o equilibrista

– Por que você fez isso?, alguém perguntou ao equilibrista, tão logo ele terminou de atravessar as torres gêmeas do World Trade Center, em um cabo de aço estendido, sem proteção e sem autorização, a 417 metros de altura.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo: sabe que às vezes faz bem não saber?

Quando a gente não sabe, pensei, a cabeça deve doer menos a tristeza dos dias turbulentos, o abdome deve sustentar mais o peso das vértebras retorcidas. A gente, quando não sabe, investe com mais pureza nos encontros, nos diálogos, no prazer e na arte. Protegidas pela graça da ignorância, acolhidas pelo benefício do desconhecimento, mimadas pela dádiva da inocência, as madrugadas passam quietas e a ansiedade respira no compasso certo – ou o mais perto possível.

As horas tendem a pesar menos quando a gente não sabe.

Ao contrário das estações em que chove dentro da gente, mesmo que lá fora faça sol, quando não sabe a gente experimenta a liberdade de se dedicar com menos peso à busca de respostas, sejam elas metafísicas ou prosaicas, sejam elas a respeito dos rumos do jornalismo, dos versos de Bob Dylan ou do sentido da vida, sejam elas sobre o teor alcoólico do gim ou sobre as razões daquele equilibrista.

O equilibrista, a propósito:

Às 7 da manhã do dia 7 de agosto de 1974, um francesinho chamado Philippe Petit estendeu um cabo de aço entre as torres gêmeas do World Trade Center e atravessou, sem proteção e sem autorização, o espaço entre os prédios que Osama Bin Laden mandaria pelos ares em 11 de setembro de 2001. Petit tinha 24 anos, vestia preto e cruzou o vão entre as edificações a 417 metros de altura, por oito vezes, durante pouco mais de 40 minutos. Acabou na delegacia, feliz da vida.

A traquinagem foi exaustivamente planejada. Petit alugou um helicóptero para fotografar o topo das torres, convenceu um executivo do 82º andar a ajudá-lo, fingiu ser repórter de uma revista inventada para entrevistar o síndico.

Enquanto fazia malabarismos na rua para se manter, observou, fotografou. Tomou notas. Subiu e desceu do complexo que ainda passaria por um incêndio em 13 de fevereiro de 1975, um atentado a bomba em 26 de fevereiro de 1993 e um assalto em 14 de janeiro de 1998. Acompanhou a rotina de funcionários e frequentadores e até decifrou a combinação que abria uma das portas: 7-7-4-3-5.

Como a maioria absoluta dos sonhares, Philippe Petit ignorou os riscos, os ventos, a umidade do ar e as exigências da polícia e fez – palavras dele – aquilo que tinha de fazer. Andar sobre fios era paixão antiga, daquelas como na canção.

[Basta um encontro por acaso e pronto: começa tudo outra vez].

Petit já havia passeado suspenso entre as duas torres da Catedral de Notre Dame e pela ponte que atravessa a baía de Sidney, na Austrália. Para atravessar as torres gêmeas, contou com a ajuda de um amigo e da namorada. Também teve alguma sorte, declarou em entrevistas que viriam depois da façanha. Pensou em tudo, minúcia por minúcia, desde o transporte até o modo como faria um cabo de 200 quilos atravessar de um ponto ao outro – no fim das contas decidiu usar um arco e uma flecha para, então, caminhar sobre a corda bamba, deitar e dançar um pouco.

O nome da coisa é funambulismo.

A vara de equilíbrio pesava aproximadamente 25 quilos. Por toda a extensão da linha, havia cabos pendendo em direção ao chão. A função deles era reduzir as vibrações na superfície da corda bamba e, também, amenizar a sensação de vazio que dá olhar para baixo quando não há nada para ver, nem paisagem nem um rosto conhecido, nem formas nem perspectivas; nada.

