro de 1998. Acompanhou a rotina de funcionários e frequentadores e até decifrou a combinação que abria uma das portas: 7-7-4-3-5.

Como a maioria absoluta dos sonhares, Philippe Petit ignorou os riscos, os ventos, a umidade do ar e as exigências da polícia e fez – palavras dele – aquilo que tinha de fazer. Andar sobre fios era paixão antiga, daquelas como na canção.

[Basta um encontro por acaso e pronto: começa tudo outra vez].

Petit já havia passeado suspenso entre as duas torres da Catedral de Notre Dame e pela ponte que atravessa a baía de Sidney, na Austrália. Para atravessar as torres gêmeas, contou com a ajuda de um amigo e da namorada. Também teve alguma sorte, declarou em entrevistas que viriam depois da façanha. Pensou em tudo, minúcia por minúcia, desde o transporte até o modo como faria um cabo de 200 quilos atravessar de um ponto ao outro – no fim das contas decidiu usar um arco e uma flecha para, então, caminhar sobre a corda bamba, deitar e dançar um pouco.

O nome da coisa é funambulismo.

A vara de equilíbrio pesava aproximadamente 25 quilos. Por toda a extensão da linha, havia cabos pendendo em direção ao chão. A função deles era reduzir as vibrações na superfície da corda bamba e, também, amenizar a sensação de vazio que dá olhar para baixo quando não há nada para ver, nem paisagem nem um rosto conhecido, nem formas nem perspectivas; nada.

– Por que você fez isso?, alguém obviamente perguntou.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo – vocês já sabem: sabe que às vezes faz bem não saber?

pequeno dicionário para o ano que começou

A
A pé, sempre que possível
Amor, todos os dias
Arte [faz parte]

B
Batata doce
Brecha na agenda
Blog, ano 13

C
Celular em modo offline
Cozinha afetiva
Camarão não pode

D
Desapego
Dores sob controle
Drummond, Carmélia, Clarice, Borges, Cortázar

E
Equilíbrio
Escrito à mão
Em paz com a vida e o que ela me traz

F
Forno e fogão
Filtro 40
Fé [que a fé não costuma faiá]

G
Grafite 1.9
Gangorra eu não gosto
Gil, Caetano, Chico, Tom, Sampaio, Melodia, Aldir

H
Há folhas no meu coração [é o tempo]

I
Inspiração
Inspiração
Inspiração

J
Justo o oposto
Janelas abertas
Jazz, uma vez mais

K
Kind of

L
Leveza, sempre que possível
Livro novo, quem sabe
Leituras

M
Menos é mais
Madrugada
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo

N
Nina Simone, um ano mais
Nada contra
Nada consta

O
Óculos
Oração
Ouvir, de fato

P
Pedalar
Praticar
Produzir

Q
Quereres
Quitanda
Quotes

R
Recomeços
Reencontros
Releituras

S
Semente
Simplicidade
Ser livre é poder escolher ao que se prender

T
Todo dia é dia de viver
Tradição, nas ocasiões em que sim [nas outras: revolução]
Then you can star to make it better

U
Uma coisa de cada vez
Unidade, união
Umbigo não é o centro do mundo

V
Violão
Vestido, ainda sempre que possível
Verde em volta

W
White, E.B.: Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis
Waffle
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
X nas boas escolhas

Y
Yin
Yang
Yin-Yang

Z
Zelo
Zoom, para ver de perto
Zarpar quando for preciso, como antes.

autorretrato número dois

O vestido saco confirma: é sábado, o dia favorito dos poetas. Os cachos displicentemente amarrados em um coque e as unhas cortadas rente escancaram o desejo de simplicidade. O resto do corpo aponta para carboidrato em excesso, Coca Cola além da conta, ausência do alongamento prescrito pelo doutor e uma espécie de síndrome leve das pernas inquietas – os roxos estão por toda a parte.

Mantenho o rádio desligado enquanto a playlist imaginária começa a tocar uma versão comovente de “Dindi”, segue com um tango do qual sei absolutamente nada, emenda o piano de “Drume Negrita” e termina com uma melodia tristíssima da velha guarda de Cuba, pero si un atardecer las gardenias de mi amor se mueren es porque han adivinado que tu amor me ha traicionado porque existe otro querer.

Os meses correm fora de controle e eu continuo sem gostar de bife de fígado.

