pequeno dicionário para o ano que não tem sido

A
Agradecer, apesar de tudo.
Alongar os músculos, como fazem os gatos.
Aglomerar não pode.

B
Blanc, Blank, Bryant e tantas outras perdas imensas.

C
Consumo consciente.
Chamada de vídeo.
Crises por todo lado.

D
Da série Interrupções: cinema às terças.
Da série Interrupções: sonhos, planos, projetos.
Da série Interrupções: encontros.

E
Escrever como uma garota.
Encontrar os queridos tão logo seja possível, mas, por ora, ficar em casa.
Escolher o que compensa, dispensar o resto e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém.

F
Fogo na Amazônia.
Fogo em Beirute.
Fogo no parquinho.

G
Gatos são bons companheiros.
Gatos são bons companheiros.
Gatos são bons companheiros.

[Ninguém pode negar]

H
Home office e homeschooling.
Histórias novas para contar.
Hidroxicloroquina prefiro não.

I
Isolamento, a palavra do ano.

J
Já pode sair?

K
Kit Kat para os dias amargos e Kind of Blue para as madrugadas.

L
Lives.
Limites? Não temos.

M
Mínimas, semínimas, fusas e semifusas.
Minimalismo sustentável.
Maratonar é para os fortes [eu não].

N
Nina Simone em 1964 [Don’t Let me Be Misunderstood].
Nina Simone em 1965 [Feeling Good].
Nina Simone em 1966 [Lilac Wine].

O
O que disse o romancista: “O que nos muda também nos aumenta”.
O que disse o poeta: “A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa”.
O que disse o sambista: “Suave na nave ninguém tá”.

P
Partidas precoces.
Partidas súbitas.
Partidas além da conta.

Q
Quer álcool em gel?

R
Respirar sem ajuda de aparelhos.
Respirar com ajuda de aparelhos.
Respirar e recomeçar, sempre que necessário.

S
Shopstreaming (a conferir).
Saudade do bailão, né, minha filha?
Solidariedade.

T
Todos contra o coronavírus.

U
Um novo século, segundo a historiadora.
Um ministro, dois ministros, três ministros…
Um dia de cada vez.

V
Vidas negras importam.
Valores revistos, novos modelos.
Vacina seria uma excelente notícia.

W
White, E.B.:
–  Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis.

X
Xô, Coronavírus. Cansamos de você.

Y
Yin e Yang, em nome do equilíbrio das coisas.

Z
Zelar por nós e pelos outros.
Zarpar quando for preciso.

as histórias que nos contam as estantes na pandemia

As histórias que contamos ao longo da pandemia não são como as de antes. Afinal, isolados como estamos, as narrativas têm quase sempre a casa como cenário e nós, os que vivem conosco e os bichos de estimação como personagens. Às vezes um ou outro fantasma surge nas avenidas, viadutos e vielas da memória. Mas, de um modo geral, poucas são as variações nas resenhas da quarentena e seus temas centrais, a saber: cansaço, saudades, a inquietude com relação ao futuro, o pão, a louça pra lavar e as perdas do caminho.

Agora imaginem se pensarmos nas estantes de livros como um elemento a mais da narrativa construída ao longo do confinamento? Prateleiras e mais prateleiras alçadas à condição de cenário com toda sorte de tipos, sentimentos, diálogos e desfechos à espreita…

O que o velho exemplar de “Cartas Extraordinárias” atrás de mim, por exemplo, indica aos colegas quando apareço na videoconferência da firma? Aquele surrado volume de “O Mal Estar da Civilização” esconde mesmo o que penso que ele esconde? A fila de livros de Hermann Hesse milimetricamente postos em ordem cronológica quer dizer o que? O fato de “Demian”, “Sidarta”, “O Lobo da Estepe” e “O Jogo das Contas de Vidro” virem em sequência, enfileirados, mas sem “Narciso e Goldmund”, guarda algum tipo de segredo ou contradição?