– Por que você fez isso?, alguém obviamente perguntou.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo – vocês já sabem: sabe que às vezes faz bem não saber?

pequeno dicionário para o ano que começou

A
A pé, sempre que possível
Amor, todos os dias
Arte [faz parte]

B
Batata doce
Brecha na agenda
Blog, ano 13

C
Celular em modo offline
Cozinha afetiva
Camarão não pode

D
Desapego
Dores sob controle
Drummond, Carmélia, Clarice, Borges, Cortázar

E
Equilíbrio
Escrito à mão
Em paz com a vida e o que ela me traz

F
Forno e fogão
Filtro 40
Fé [que a fé não costuma faiá]

G
Grafite 1.9
Gangorra eu não gosto
Gil, Caetano, Chico, Tom, Sampaio, Melodia, Aldir

H
Há folhas no meu coração [é o tempo]

I
Inspiração
Inspiração
Inspiração

J
Justo o oposto
Janelas abertas
Jazz, uma vez mais

K
Kind of

L
Leveza, sempre que possível
Livro novo, quem sabe
Leituras

M
Menos é mais
Madrugada
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo

N
Nina Simone, um ano mais
Nada contra
Nada consta

O
Óculos
Oração
Ouvir, de fato

P
Pedalar
Praticar
Produzir

Q
Quereres
Quitanda
Quotes

R
Recomeços
Reencontros
Releituras

S
Semente
Simplicidade
Ser livre é poder escolher ao que se prender

T
Todo dia é dia de viver
Tradição, nas ocasiões em que sim [nas outras: revolução]
Then you can star to make it better

U
Uma coisa de cada vez
Unidade, união
Umbigo não é o centro do mundo

V
Violão
Vestido, ainda sempre que possível
Verde em volta

W
White, E.B.: Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis
Waffle
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
X nas boas escolhas

Y
Yin
Yang
Yin-Yang

Z
Zelo
Zoom, para ver de perto
Zarpar quando for preciso, como antes.

do dia que encontrei carmélia

Apresentação
Por Milson Henriques

Prefácio do livro Quase um Segundo, 2013, Editora Cousa

quase_capaHá algum tempo, uma insônia braba me pegou e afagou meu ego, já que reza a lenda ela só ataca gente inteligente. Junto, uma necessidade woodyalleana de caminhar (procurar?) pela madrugada, como fazia habitualmente nos meados do recente século passado. Alguma força me arrastou para o centro da cidade, me deixei levar curiosa e corajosamente. Larguei o Fusca na Costa Pereira, segui pela Rua Sete e… não acreditei!! O Britz Bar reaberto?!? Impossível. Acabou creio que no final dos anos setenta!! Entorpecido de surpresa, caminhei com passos de mendigo medroso e… quem estava lá? Impossível!!! Carmélia?!? Mas ela mora naquela estrelinha azul que tanto desejou!! Não pode ser!! Claro que não!! Ela estava na mesa com apenas uma menina pequena, e a gorda nunca foi chegada a criança!

Minha curiosidade foi enorme. As duas estavam num papo que parecia sério, embora às vezes dessem gargalhadas. Cheguei por trás de mansinho para não ser visto, a menininha me olhou. Cúmplice, fingiu que não. Mas reconheci aquele olhar. De onde? Nunca havia visto aquela criança, principalmente naquele antro de jornalistas, comunistas, biriteiros, hippies, gays, viciados, cabeludos e outras espécies que a Tradicional Família teme e condena. Pensei numa hipótese louca: talvez eu conheça aquele olhar lá do meu tempo futuro… A danadinha tinha um olhar sapeca, doce e, como já disse, cúmplice, mas com uma pitada triste da lua minguante. Mas quando me aproximei as duas foram sumindo, com o Britz…

Tenho uma atração pelo começo e pelo fim (por acaso gosto da palavra ocaso), a largada e a chegada, a infância e a velhice. São as duas fases do ser humano que mais gosto de conversar. Mas conversar o quê, se em geral a criança ainda não sentiu a dor da perda, a reconquista da paz, nunca leu Pessoa, Florbela, Drummond, nunca ouviu Tom Jobim, Chet Baker, nunca chorou ouvindo o Adágio de Albinoni? E o idoso, que nem se digna a me responder, porque já enterrou todas as suas mágoas e dores, cobrindo tudo com a areia grossa da amargura?

Eu mesmo já estou sentindo a leve impressão de que já vou tarde…

Não sei se me apaixonei pelos textos por causa da autora ou se me apaixonei pela autora por causa dos seus textos. As duas possibilidades estão certas. O que importa é Ana Laura, que, adulta, possui a pureza sábia da criança e o desencanto do idoso, embora ainda conserve no peito um fio grosso de esperança. De quê já é outra história. Ninguém pode continuar insensível depois de ler isto: “Penso em como a gente devia, mais que tudo, saudar os que estão vivos, um sorriso, uma conversa, respeito, uma mão, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, para que, quando partirem, seja fácil comer, beber, colorir, receber, dançar, iluminar e cantar em homenagem a eles. Chorar também pode, mas de outro tipo de dor, conforto talvez, de saber que fez o melhor possível enquanto era tempo, e aí resta apenas celebrar”. E mais isto: “(…) aceitar que um mesmo olhar sobre uma mesmíssima coisa é um outro olhar sobre outra coisa, porque num dia o que era amor se torna só indiferença e depois mais nada, e o vazio se transforma em outro amor e depois ninguém sabe”.

