pequeno dicionário para o ano que começou

A
A pé, sempre que possível
Amor, todos os dias
Arte [faz parte]

B
Batata doce
Brecha na agenda
Blog, ano 13

C
Celular em modo offline
Cozinha afetiva
Camarão não pode

D
Desapego
Dores sob controle
Drummond, Carmélia, Clarice, Borges, Cortázar

E
Equilíbrio
Escrito à mão
Em paz com a vida e o que ela me traz

F
Forno e fogão
Filtro 40
Fé [que a fé não costuma faiá]

G
Grafite 1.9
Gangorra eu não gosto
Gil, Caetano, Chico, Tom, Sampaio, Melodia, Aldir

H
Há folhas no meu coração [é o tempo]

I
Inspiração
Inspiração
Inspiração

J
Justo o oposto
Janelas abertas
Jazz, uma vez mais

K
Kind of

L
Leveza, sempre que possível
Livro novo, quem sabe
Leituras

M
Menos é mais
Madrugada
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo

N
Nina Simone, um ano mais
Nada contra
Nada consta

O
Óculos
Oração
Ouvir, de fato

P
Pedalar
Praticar
Produzir

Q
Quereres
Quitanda
Quotes

R
Recomeços
Reencontros
Releituras

S
Semente
Simplicidade
Ser livre é poder escolher ao que se prender

T
Todo dia é dia de viver
Tradição, nas ocasiões em que sim [nas outras: revolução]
Then you can star to make it better

U
Uma coisa de cada vez
Unidade, união
Umbigo não é o centro do mundo

V
Violão
Vestido, ainda sempre que possível
Verde em volta

W
White, E.B.: Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis
Waffle
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
X nas boas escolhas

Y
Yin
Yang
Yin-Yang

Z
Zelo
Zoom, para ver de perto
Zarpar quando for preciso, como antes.

do dia que encontrei carmélia

Apresentação
Por Milson Henriques

Prefácio do livro Quase um Segundo, 2013, Editora Cousa

quase_capaHá algum tempo, uma insônia braba me pegou e afagou meu ego, já que reza a lenda ela só ataca gente inteligente. Junto, uma necessidade woodyalleana de caminhar (procurar?) pela madrugada, como fazia habitualmente nos meados do recente século passado. Alguma força me arrastou para o centro da cidade, me deixei levar curiosa e corajosamente. Larguei o Fusca na Costa Pereira, segui pela Rua Sete e… não acreditei!! O Britz Bar reaberto?!? Impossível. Acabou creio que no final dos anos setenta!! Entorpecido de surpresa, caminhei com passos de mendigo medroso e… quem estava lá? Impossível!!! Carmélia?!? Mas ela mora naquela estrelinha azul que tanto desejou!! Não pode ser!! Claro que não!! Ela estava na mesa com apenas uma menina pequena, e a gorda nunca foi chegada a criança!

Minha curiosidade foi enorme. As duas estavam num papo que parecia sério, embora às vezes dessem gargalhadas. Cheguei por trás de mansinho para não ser visto, a menininha me olhou. Cúmplice, fingiu que não. Mas reconheci aquele olhar. De onde? Nunca havia visto aquela criança, principalmente naquele antro de jornalistas, comunistas, biriteiros, hippies, gays, viciados, cabeludos e outras espécies que a Tradicional Família teme e condena. Pensei numa hipótese louca: talvez eu conheça aquele olhar lá do meu tempo futuro… A danadinha tinha um olhar sapeca, doce e, como já disse, cúmplice, mas com uma pitada triste da lua minguante. Mas quando me aproximei as duas foram sumindo, com o Britz…

Tenho uma atração pelo começo e pelo fim (por acaso gosto da palavra ocaso), a largada e a chegada, a infância e a velhice. São as duas fases do ser humano que mais gosto de conversar. Mas conversar o quê, se em geral a criança ainda não sentiu a dor da perda, a reconquista da paz, nunca leu Pessoa, Florbela, Drummond, nunca ouviu Tom Jobim, Chet Baker, nunca chorou ouvindo o Adágio de Albinoni? E o idoso, que nem se digna a me responder, porque já enterrou todas as suas mágoas e dores, cobrindo tudo com a areia grossa da amargura?