Sigo também me submetendo a uma disciplina atroz em troca de textos. Continuo a batalha íntima e intransferível para escrever parágrafos mais curtos. Exatamente como Gabo, com seus modos de colombiano errante e nostálgico, só que com resultado infinitamente menos arrebatador, luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence. Mas sou dedicada e insisto, apesar dos desvios.

Ao contrário dele, que criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], não estou convencida de que o mundo seria o mesmo sem a literatura. Sem a polícia, sou forçada a concordar: as coisas seriam diferentes.

Ainda acho que minha verdadeira vocação reside na cozinha. Gosto de estudar o tempo certo do cozimento, a textura conveniente dos ingredientes, a intensidade exata do fogo, a forma adequada do tabuleiro, equilíbrio no tempero, harmonia na textura, paciência na espera. Às vezes os amigos chegam, às vezes somos só nós, cantando e dançando diante dos pratos mais simples como se fôssemos convidados do banquete preparado por Babette, redimidos pela boa mesa e plenamente conscientes de que o Céu também se faz nos pequenos encantos da vida.

Sempre que posso, aliás, advogo a favor dos pequenos encantos: cozinhar os pratos herdados dos livros de receitas em letra miúda e depois comê-los, ver a cidade do alto ou os prédios antigos em torno, entrar a madrugada fresca entre confissões e declarações de amor, rir de tudo, o quanto possível, apesar das faltas.

[Porque, de fato, como escreveram, as pessoas são como a palavra panegírico: uma hora estão e, no instante seguinte, resta apenas a ausência].

Também os persigo, tantas vezes quanto consigo: pedalar pelo bairro, desafinar debaixo do chuveiro, tomar sorvete de cereja com calda de Nutella, fazer silêncio, ouvir do dia, do trabalho, da agonia, dos projetos, das expressões que o dicionário não tem e de um exame que negou as suspeitas mais graves, outra vez rir diante do sol, olhar, conversar, sorrir e a frase do físico, imensamente boa, boa de doer:

– Ser livre é poder escolher ao que se prender.

das corrupções de todo dia

Sempre que possível caminho pelo bairro onde moro ou pelas redondezas do trabalho. Gosto de perceber o modo como a cidade se movimenta, ver as cores que se formam conforme as horas correm, compreender os encontros ou – exatamente o oposto – notar a maneira como deixamos escapar sentimentos, projetos e pessoas quando as distâncias passam a ser longas demais.

Outro dia, poucos antes da braveza em verde e amarelo que tomou conta o país, resolvi contar: em menos de dois quilômetros, quatro motoristas estacionaram sobre a faixa de pedestres, dois cruzaram por ela apesar dos que aguardávamos para atravessar, uma jovem de corpo esguio e passos largos jogou seu lixo na calçada, uma mãe incentivou o filho pequeno a fazer o mesmo no jardim do parque e um homem de meia idade saudou um ciclista com buzina e palavrões. Na volta para casa, peguei um táxi, pensando naquilo tudo enquanto o taxista acessava o Facebook pelo celular grudado no painel do carro.

[Pois é].

Sou a favor dos protestos contra o que incomoda, aborrece ou indigna, desde que os participantes, para um lado ou para o outro, de fato compreendam o contexto das manifestações e suas consequências, tratem as diferenças com respeito e acreditem nas bandeiras que carregam. Sou contra a corrupção, indiscutivelmente. Mas acho, para além do que temos assistido, que está na hora de combatermos também as pequenas contravenções de todo dia.

Por que aceitamos e às vezes até cometemos desvios no trânsito, no trabalho ou na praça? Por que não protestamos, igualmente, contra as pequenas corrupções cotidianas? Por que ainda há tanta gente que fura fila, paga propina, atrasa religiosamente os compromissos, mente para os amigos, investe em desestruturar uma família ou sacaneia o colega de trabalho? Ofender quem pensa diferente faz parte do pacote? O que cada um de nós realiza, efetivamente, na construção diária do país de riso e glória de que nos falava o mestre Drummond?

[Um mundo enfim ordenado, uma pátria sem fronteiras, uma terra sem bandeiras, sem igrejas nem quarteis, sem dor, sem febre, sem outro, um jeito só de viver].