Gostei do que fez o New York Times há poucos dias a este respeito: revelou o que as estantes dizem sobre as pessoas em frente delas nas lives que povoam a quarentena.

O músico Yo-Yo Ma lê, leu ou pretende ler, quem sabe, sobre como lidar com medo de palco. O ator Tom Hanks tem livros sobre política até o teto, incluindo, por exemplo, as transcrições das conversas de telefone de Lyndon Johnson, o presidente de número 36 dos Estados Unidos, a respeito da Guerra do Vietnã.

Anna Wintour, a difícil e influente editora-chefe da Revista Vogue, ostenta um exemplar de “The Nix”, de Nathan Hill, o irônico relato de um escritor fracassado obrigado a lidar com antigas feridas após o ressurgimento da mãe, e outro de “Naming Names”, o volume de Victor S. Navasky sobre a caça aos comunistas de Hollywood na década de 1940.

A atriz Gwyneth Paltrow prefere temas mais amenos, mas nem tanto: a vida das estrelas na Riviera Francesa e as pinturas simbolistas de Gustav Klimt. A colega Cate Blanchett, por sua vez, coleciona livros como “Pós-capitalismo: Um Guia Para o Nosso Futuro”, do jornalista britânico Paul Mason, e “Moscow, 1937”, do historiador alemão Karl Schlögel, além de uma edição completa, em papel, do Dicionário Oxford, com seus 20 volumes, 21 mil páginas e mais ou menos 350 milhões de caracteres a respeito de um monte de coisas.

Estantes e livros são vastos como o mundo de Drummond.

você sabe com quem está falando?

É o professor Mário Sérgio Cortella quem diz, numa palestra famosa de 2005: somos um entre 6,4 bilhões de indivíduos no planeta, pertencentes a uma espécie entre outras três milhões de espécies classificadas, que vive num planetinha, que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer.

Quinze anos depois da palestra famosa, deixamos de ser 6,4 bilhões de indivíduos no planetinha que gira em torno de uma estrelinha para sermos 7,6 bilhões. Há alguns dias, um homem entre estes 7,6 bilhões de indivíduos saiu para caminhar sem máscara na orla de Santos, litoral de São Paulo, contrariando a legislação local, que obriga o uso do acessório em vias públicas da cidade durante a pandemia do coronavírus. 

A cena foi exaustivamente noticiada, compartilhada e comentada. Embora seja um entre os cerca de dois mil desembargadores do Brasil – um profissional a serviço do cumprimento da lei, portanto -, o homem sem máscara de Santos tentou intimidar o policial que questionou sua conduta, rasgou a multa e ligou para o secretário de Segurança Pública. O motivo: julgar que deveria ter um tratamento diferente dos outros habitantes do planetinha que gira em torno de uma das 100 bilhões de estrelinhas que compõem a nossa galáxia.

Poucos dias antes, um casal num bar do Rio de Janeiro durante uma fiscalização da Vigilância Sanitária e um empresário de São Paulo denunciado por violência doméstica tiveram julgamento parecido. Tanto a fala da mulher no Rio – “Cidadão não, engenheiro civil, formado. Melhor do que você.” – quanto a do homem em Sampa – “Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um bosta. Aqui é Alphaville, mano!” – demonstram um sentimento de superioridade diante dos outros tão profundo quanto equivocado.

O que os faz defender que a vontade individual, o endereço de luxo ou os contatos que têm são mais fortes que o bem coletivo, a saúde pública e as regras do país é a sensação de privilégio. Uma sensação que, infelizmente, tem tudo a ver com o Brasil. 

memórias de um tempo de exílios falências e mudanças

Havia uma lupa entre os pertences que herdei na passagem do meu pai. Um pequeno artefato que, graças à engenhosidade de romanos e chineses do século VI antes de Cristo, permite enxergar com lente de aumento objetos que, de outro modo, quase não se vê.