Eu mesmo já estou sentindo a leve impressão de que já vou tarde…

Não sei se me apaixonei pelos textos por causa da autora ou se me apaixonei pela autora por causa dos seus textos. As duas possibilidades estão certas. O que importa é Ana Laura, que, adulta, possui a pureza sábia da criança e o desencanto do idoso, embora ainda conserve no peito um fio grosso de esperança. De quê já é outra história. Ninguém pode continuar insensível depois de ler isto: “Penso em como a gente devia, mais que tudo, saudar os que estão vivos, um sorriso, uma conversa, respeito, uma mão, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, para que, quando partirem, seja fácil comer, beber, colorir, receber, dançar, iluminar e cantar em homenagem a eles. Chorar também pode, mas de outro tipo de dor, conforto talvez, de saber que fez o melhor possível enquanto era tempo, e aí resta apenas celebrar”. E mais isto: “(…) aceitar que um mesmo olhar sobre uma mesmíssima coisa é um outro olhar sobre outra coisa, porque num dia o que era amor se torna só indiferença e depois mais nada, e o vazio se transforma em outro amor e depois ninguém sabe”.

Ao contrário de muitos poetas e escritores, a pessoa Ana Laura é exatamente igual ao que escreve. Porcelana. Cristal. Às vezes o tilintar alegre do encontro de taças, às vezes o badalar pesado e melancólico do sino da velha igreja. Gota de orvalho na teia, às vezes aranha devoradora, às vezes a mosca perdida, às vezes a própria teia. Com toda sua aparente leveza, ela também às vezes (sempre?) responde, questiona, discorda (consegue ser viciada em Coca Cola sem ferir nossa amizade!). Mas tudo com tanta doçura, tanto ternura sem pieguice, tanta verdade corajosa sem magoar. Ana Laura não tem contraindicação.

Quando a gente mastiga um suculento morango sente uma gastura capixaba lá no final dos dentes, uma pequena ardência refrigerada que nos faz salivar de prazer, saca? Ana Laura às vezes é exatamente assim. Ler Ana Laura é, como na madrugada, ouvir o canto de um galo perdido naquele distante imaginário lugar onde temos a impressão que o nosso ideal se encontra escondido. Conversar com Ana Laura é sentir em você um olhar danadinho, sapeca, doce, cúmplice, mas com uma pitada triste de lua minguante…

Epa! Então era ela!! Eu sabia que aquilo não foi um sonho!! Obrigado, Ana Laura, sempre tive certeza que um dia iria reencontrar você!

(Sempre defini felicidade como momentos. Por exemplo, o momento do telefonema me convidando para a honra – e responsa – de prefaciar este livro é minha mais nova definição).

E você, futuro leitor, que está com o livro nas mãos, parabéns. Se comprou, ganhou, roubou, pediu emprestado, seja lá como for que foi parar em seu poder, prepare corpo e alma para sentir o que senti. Mas prepare mesmo. Se não puder ler à tardinha, embaixo de uma árvore (daquelas antigas, cheia de pássaros e histórias para contar), numa praia distante, leia em sua casa, mas DE MADRUGADA, para ler com calma. Abra um bom vinho, vodca ou cachaça – a preferência é sua. Se não tiver, não tem importância, leia a seco mesmo, porque garanto que você vai tomar um porre de ternura, abandono gostoso, filosofia, amores, desamores, bares, butecos, doses, doces, doçuras. Garanto que antes do dia nascer irá encontrar um amor guardado dentro do pote de guardar amores.

Tome um porre de Ana Laura, não tem perigo de ressaca.
Ou tem, sei lá.

autorretrato número dois

O vestido saco confirma: é sábado, o dia favorito dos poetas. Os cachos displicentemente amarrados em um coque e as unhas cortadas rente escancaram o desejo de simplicidade. O resto do corpo aponta para carboidrato em excesso, Coca Cola além da conta, ausência do alongamento prescrito pelo doutor e uma espécie de síndrome leve das pernas inquietas – os roxos estão por toda a parte.

Mantenho o rádio desligado enquanto a playlist imaginária começa a tocar uma versão comovente de “Dindi”, segue com um tango do qual sei absolutamente nada, emenda o piano de “Drume Negrita” e termina com uma melodia tristíssima da velha guarda de Cuba, pero si un atardecer las gardenias de mi amor se mueren es porque han adivinado que tu amor me ha traicionado porque existe otro querer.

