viagem

Acontece mais ou menos assim:

Primeiro a gente arruma as malas e pensa na utilidade de tantos vestidos, de tantas bolsas, de tantos sapatos e de nove cachecóis de cores diferentes numa cidade que tem só quatro dias de inverno. A gente pensa nas razões de tantos papéis, e descobre que precisa de cada um deles, ou acha que precisa, então precisa mesmo. Pensa nos motivos de haver tantas panelas no armário quando o fogão tem apenas quatro bocas e na real necessidade das posses que aprendemos a ter, quando devíamos ser e sentir mais que ter ou querer ter.

Depois, enquanto o comissário explica os procedimentos de segurança e garante que, em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão automaticamente sobre as nossas cabeças [ai] e que o assento é flutuante para um eventual pouso na água, a gente pensa que não quer morrer de acidente de avião, virar picadinho ou boiar no Oceano Atlântico, porque ainda tem muito pra fazer da vida.

Daí a gente enumera mentalmente a lista inteira de tarefas, realizações, vontades e expectativas que não gostaria de ver interrompidas por uma explosão aérea, e logo olha pela janela e, do alto, pensa na cidade em que vive, de quantas maneiras e de que tanto gostamos das suas curvas, das suas minúcias, da sua cor.

A gente pensa que Vitória é azul, Londres é cinza como São Paulo, Paris é rosa, Salvador é vermelho, um mundo inteiro de tons que dizem muito sobre suas intenções, acolhidas e possibilidades. Pensa no quanto mudou, no que levou, no que deixou para trás e no quanto cresceu naquele endereço, inclusive no incômodo crescimento lateral que parece impossível perder depois dos 30.

Daí a gente viaja, encontra feições diferentes, comidas diferentes, sotaques diferentes e, dependendo do destino, sol o ano inteiro. Se tiver disposição e um pouco de sorte, vive a lei natural dos encontros que aquele disco ensinou [por ela a gente deixa e recebe um tanto] e traz amigos novos na mala, ou pelo menos histórias para lembrar. Quando volta, a gente lembra do quanto riu, do quanto ouviu, do quanto falou, do quanto dançou depois de duas doses de Black Label com Coca Cola e do quanto entendeu que as questões da humanidade são muitíssimo parecidas, aqui, ali, em qualquer lugar, com quase nada de variação.

A saber: falta de dinheiro, traumas do passado e coração partido, não necessariamente nessa ordem.

Então a gente volta pras coisas que deixou, exatamente como o Rei, abre a porta devagar, deixa a luz entrar primeiro, ilumina o passado e entra. Volta pro aconchego, pras plantas da varanda, pros livros que esperam na fila da leitura perdida, pros discos displicentes que esperam as madrugadas e pras madrugadas em si. Volta pros projetos de ordens diversas, trabalho, afetos, corpo, cabeça, vários. Volta porque domingo tem samba e tem encontro. Volta porque voltar é bom, e a gente sempre volta um pouco diferente.

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das coisas inconfessáveis

Primeiro é preciso desprendimento, deixar de lado a vergonha e o peso, esquecer censuras, reprimendas, reprovações e repreensões, acreditar com o corpo inteiro na ideia de que a palavra diversão, como a música e os dias de sol, só pode ter um sentido bom, nunca o contrário. Depois é preciso humor, investir no riso e no esquecimento, confiar com a cabeça inteira na certeza de que pouca coisa na vida facilita mais o resto todo do que achar graça de si mesmo.

Daí fica fácil. Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta, de uma maneira mais ou menos bonita, de um jeito mais ou menos complicado, de um modo mais ou menos ligeiro, racional e objetivo. Conta que não vive sem Lulu Santos e Zizi Possi [menos as versões pro italiano] ou que adora “Jaded” do Aerosmith, que ouve, dança e sabe absolutamente todas as letras das Spice Girls ou, sendo sincero como não se pode ser, que não perde um show dos Engenheiros do Hawaii.

Conta que por ele você é que nem aquela canção do tango no teto, menos a parte de tomar banho gelado no inverno. Conta que sente saudades do sotaque dele, dos óculos, da camiseta de algodão e das cuecas à mostra pra jogar charme. Conta dos medos próximos, escorpião, barata, solidão, dívida no cartão de crédito e escuro, e daqueles tão distantes quanto Salinópolis, Ametista do Sul ou Aparecida do Taboado. Conta das madrugadas, das vontades e do amor guardado dentro do pote de guardar amores.

Conta quase tudo.

Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta, de uma maneira mais ou menos bonita, de um jeito mais ou menos complicado, de um modo mais ou menos ligeiro, racional e objetivo, que não sai do carro enquanto o rádio não termina de tocar aquela do Roupa Nova [pra que tanta pressa de chegar?].

Conta que foi ver a apresentação da Joana no velho teatro do Centro quando seu namorado era um sujeito ocupado que não mandava notícias nem dava um sinal e que – ai ai – também adora o Fábio Júnior. Conta até o que não devia, inclusive algumas tristezas dos anos passados e os próprios defeitos [alguém disse, acho que Clarice Lispector, que cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, porque nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro].

Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta que já gosta, apesar do pouco tempo, mas que tem vontades às vezes excessivas e demandas às vezes exageradas. Conta das alegrias de agora e de algumas dúvidas sobre logo depois. Conta quase tudo, sem peso ou vergonha, sem censura ou reprovação, sem maldade ou mau humor. Você confessa as coisas, e pronto.