Livros de letra miúda, as entrelinhas de um contrato, detalhes e entalhes de um móvel feito à mão. As fusas e semifusas de uma partitura desbotada pelo tempo. O porta-retrato posto no exato ponto que separa o esquecimento da obsessão. Objetos vistos com lente de aumento graças à engenhosidade de romanos e chineses do século VI antes de Cristo.

É a Física quem diz: com as lupas e suas lentes convergentes, temos uma imagem virtual, direita e maior de um objeto real. Para que a imagem se forme, o objeto deve estar entre o foco e o centro ótico da lente. O tamanho da imagem produzida na retina varia de acordo com o ângulo que o objeto ocupa no campo de visão. 

A posição precisa ser firme, sem grandes variações. Caso contrário, letras miúdas, entrelinhas, detalhes, entalhes, fusas, semifusas, esquecimento e obsessão tornam-se um borrão, uma mancha, um rabisco imperfeito da ausência, da distância, da névoa e do descuido.

Alguém escreveu, com toda razão, que vivemos um período de ruínas. De empregos e empreendimentos aos sistemas de saúde, da ética dos homens públicos ao bom senso do capitão, dos projetos para 2020 ao coração do meu pai, as falências estão por toda parte. 

Até o tempo anda bugado nos últimos meses, correndo contra si mesmo enquanto cancelamos projetos e celebridades, sovamos pão e incertezas, envelhecemos diante de sonhos, rotinas e encontros suspensos pela pandemia. 

Vivemos, respiramos, trabalhamos, escrevemos, postamos. Abrimos portas para o essencial. Descemos escadas, evitamos elevadores. Lavamos a louça para em seguida sujar outra vez. Mesmo que a contragosto, adotamos novos hábitos. Pouco a pouco, construímos com o que temos à mão as memórias deste tempo de exílios, falências e mudanças.

meu carnaval com rosa montero, marie curie e a ridícula ideia de nunca mais te ver

Passei o carnaval na luxuosa companhia de “A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver”, da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero. O livro promove o encontro de duas histórias reais, vividas por duas mulheres fortes, separadas no tempo por 100 anos, mas unidas na desmedida dor de perder seus respectivos companheiros.

De um lado, Rosa Montero nos conta da morte do cientista Pierre Curie, partindo de fragmentos do diário de sua esposa, Marie Curie, primeira mulher na História a receber um prêmio Nobel e a única a receber dois. Do outro, nos revela os sentimentos por trás da perda de seu próprio marido, Pablo Lizcano, em 2009, vítima de um câncer fulminante após 21 anos de união.

Madame Curie foi a fascinante figura que descobriu e mediu a radioatividade, um elemento da Natureza capaz de curar tumores tanto quanto de dizimar multidões. Em 1903, levou o Nobel de Física, em parceria com o marido. Em 1911, ganhou sozinha o de Química. Havia ficado viúva em 1906. Quase não sorria e comia pouquíssimo. Sua magreza excessiva contrastava com a determinação em quebrar barreiras no masculino mundo da ciência. 

Rosa Montero é a autora de um maravilhoso ensaio sobre a imaginação publicado em 2003 e espirituosamente intitulado “A Louca da Casa”. Começou a escrever depois de ter sofrido de tuberculose e, em 1979, publicou seu primeiro romance, “Crônica del Desamor”. De lá para cá, foram cerca de 30 títulos e centenas de artigos para jornais de todo o mundo. Em 1978, ganhou o Prêmio Mundial de Entrevistas e, até hoje, a técnica que ela utiliza como entrevistadora é estudada em universidades espanholas e latino-americanas de jornalismo. 

Ao ler o diário em que Marie Curie registrou seu luto, a escritora percebeu não apenas uma enorme admiração, mas também muitos pontos em comum com o que estava vivendo desde a morte do marido – “uma solidão tão grande que não cabia na palavra solidão, uma total desconexão do mundo”. 