Os meses correm fora de controle e eu continuo sem gostar de bife de fígado.

Sigo também me submetendo a uma disciplina atroz em troca de textos. Continuo a batalha íntima e intransferível para escrever parágrafos mais curtos. Exatamente como Gabo, com seus modos de colombiano errante e nostálgico, só que com resultado infinitamente menos arrebatador, luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence. Mas sou dedicada e insisto, apesar dos desvios.

Ao contrário dele, que criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], não estou convencida de que o mundo seria o mesmo sem a literatura. Sem a polícia, sou forçada a concordar: as coisas seriam diferentes.

Ainda acho que minha verdadeira vocação reside na cozinha. Gosto de estudar o tempo certo do cozimento, a textura conveniente dos ingredientes, a intensidade exata do fogo, a forma adequada do tabuleiro, equilíbrio no tempero, harmonia na textura, paciência na espera. Às vezes os amigos chegam, às vezes somos só nós, cantando e dançando diante dos pratos mais simples como se fôssemos convidados do banquete preparado por Babette, redimidos pela boa mesa e plenamente conscientes de que o Céu também se faz nos pequenos encantos da vida.

Sempre que posso, aliás, advogo a favor dos pequenos encantos: cozinhar os pratos herdados dos livros de receitas em letra miúda e depois comê-los, ver a cidade do alto ou os prédios antigos em torno, entrar a madrugada fresca entre confissões e declarações de amor, rir de tudo, o quanto possível, apesar das faltas.

[Porque, de fato, como escreveram, as pessoas são como a palavra panegírico: uma hora estão e, no instante seguinte, resta apenas a ausência].

Também os persigo, tantas vezes quanto consigo: pedalar pelo bairro, desafinar debaixo do chuveiro, tomar sorvete de cereja com calda de Nutella, fazer silêncio, ouvir do dia, do trabalho, da agonia, dos projetos, das expressões que o dicionário não tem e de um exame que negou as suspeitas mais graves, outra vez rir diante do sol, olhar, conversar, sorrir e a frase do físico, imensamente boa, boa de doer:

– Ser livre é poder escolher ao que se prender.

das corrupções de todo dia

Sempre que possível caminho pelo bairro onde moro ou pelas redondezas do trabalho. Gosto de perceber o modo como a cidade se movimenta, ver as cores que se formam conforme as horas correm, compreender os encontros ou – exatamente o oposto – notar a maneira como deixamos escapar sentimentos, projetos e pessoas quando as distâncias passam a ser longas demais.

Outro dia, poucos antes da braveza em verde e amarelo que tomou conta o país, resolvi contar: em menos de dois quilômetros, quatro motoristas estacionaram sobre a faixa de pedestres, dois cruzaram por ela apesar dos que aguardávamos para atravessar, uma jovem de corpo esguio e passos largos jogou seu lixo na calçada, uma mãe incentivou o filho pequeno a fazer o mesmo no jardim do parque e um homem de meia idade saudou um ciclista com buzina e palavrões. Na volta para casa, peguei um táxi, pensando naquilo tudo enquanto o taxista acessava o Facebook pelo celular grudado no painel do carro.

[Pois é].

Sou a favor dos protestos contra o que incomoda, aborrece ou indigna, desde que os participantes, para um lado ou para o outro, de fato compreendam o contexto das manifestações e suas consequências, tratem as diferenças com respeito e acreditem nas bandeiras que carregam. Sou contra a corrupção, indiscutivelmente. Mas acho, para além do que temos assistido, que está na hora de combatermos também as pequenas contravenções de todo dia.

Por que aceitamos e às vezes até cometemos desvios no trânsito, no trabalho ou na praça? Por que não protestamos, igualmente, contra as pequenas corrupções cotidianas? Por que ainda há tanta gente que fura fila, paga propina, atrasa religiosamente os compromissos, mente para os amigos, investe em desestruturar uma família ou sacaneia o colega de trabalho? Ofender quem pensa diferente faz parte do pacote? O que cada um de nós realiza, efetivamente, na construção diária do país de riso e glória de que nos falava o mestre Drummond?