Ao contrário de muitos poetas e escritores, a pessoa Ana Laura é exatamente igual ao que escreve. Porcelana. Cristal. Às vezes o tilintar alegre do encontro de taças, às vezes o badalar pesado e melancólico do sino da velha igreja. Gota de orvalho na teia, às vezes aranha devoradora, às vezes a mosca perdida, às vezes a própria teia. Com toda sua aparente leveza, ela também às vezes (sempre?) responde, questiona, discorda (consegue ser viciada em Coca Cola sem ferir nossa amizade!). Mas tudo com tanta doçura, tanto ternura sem pieguice, tanta verdade corajosa sem magoar. Ana Laura não tem contraindicação.

Quando a gente mastiga um suculento morango sente uma gastura capixaba lá no final dos dentes, uma pequena ardência refrigerada que nos faz salivar de prazer, saca? Ana Laura às vezes é exatamente assim. Ler Ana Laura é, como na madrugada, ouvir o canto de um galo perdido naquele distante imaginário lugar onde temos a impressão que o nosso ideal se encontra escondido. Conversar com Ana Laura é sentir em você um olhar danadinho, sapeca, doce, cúmplice, mas com uma pitada triste de lua minguante…

Epa! Então era ela!! Eu sabia que aquilo não foi um sonho!! Obrigado, Ana Laura, sempre tive certeza que um dia iria reencontrar você!

(Sempre defini felicidade como momentos. Por exemplo, o momento do telefonema me convidando para a honra – e responsa – de prefaciar este livro é minha mais nova definição).

E você, futuro leitor, que está com o livro nas mãos, parabéns. Se comprou, ganhou, roubou, pediu emprestado, seja lá como for que foi parar em seu poder, prepare corpo e alma para sentir o que senti. Mas prepare mesmo. Se não puder ler à tardinha, embaixo de uma árvore (daquelas antigas, cheia de pássaros e histórias para contar), numa praia distante, leia em sua casa, mas DE MADRUGADA, para ler com calma. Abra um bom vinho, vodca ou cachaça – a preferência é sua. Se não tiver, não tem importância, leia a seco mesmo, porque garanto que você vai tomar um porre de ternura, abandono gostoso, filosofia, amores, desamores, bares, butecos, doses, doces, doçuras. Garanto que antes do dia nascer irá encontrar um amor guardado dentro do pote de guardar amores.

Tome um porre de Ana Laura, não tem perigo de ressaca.
Ou tem, sei lá.

autorretrato número dois

O vestido saco confirma: é sábado, o dia favorito dos poetas. Os cachos displicentemente amarrados em um coque e as unhas cortadas rente escancaram o desejo de simplicidade. O resto do corpo aponta para carboidrato em excesso, Coca Cola além da conta, ausência do alongamento prescrito pelo doutor e uma espécie de síndrome leve das pernas inquietas – os roxos estão por toda a parte.

Mantenho o rádio desligado enquanto a playlist imaginária começa a tocar uma versão comovente de “Dindi”, segue com um tango do qual sei absolutamente nada, emenda o piano de “Drume Negrita” e termina com uma melodia tristíssima da velha guarda de Cuba, pero si un atardecer las gardenias de mi amor se mueren es porque han adivinado que tu amor me ha traicionado porque existe otro querer.

Os meses correm fora de controle e eu continuo sem gostar de bife de fígado.

Sigo também me submetendo a uma disciplina atroz em troca de textos. Continuo a batalha íntima e intransferível para escrever parágrafos mais curtos. Exatamente como Gabo, com seus modos de colombiano errante e nostálgico, só que com resultado infinitamente menos arrebatador, luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence. Mas sou dedicada e insisto, apesar dos desvios.

Ao contrário dele, que criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], não estou convencida de que o mundo seria o mesmo sem a literatura. Sem a polícia, sou forçada a concordar: as coisas seriam diferentes.