Então, decidiu mergulhar na vida dos Curie. A partir daí, construiu uma série de reflexões não sobre a morte, mas sobre a vida, a liberdade e, principalmente, sobre a força feminina em reconstruir as coisas depois do caos.   

Muitas e muitas vezes, questões particulares, de tão específicas, acabam sendo universais. Fingir dureza para impor respeito em ambientes masculinos, por exemplo, é uma postura que inúmeras entre nós mulheres conhecemos na prática, apesar das conquistas feministas dos últimos anos e dos avanços no debate sobre igualdade entre os gêneros. 

Ao aproximar as vivências e a fragilidade temporária das duas diante de uma perda tão intensa, “A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver” nos lembra sobre a importância de encontrarmos referências que nos representem e sobre o quão forte elas podem ser para mulheres em processos de reconstrução. Afinal, como bem escreve a autora espanhola, depois de baques profundos, a gente não se recupera nunca: se reinventa.

o menino e o vento

“Quando você vive um problema, você o conhece melhor do que todo mundo”. A frase que o engenheiro William Kamkwamba costumava ouvir da avó norteou sua busca por soluções para a pequena vila de Wimbe, no interior do Malawi, um país africano montanhoso e sem saídas para o mar que ocupa as últimas posições do ranking de desenvolvimento humano da Organização das Nações Unidas e as primeiras na lista de país mais pobre do mundo.

Kamkwamba é o garoto que inspirou o filme “O Menino que Descobriu o Vento”, a comovente história da construção de um moinho que salvou uma comunidade inteira da seca e da fome. 

A saga do adolescente de 14 anos que estuda sozinho e enfrenta a descrença da família para montar um moinho de vento ganhou as páginas de jornais e virou livro. Em 2013, Kamkwamba foi eleito pela revista Time como uma das 30 pessoas com menos de 30 anos que estão mudando o mundo. Ano passado, sua história foi levada às telas pelo diretor inglês Chiwetel Ejiofor, conquistando milhares de admiradores. 

O resumo da ópera: quando a colheita da família é devastada pelo mau tempo e pela falta de políticas públicas, Kamkwamba se vê forçado a abandonar os estudos. Com a ajuda da bibliotecária do vilarejo, das poucas noções obtidas na aula de Física e de peças de ferro velho, o menino autodidata constrói uma bomba movida à energia eólica para irrigar os campos e salvar as plantações de sua comunidade.

O relato nos ensina dezenas de lições. Minhas favoritas são o poder do conhecimento genuíno existente na simplicidade, nas vivências reais e na diversidade, e a força que pessoas raras têm para mudar as coisas, a despeito de todas as dificuldades. 

Toda transformação começa com o primeiro passo, costuma dizer o menino, hoje com 32 anos. À frente da WiderNet, organização sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos, ele trabalha para estimular o surgimento de novos inventores em comunidades carentes de infraestrutura, comida e atenção. Seu foco é amparar projetos como o moinho da vila de Wimbe, aqueles que de tão simples sejam capazes de se tornar imensos.

19 coisas que aprendi em 2019

1
Quase morrer é um pouco nascer de novo.

2
A injustiça e as más intenções estão por toda a parte. Muitas delas nos atingem quando a gente mais precisa de uma mão.

3
Aliás, não dá para esperar nobreza de gente egoísta, empatia de gente prepotente ou reconhecimento sincero de gente vaidosa acuada pela própria falta de resultados.

4
Líderes que só enxergam o próprio umbigo melhor nem comentar. Um comandante seguro, justo e solidário, ao contrário, transforma simples colaboradores em aliados para toda e qualquer temporada.

5
Abraços sinceros e camaradagem [viva!] surgem quando a gente menos imagina.

6
Ajudas que a gente acha que nunca vão faltar, ao contrário, podem nos deixar à deriva.

7
O tempo recoloca o trem da vida nos trilhos.

8
O que nos define não são as quedas, mas a forma como nos levantamos depois de cair.

9
As esperas sempre parecem mais bonitas na literatura.

10
Amar é resistência, o afeto é revolucionário.

11
A ativista de pele preta e punhos cerrados está certa, muito certa, certíssima: “Podemos errar, e tudo bem, mais importante é organizar a nossa esperança”.