[Um mundo enfim ordenado, uma pátria sem fronteiras, uma terra sem bandeiras, sem igrejas nem quarteis, sem dor, sem febre, sem outro, um jeito só de viver].

Temos todos os nossos desgastes, íntimos e intransferíveis, feitos das ausências alheias, das saudades, do frio que não termina nunca, de um amor não correspondido, de arrependimento ou vontade de dizer o que não se pode, vazio ou falta de sentido, da Lei de Murphy ou da Teoria dos Seis Graus de Separação, do sufoco cotidiano, da profissão ou do casamento, do vizinho barulhento, do computador com vírus, do açúcar que o médico mandou cortar, do trânsito engarrafado, do sono acumulado ou da tensão de um dia inteiro de trabalho.

Mas há, de fato, cansaços que deviam ser igualmente combatidos: a violência nas ruas, pedir atestado médico sem estar doente, aceitar o trabalho infantil, trair, contribuir com a poluição e o desperdício de água, o analfabetismo, o atraso, o desrespeito no trânsito, o preconceito, o racismo, a competição desleal, o lucro a qualquer preço, aquele jeitinho para quase tudo que aprendemos que faz parte.

A verdade é que não faz.

Protestar contra o sistema, a política ou a corrupção, na maior parte das vezes, é mais fácil que mudar em nós mesmos comportamentos nocivos. Mas o fato é que atitudes individuais externas às regras da boa convivência e do bem coletivo também fazem mal, e muito, à vida pública e ao país que nos abriga.

outono

Apesar dos protestos alheios, sempre adorei os dias de calor, abrir a janela felicíssima com o quente que vinha de fora, aproveitar os minutos que sobravam do almoço plantada debaixo do sol como uma planta que precisasse da fotossíntese para seguir, olhar atrás do vidro a profusão de vermelhos e amarelos e cinzas e verdes do entardecer, pensar no quanto faz bem viver embalada pela ideia de que, no verão, a vida pesa menos. Mas o outono, oficialmente inaugurado aos 20 dias do mês de março, tem seu lugar; é certo que tem – e significados interessantes.

Para maias, astecas, chineses, hindus e japoneses, outono é tempo das mudanças. Segundo a canção, é a chuva chovendo, a conversa ribeira das águas de março; é o fim da canseira. De acordo com o olhar de dois anos atrás, e ainda hoje, é uma temporada de transformações, de colher e ver as folhas que caem, amarelas.

Conforme a Física, é a época em que a luz solar incide perpendicularmente sobre o Equador, as temperaturas estão mais amenas, os dois hemisférios ficam igualmente iluminados, dias e noites têm duração semelhante e o ar, menos umidade. Pelos cálculos do Instituto Nacional de Tempo, Clima e Transformações, a previsão é outra: mudanças bruscas no céu e formação de nevoeiros que terão se dissipado até o fim da temporada.

[Ufa].

Outono é tempo de projeto novo, fôlego novo, caminho novo; e cuidar dos afetos de sempre e plantar as sementes à espera de semeadura, cada uma com exigências muitíssimo particulares, terras com alto teor de matéria orgânica e água uma vez por dia para as mudas da Habanero Red, um pouco de calcário no canteiro da Chapéu de Bispo, as violetas que parecem sufocadas quando fechamos as cortinas, o verde plástico das samambaias, dependuradas e firmes como poucas coisas no mundo conseguem ser ao mesmo tempo, casca de ovo e borra de café para adubar as acerolas e um pouco de conversa, que no final das contas não deve fazer mal.

É tempo de leitura nova e descobrir, pelas páginas que se seguem, as dores do homem que, quando menino, usava calças curtas e pensava que a vida era uma fita em série e, crescido já, de calças compridas, continuou pensando do mesmo modo, de maneira que, quando uma coisa triste tinha de acontecer, acontecia mesmo.

– É o diabo.

Enquanto o verão remete a leveza, simplicidade e movimento, o outono lembra faxina, arrumação, reencontrar o foco, planejar outro caminho, voltar a sorrir também com o espírito, e não apenas com os dentes. Se um abriga chegadas e reencontros [e também algumas idas, e às vezes nem dá tempo de dizer adeus], o outro guarda a decisão, difícil, mas certeira, de deixar, transformar, virar a página.