Temos todos os nossos desgastes, íntimos e intransferíveis, feitos das ausências alheias, das saudades, do frio que não termina nunca, de um amor não correspondido, de arrependimento ou vontade de dizer o que não se pode, vazio ou falta de sentido, da Lei de Murphy ou da Teoria dos Seis Graus de Separação, do sufoco cotidiano, da profissão ou do casamento, do vizinho barulhento, do computador com vírus, do açúcar que o médico mandou cortar, do trânsito engarrafado, do sono acumulado ou da tensão de um dia inteiro de trabalho.

Mas há, de fato, cansaços que deviam ser igualmente combatidos: a violência nas ruas, pedir atestado médico sem estar doente, aceitar o trabalho infantil, trair, contribuir com a poluição e o desperdício de água, o analfabetismo, o atraso, o desrespeito no trânsito, o preconceito, o racismo, a competição desleal, o lucro a qualquer preço, aquele jeitinho para quase tudo que aprendemos que faz parte.

A verdade é que não faz.

Protestar contra o sistema, a política ou a corrupção, na maior parte das vezes, é mais fácil que mudar em nós mesmos comportamentos nocivos. Mas o fato é que atitudes individuais externas às regras da boa convivência e do bem coletivo também fazem mal, e muito, à vida pública e ao país que nos abriga.

desde o fim até o começo

Finais de ano são um desafio em si mesmos. O tempo encurta. O barulho aumenta. O clima esquenta. O ritmo acelera. A respiração segue a cadência do mundo e pesa. Mesmo que a experiência de períodos anteriores garanta que em breve as coisas se acalmam, o equilíbrio construído a duras penas nos meses que ficam para trás ameaça ruir. A lista de tarefas, exatamente como o preço do feijão, o gás, a luz, o telefone e o operário, não cabe no poema – porque o poema, senhores, está fechado, e não há vagas.

As exigências são inúmeras: dar conta das promessas que não saíram do papel, comprar os presentes do Natal, escolher as vestes do Ano Novo, preparar o cardápio da ceia, buscar os parentes que chegam de longe, acertar as contas, ajeitar a casa, limpar os papéis, a faxina no armário, a festa da firma, o amigo secreto, aquilo tudo.

Por puro pragmatismo, caminhamos rumo a resultados imediatos para questões urgentes, como se fôssemos bombeiros que correm contra o relógio para salvar uma casa em chamas, obrigação, utilidade, cozinha, entrega, família, compra, pedaço, cobrança, criatividade, força, prato, olho, faxina, planejamento, analgésico, compromisso, reunião, prazo de entrega, encontro, banco, jantar, exame, encanador, um caminhão de tarefas à espera de resoluções, a vida inteira. O que sobra à contemplação é quase nada.

Felizmente, os começos de ano são o justo oposto, porque guardam em si uma dose extra de esperança no futuro e uma extraordinária disposição para recolocar as coisas na perspectiva da generosidade com o mundo, com os outros e com nós mesmos.

Separados do peso por um pequeno espaço de tempo e tomados pela insustentável leveza do sol, os primeiros dias da nova temporada parecem feitos sob medida para a empreitada de pedalar sem desculpas, para a promessa de reencontrar os queridos de modo mais habitual, para os projetos que esperam na gaveta, para o cardápio à base de folhas frescas, legumes orgânicos e frutas da estação, para o calor, a simplicidade, a fé e o movimento.

“Estude seu viver, observe sua deriva”, escreve um professor que tem por missão despertar a capacidade de utilizar potenciais criativos para impulsionar as mudanças desejadas por seus aprendizes. Cada passo, cada reação e cada nova forma de pensar surgida entre uma e outra lição são fundamentais, ele anota; o que nos coloca para andar, o que acorda a nossa imaginação, o que estimula a nossa energia.

Talvez por isto, tão logo janeiro se aproxime, reservo uma noite calma, escolho as canções, tomo um lápis de boa ponta, os projetos, as metas e os sonhos e realizo o ritual igualmente silencioso de passar a limpo a agenda do ano, preenchendo o novo volume com aniversariantes e telefones de emergência, compromissos e desejos.

Costuma ser exatamente deste modo, como uma ciência poeticamente exata, na medida da esperança: em que médico voltar e quando, as contas a vencer, os contatos que preciso retomar, rever anotações, olhar para trás, avaliar projetos, reorganizar desejos, analisar feitos, tomar nota frescas do que for preciso e apagar o resto, com todo o desapego do mundo. Terminada a liturgia, estou pronta para seguir em frente.