12
De alento em alento, de um modo mais ou menos convencional, diante de filmes algo esperançosos, nas notícias que vêm de longe ou no encontro com velhos camaradas, seguimos tentando acreditar na lealdade, na pureza e na graça das coisas.

13
Porque, ao olhar para fora e para o lado, olhamos também para dentro.

14
Gatos são demais.

15
As sutilezas e o que há de material na existência conversam entre si mais do que a gente imagina.

16
É verdade este bilhete: no fundo do poço tem uma mola.

17
Gente do bem não finge afeição, não estimula a desavença, não alimenta a discórdia nem solta da mão da gente.

[Gente do bem – vocês sabem – mora de pantufas no coração da gente].

18
Fé no movimento e pé na tábua.

19
Pois aquele poeta russo sabia das coisas: “Nesta vida morrer não é difícil. O difícil é a vida e seu ofício”.

das voltas que a vida dá

A vida dá voltas do jeito mais doido possível. Basta uma decisão errada e – catapluft! – as coisas saem do lugar de um modo que parece que nunca mais vão voltar para o endereço de origem.

No fundo a gente sabe que um dia tudo se ajeita, mas na hora, na hora, não. Na hora, o buraco esfrega seu tamanho na cara da gente de uma maneira tão vigorosa que falta tudo: chão, esperança, equilíbrio, tudo, até o ar.

A gente só respira porque sabe que precisa, como aprendeu, por puro instinto de sobrevivência, desde mais ou menos a décima oitava semana da existência. Respira e vai, colecionando dias e respectivas noites como Florentino Ariza em sua longa espera por Fermina Daza – cinquenta e três anos, sete meses e onze dias, para ser exato como o grande Gabito em sua inesquecível saga de encontros, desencontros e reencontros.

De repente, uma ou outra inspiração acenam de longe, depois se achegam um pouquinho mais. A respiração fica ligeiramente mais leve, o buraco aparenta ser algum tanto menor. Um pé depois do outro, a gente levanta e anda, como na canção: sonhar, seguir.

🎶 [Eu sei, cansa].

Um pé depois do outro, levantar, andar, sonhar, seguir, como na canção, a gente reaprende que a vida dá voltas e, de repente – catapluft! – as coisas se ajeitam e tornam a ocupar seu lugar de modo que parece que sempre estiveram ali. A vida dá voltas do jeito mais doido possível.

pequena crônica sobre toda gente

Gente do mal atrapalha os planos da gente, altera a nossa rota, bagunça os nossos afetos, põe em xeque o gosto por coisas que, em outros tempos, tinham sabor de bolo quentinho de chocolate. Gente do mal desnorteia a inspiração da gente, aniquila a nossa fé no movimento, abala a esperança que temos em dias melhores e madrugadas.

Gente do mal transforma o riso em pontas cobertas de poeira e ferrugem, detona o equilíbrio que vai dentro, bloqueia a energia que corre nas veias. Gente do mal é capaz de jogar projetos, anseios e desejos de uma vida inteira num buraco escuro e fundo. Gente do mal não leva em conta a dedicação, despreza o esforço e tem pouquíssima consideração com o trabalho e a história da gente. Gente do mal finge que se importa, mas ai ai ai. Gente do mal um dia morre na gente.

Às vezes até as nossas pacientes economias entram na roda torta dessa gente maldosa que, vez ou outra, esbarra no caminho da gente. Gente do mal não tem freio, simplesmente.

Graças aos deuses e deusas, gente do bem é justo o oposto. Gente do bem não rouba da gente – nem tempo nem dinheiro nem a fé no movimento nem a esperança em dias melhores. Gente do bem não finge afeição, não estimula a desavença, não alimenta a discórdia nem solta da mão da gente.