Se franceses, paquistaneses, chineses e holandeses eram capazes de viver com gramáticas e relações em que nunca houve a dor da ausência, por que não a gente? Saudade, afinal, faz parte da lista das palavras [é a sétima] mais difíceis de traduzir do mundo – só perde para ilunga [alguém disposto a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez”, no idioma africano Tshiluba], shlimazi [“alguém cronicamente azarado”, em ídiche] e outras quatro que não lembro mais.

Outono é tempo de alimentar a paciência, investir nos afetos mais serenos, manter a casa arrumada, a mesa, as estantes, os armários e as lembranças, aprender receitas novas, o ponto certo, alecrim e molho de café.

[Delícia].

Enquanto o verão se embalava com um cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola e a rima segundo a qual não precisa sofrer para saber o que é melhor para você, no outono os sons têm um tom a menos e as receitas, um condimento a mais. Se um abria espaço para música alta e caipirinha, o outro costuma ser de novos ares, desfazer do apego, do medo e do aconchego, jogar fora os papéis que não servem, e também certas histórias e as faltas, lavar a alma com a chuva que cai em profusão, exatamente como a canção diz que faz.

as melhores noites

Às vezes elas começam de quando menos se espera, um acaso no supermercado, um pedido sem compromisso, um dia de folga em que não há nada além de estar, nem relógio nem telefone nem obrigação, nada além do encontro que faz rir, da rede na varanda, dos discos e das panelas; nada. Às vezes é o contrário e elas se anunciam deliciosas desde o primeiro minuto, tudo planejado, marcado e combinado desde o início, como as linhas do romance que o professor de jornalismo usava como exemplo dos começos perfeitos:

– Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

As melhores noites têm as melhores companhias, nem que seja a gente mesmo, livro, música, as plantas à espera de poda, rega e um dedo de conversa, liberdade, lembrança, faxina, pizza e depois chocolate, ou então os amigos que chegam, uns depois os outros, pratos e copos à mesa, conversa pra mais de metro e de vez em quando as 35 doses de rum destinadas às ocasiões mais especiais da vida.

Às vezes elas são como as melhores chegadas, que fazem dançar a dança dos dias felizes e às vezes madrugadas, tronco leve, sorriso escancarado, disposição para a graça de qualquer coisa, a qualquer hora, brilho no olho e um efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa.

Às vezes é o contrário, e elas se postam quietinhas no sofá, diante da TV, silenciosas e brancas como a bruma do soneto, de repente e não mais, como se o mundo estivesse inteiro livre do barulho, do trânsito e das seca-pimenteiras, como se a gente fosse eficiente o bastante, inteligente o tempo todo e sereno o suficiente para não estragar as coisas nas temporadas em que devia apenas agradecer. As melhores noites têm o melhor cheiro, a melhor textura. São macias como parecem ser as nuvens, e de um perfume suave como aquele que fica no travesseiro.

As melhores noites têm a melhor cor, azul amarelo vermelho verde preto e a soma de todos os tons a serviço dos afetos, da vontade e da simplicidade, ama, come, conversa, repete, diz as palavras inventadas, ama de novo, conversa mais, repete, conta dos planos para o ano novo, ama de novo, conversa mais, repete. Às vezes elas são como a nostalgia dos dias da infância, levinhas e açucaradas, a foto que registrou a gente pedalando no sol como se o mundo inteiro coubesse num sol, vestido listrado e chinelinhos tamanho 20, aquela nostalgia.

Às vezes é o contrário, e elas se mostram impróprias para menores, velozes, quase delirantes, um pouco irresponsáveis, vodca ou vinho, rock ou samba, sozinho ou acompanhado, na rua ou em casa, publicável ou nem e de herança, na manhã seguinte, a cabeça dói, o estômago dói, até as batatas da perna em determinadas ocasiões doem, mas o coração agradece. Às vezes elas simplesmente são, e terminam com a canção perfeita para uma noite perfeita, sem explicação ou exigência, sem peso ou provocação, no volume certo, no compasso certo, no tempo certo.

Sim, tudo agora está no seu lugar
O Universo até parece conspirar pra que não seja em vão
Tanto tempo esperando esse amor…

As melhores noites têm as melhores trilhas sonoras.

obrigada, 2015 | seja bem-vindo, 2016

Foi um ano duro, certamente. A economia, a política, os humores e o corpo apresentaram sinais de desgaste que espero sejam suavizados nesta nova temporada. Tomei nota sobre o que escreveu o professor: “Estude seu viver, observe sua deriva”, o que nos coloca para andar, o que acorda a nossa imaginação, o que estimula a nossa energia. Escrevi um pequeno dicionário para o ano que começava, A de alimentos orgânicos, água e alongamento, B de bicicleta, chás e crônicas, diversão e discos, escrever, foco, gim com água tônica, Here Comes the Sun, inspirações, jazz e jornalismo, Kind of Blue, leveza sempre que possível [nem sempre foi], movimento, Nina Simone, óculos, paciência e perseverança, queijo sem lactose, respirar profundo, sol e sossego, tom maior, utopias possíveis, Vitória, Waffle, xampu com cheiro bom, Yin-Yang e zarpar quando fosse preciso. Por certa indisciplina, deixei mais do que devia dele para trás.

Aprendi que grandes realizações exigem atenção aos pequenos começos. Entendi que as convenções, ao contrário, produzem condenados, como a pressa que esquece a natureza do tempo, a ambição que ignora os limites do espaço, a vaidade dos que valorizam o umbigo, o espelho e o poder no lugar do que convém. Vi um pouco mais ainda sobre a vaidade dos homens e senti ainda mais forte minha convicção de que melhor que o poder é a potência, melhor que o acúmulo é a permanência, melhor que o exagero é o equilíbrio, melhor que a posse é o sentido. Ouvi outra vez menos música do que gostaria. Li Cartas Extraordinárias – e E.B. White tem toda a razão: esperança é o que nos resta em tempos difíceis.

Cozinhei como terapia. Optei sempre que possível pelos alimentos orgânicos, reaproveitei as sobras das panelas e separei o lixo seco do úmido, em pequenas tentativas diárias de fazer algo pela sobrevivência do planeta. Segui firme com a acupuntura, mas nem tanto com a bicicleta. Comprei um bonsai, plantei couve, limão e rabanetes, colhi cogumelos e romãs em miniatura. Fui menos grata do que deveria. Torci com o coração inteiro para que aquele otimismo fosse tão logo também meu, que tenho tido mais trabalho por fazer que fé em certos tipos de homens e mulheres, mais dúvidas que disposição para ginástica, mais medo de determinados vivos que da maioria dos mortos. Desejei igualmente que aquela frase de cinema se tornasse a cada dia mais minha, de todos nós:

– Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida.

Obrigada, 2015.
Seja bem-vindo, 2016.

desde o fim até o começo

Finais de ano são um desafio em si mesmos. O tempo encurta. O barulho aumenta. O clima esquenta. O ritmo acelera. A respiração segue a cadência do mundo e pesa. Mesmo que a experiência de períodos anteriores garanta que em breve as coisas se acalmam, o equilíbrio construído a duras penas nos meses que ficam para trás ameaça ruir. A lista de tarefas, exatamente como o preço do feijão, o gás, a luz, o telefone e o operário, não cabe no poema – porque o poema, senhores, está fechado, e não há vagas.

As exigências são inúmeras: dar conta das promessas que não saíram do papel, comprar os presentes do Natal, escolher as vestes do Ano Novo, preparar o cardápio da ceia, buscar os parentes que chegam de longe, acertar as contas, ajeitar a casa, limpar os papéis, a faxina no armário, a festa da firma, o amigo secreto, aquilo tudo.

Por puro pragmatismo, caminhamos rumo a resultados imediatos para questões urgentes, como se fôssemos bombeiros que correm contra o relógio para salvar uma casa em chamas, obrigação, utilidade, cozinha, entrega, família, compra, pedaço, cobrança, criatividade, força, prato, olho, faxina, planejamento, analgésico, compromisso, reunião, prazo de entrega, encontro, banco, jantar, exame, encanador, um caminhão de tarefas à espera de resoluções, a vida inteira. O que sobra à contemplação é quase nada.

Felizmente, os começos de ano são o justo oposto, porque guardam em si uma dose extra de esperança no futuro e uma extraordinária disposição para recolocar as coisas na perspectiva da generosidade com o mundo, com os outros e com nós mesmos.