Gente do bem ajuda a gente a lembrar de onde veio e contribui na construção de endereços, sequências e desfechos, nos consertos e nos recomeços. Gente do bem diz o que é preciso dizer, a despeito da timidez, do embaraço ou de possíveis constrangimentos. Gente do bem vibra com a alegria da gente.

Às vezes até as nossas causas mais secretas entram na pauta dessa gente amável que, vez ou outra, esbarra no caminho da gente. Gente do bem colore a estrada da gente e valoriza cada segundo de dedicação e lealdade. Gente do bem é como na canção.

[Quando os teus olhos cansarem dos meus olhos, não é preciso haver falsidade entre nós].

Graças aos deuses e deusas, gente do bem combate a violência com argumento, verdade e brandura. Gente do bem salva dias, noites e madrugadas de falta de sentido, dias, noites e madrugadas em que a maldade alheia bate na porta da gente, dias, noites e madrugadas de injustiça, desequilíbrio ou uma ausência daquelas.

Gente do bem mora de pantufas no coração da gente.

agradecer

Alguém já disse, com toda razão, que a gratidão transforma o caos em ordem, a negação em aceitação, a confusão em clareza. O oposto é um perigo. Quando estamos tomados de insatisfação, sentimos que nossas escolhas não acrescentam, nossos empregos não satisfazem, nossas roupas não cabem, nossa casa não acolhe, o sal não tempera, os amigos não ligam ou então são outros os desagrados.

Em meio ao turbilhão de faltas, esquecemos dos braços, pernas, pés e mãos que funcionam bem, do teto que nos acolhe, da possibilidade de enxergar, das pequenas vitórias, das canções e dos afetos, de gente próxima com quem realmente podemos contar, do amor em estado puro a despeito das dificuldades. Em meio ao turbilhão de faltas, esquecemos do que nos é essencial e que nos serve, bem ou mal, dia e noite, faça chuva ou faça sol.

[O essencial é entender o que nos move, estar próximo do que nos emociona, investir no que importa e dispensar o resto. O essencial é aquela história: escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Não deve ter sido coincidência. Às vésperas do Natal, uma época em que tradicionalmente somos [ou deveríamos ser] tomados pelo hábito de dizer obrigado, fui internada às pressas para uma cirurgia de emergência na vesícula. A dor era imensa, a maior que lembro ter sentido. A operação não foi das mais simples, mas saí de lá quase inteira.

Dois dias depois, recebi alta e, apesar da recuperação dolorida e do susto, por todo o lado havia motivos para dizer obrigado. Eu estava viva, antes de mais nada. Caminhava com dificuldade, mas caminhava. A família inteira estava sintonizada, os de perto e os de longe, e as alianças permaneciam firmes e fortes. Felizmente tínhamos condições de comprar os medicamentos prescritos pelo médico, a dieta completa, o conforto todo.

Quando fomos para casa, Melodia esperava na porta. Os enormes olhos amarelos do meu gato de estimação contrastavam com seu pêlo preto brilhante. O balanço do rabo indicava felicidade. Os discos acumulados ao longo da caminhada e os livros cuidadosamente enfileirados nas prateleiras estavam exatamente do jeito que eu havia deixado.

Era bom voltar.

Quando olhei em torno, lembrei daqueles dias em que tradicionalmente somos [ou deveríamos ser] tomados pelo hábito de agradecer, apesar de todo o peso que o ano acumula. Dezembro havia começado com chuva. Meu estado de espírito não andava muito diferente. Eu precisava serenar a pele, organizar a casa e, mais urgente que tudo, cuidar para que meus pensamentos voltassem a ser leves. O coração batia pesado. Apesar disso, eu sabia: precisava pensar profundamente no lado bom da vida.

O tempo, uma vez mais, desempenhava com maestria seu papel de santo remédio, e eu não tinha escolha mais indicada a fazer do que simplesmente agradecer.