Separados do peso por um pequeno espaço de tempo e tomados pela insustentável leveza do sol, os primeiros dias da nova temporada parecem feitos sob medida para a empreitada de pedalar sem desculpas, para a promessa de reencontrar os queridos de modo mais habitual, para os projetos que esperam na gaveta, para o cardápio à base de folhas frescas, legumes orgânicos e frutas da estação, para o calor, a simplicidade, a fé e o movimento.

“Estude seu viver, observe sua deriva”, escreve um professor que tem por missão despertar a capacidade de utilizar potenciais criativos para impulsionar as mudanças desejadas por seus aprendizes. Cada passo, cada reação e cada nova forma de pensar surgida entre uma e outra lição são fundamentais, ele anota; o que nos coloca para andar, o que acorda a nossa imaginação, o que estimula a nossa energia.

Talvez por isto, tão logo janeiro se aproxime, reservo uma noite calma, escolho as canções, tomo um lápis de boa ponta, os projetos, as metas e os sonhos e realizo o ritual igualmente silencioso de passar a limpo a agenda do ano, preenchendo o novo volume com aniversariantes e telefones de emergência, compromissos e desejos.

Costuma ser exatamente deste modo, como uma ciência poeticamente exata, na medida da esperança: em que médico voltar e quando, as contas a vencer, os contatos que preciso retomar, rever anotações, olhar para trás, avaliar projetos, reorganizar desejos, analisar feitos, tomar nota frescas do que for preciso e apagar o resto, com todo o desapego do mundo. Terminada a liturgia, estou pronta para seguir em frente.

o sétimo dia [ou obrigada, senhor sacks]

Oliver Sacks partiu, conforme havia anunciado que faria. Seis meses atrás, o neurologista e escritor de olhos frágeis e mente brilhante explicou que em breve morreria por causa de um câncer múltiplo contra o qual os médicos não podiam fazer mais nada. Suas metas para os meses que restavam eram viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que pudesse, aprofundar amizades, dizer adeus aos que amava, escrever mais, viajar se tivesse forças para tanto, alcançar novos níveis de entendimento e discernimento, ter um pouco de diversão e cometer algumas tolices.

[Espero profundamente que ele tenha conseguido].

O otimismo inspirador do médico míope que brindou a literatura com visões poéticas a respeito do cérebro caiu como uma luva nos dias que se seguiram, embalando o caos com a paz de um tempo fora do tempo, como ele mesmo costumava dizer, sobre os dias que seus antepassados guardavam, por ordem da religião judaica.

Seus pais tinham imensa reverência ao quarto mandamento dos judeus – “Lembrarás e respeitarás o dia do shabat” – e o sétimo dia, segundo as memórias do escritor de olhos frágeis e mente brilhante, era completamente diferente do resto da semana. Trabalhar não podia, nem usar o telefone, acender as luzes, ligar o fogão. A família reunida para a primeira refeição agradecia pela comida e caminhava até a sinagoga. Depois, o destino era a casa de uma tia, vinho tinto, pão de mel e gelatina de beterraba.

Com a chegada dos 18 anos de idade, os hábitos religiosos ficaram para trás. Oliver Sacks mudou de cidade, concluiu os estudos em Medicina, rendeu-se ao uso de anfetaminas e sofreu para assumir que gostava de meninos. Os vazios herdados de cada uma das ações anteriores e uns outros passaram a ser lentamente preenchidos com o trabalho obstinado em um hospital para doentes crônicos em Nova York.

Fascinado pelas biografias de seus pacientes, o escritor de olhos frágeis e mente brilhante viveu as décadas seguintes contando as histórias ouvidas no consultório. Em dezembro de 2014, terminou a própria autobiografia. Poucos dias depois de entregar o livro à editora, o médico míope que brindou a literatura com visões poéticas a respeito do cérebro descobriu o câncer contra o qual os médicos não podiam fazer mais nada.

Escreveu também a respeito, e sobre sua tentativa de acertar as contas com o mundo:

– Sinto uma súbita nitidez de foco e de perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso me concentrar em mim, no meu trabalho, nos meus amigos. Não vou mais assistir ao noticiário na televisão toda noite. Não darei mais atenção à política ou ao aquecimento global. Isso não é indiferença, mas distanciamento – eu ainda me preocupo muito com o Oriente Médio, aquecimento global, o crescimento da desigualdade, mas esses assuntos não me cabem mais. Eles pertencem ao futuro.

Enquanto o corpo ficava cada vez mais enfraquecido pelo câncer, seus pensamentos andavam, nas palavras dele, mais e mais centrados no que significava viver uma vida boa e conquistar o sentimento de estar em paz comigo mesmo. As lembranças voltavam ao shabat da infância, o dia do descanso que em breve seriam todos os dias.

O resto foi aquele: o sujeito nascido em 1933 decidiu ajeitar o andamento, diminuir o ritmo, reduzir o quanto possível o caminho entre nós e o que nos faz realmente felizes. Oliver Sacks optou por fazer com os meses que restavam o que talvez devêssemos praticar um pouco todos os dias, independentemente do relógio da existência, dos desígnios divinos, dos acidentes de percurso ou dos males do corpo: apostar no essencial, entender o que nos move, estar próximo do que nos emociona, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém.

a lição dos buldogues

bulldog-ingles-caraBuldogues franceses não precisam de grandes espaços para serem felizes. Vivem em lugares pequenos, próximos aos donos daquele afeto todo. Buldogues franceses são afetuosos por natureza. Segundo consta, o pior dos castigos para eles é a solidão.

Apesar da aparência marrenta, são suaves e bem-humorados. Preferem as horas frescas do dia ou a então calma do sofá. Segundo consta, são cães de pensamento solto: fazem as coisas como bem entendem, daquele modo levinho de que são feitas as tortas que escapam da receita, determinados encontros e as tardes de domingo.

Buldogues franceses são em geral silenciosos como um dogon, quase preguiçosos, preferem o repouso ao excesso de movimento, gostam de servir e experimentar novos sabores. Segundo consta, precisam de contato constante com humanos.

Buldogues brincam sempre que possível, como devia ser, em certos momentos, a postura minha, sua, de todos nós: rir apesar das ausências, dançar a dança dos dias felizes das perdas, levar ao pé literalmente da letra a lição gingada segundo a qual quando você para de brincar de mexer o coração, ao invés de bater, padece.

Buldogues são livres como a cronista de óculos grossos e coração apertado escreveu que era [ou queria ser] – livre para rir ou chorar, lembrar ou esquecer, sentir saudades de ontem e, ao mesmo tempo, construir os mais belos planos para o dia de amanhã, livre para desenhar o rosto do amor dela apesar de não saber desenhar e porque já não corria o risco de vê-lo chegar de repente e se botar cinicamente a rir do sentimento e do desenho dela.

Segundo consta, a cara achatada dos buldogues franceses exige respiração pausada e um pouco de sombra, distância da água e toques sutis. Buldogues franceses adoram um cafuné. Apesar da leveza, da liberdade e da brincadeira, buldogues franceses envelhecem rápido: aos 12, 13 anos, estão próximos do fim da linha, mas mantêm a alegria e a liberdade dos primeiros tempos.

Com Bilbo, o buldogue francês com quem aprendi o que agora escrevo, foi assim. Um dia, dois veterinários diagnosticaram que ele tinha pouco tempo de vida. Disseram que seu coração era do tamanho da caixa toráxica e que seus rins não funcionavam bem. Receitaram remédios, ração especial, manhã, tarde e noite de privações e limites. Ele detestou, emagreceu, ficou tão mal-humorado e deprimido que seus donos decidiram deixá-lo em paz para que fosse feliz, mesmo que por pouco tempo.

Livre das pílulas de velho e da comida de doente, Bilbo voltou a viver como um buldogue francês típico, adepto do riso e da suavidade.

Foi a lição, mesmo que involuntária, instintiva, animal: saudar mais a vida que a morte, mais o riso que a doença, mais a dança que as restrições, como devemos também fazer, sempre que possível, respirar, sorrir, conversar, respeitar, uma mão, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, aquilo tudo. Em lugares pequenos, com os afetos por perto, com bom humor e pensamento solto, a calma do sofá, a leveza das tardes de domingo, a lição gingada sobre o movimento e as tortas que escapam da receita.