Ainda acho que minha verdadeira vocação reside na cozinha. Gosto de estudar o tempo certo do cozimento, a textura conveniente dos ingredientes, a intensidade exata do fogo, a forma adequada do tabuleiro, equilíbrio no tempero, harmonia na textura, paciência na espera. Às vezes os amigos chegam, às vezes somos só nós, cantando e dançando diante dos pratos mais simples como se fôssemos convidados do banquete preparado por Babette, redimidos pela boa mesa e plenamente conscientes de que o Céu também se faz nos pequenos encantos da vida.

Sempre que posso, aliás, advogo a favor dos pequenos encantos: cozinhar os pratos herdados dos livros de receitas em letra miúda e depois comê-los, ver a cidade do alto ou os prédios antigos em torno, entrar a madrugada fresca entre confissões e declarações de amor, rir de tudo, o quanto possível, apesar das faltas.

[Porque, de fato, como escreveram, as pessoas são como a palavra panegírico: uma hora estão e, no instante seguinte, resta apenas a ausência].

Também os persigo, tantas vezes quanto consigo: pedalar pelo bairro, desafinar debaixo do chuveiro, tomar sorvete de cereja com calda de Nutella, fazer silêncio, ouvir do dia, do trabalho, da agonia, dos projetos, das expressões que o dicionário não tem e de um exame que negou as suspeitas mais graves, outra vez rir diante do sol, olhar, conversar, sorrir e a frase do físico, imensamente boa, boa de doer:

– Ser livre é poder escolher ao que se prender.

das corrupções de todo dia

Sempre que possível caminho pelo bairro onde moro ou pelas redondezas do trabalho. Gosto de perceber o modo como a cidade se movimenta, ver as cores que se formam conforme as horas correm, compreender os encontros ou – exatamente o oposto – notar a maneira como deixamos escapar sentimentos, projetos e pessoas quando as distâncias passam a ser longas demais.

Outro dia, poucos antes da braveza em verde e amarelo que tomou conta o país, resolvi contar: em menos de dois quilômetros, quatro motoristas estacionaram sobre a faixa de pedestres, dois cruzaram por ela apesar dos que aguardávamos para atravessar, uma jovem de corpo esguio e passos largos jogou seu lixo na calçada, uma mãe incentivou o filho pequeno a fazer o mesmo no jardim do parque e um homem de meia idade saudou um ciclista com buzina e palavrões. Na volta para casa, peguei um táxi, pensando naquilo tudo enquanto o taxista acessava o Facebook pelo celular grudado no painel do carro.

[Pois é].

Sou a favor dos protestos contra o que incomoda, aborrece ou indigna, desde que os participantes, para um lado ou para o outro, de fato compreendam o contexto das manifestações e suas consequências, tratem as diferenças com respeito e acreditem nas bandeiras que carregam. Sou contra a corrupção, indiscutivelmente. Mas acho, para além do que temos assistido, que está na hora de combatermos também as pequenas contravenções de todo dia.

Por que aceitamos e às vezes até cometemos desvios no trânsito, no trabalho ou na praça? Por que não protestamos, igualmente, contra as pequenas corrupções cotidianas? Por que ainda há tanta gente que fura fila, paga propina, atrasa religiosamente os compromissos, mente para os amigos, investe em desestruturar uma família ou sacaneia o colega de trabalho? Ofender quem pensa diferente faz parte do pacote? O que cada um de nós realiza, efetivamente, na construção diária do país de riso e glória de que nos falava o mestre Drummond?

[Um mundo enfim ordenado, uma pátria sem fronteiras, uma terra sem bandeiras, sem igrejas nem quarteis, sem dor, sem febre, sem outro, um jeito só de viver].

Temos todos os nossos desgastes, íntimos e intransferíveis, feitos das ausências alheias, das saudades, do frio que não termina nunca, de um amor não correspondido, de arrependimento ou vontade de dizer o que não se pode, vazio ou falta de sentido, da Lei de Murphy ou da Teoria dos Seis Graus de Separação, do sufoco cotidiano, da profissão ou do casamento, do vizinho barulhento, do computador com vírus, do açúcar que o médico mandou cortar, do trânsito engarrafado, do sono acumulado ou da tensão de um dia inteiro de trabalho.

Mas há, de fato, cansaços que deviam ser igualmente combatidos: a violência nas ruas, pedir atestado médico sem estar doente, aceitar o trabalho infantil, trair, contribuir com a poluição e o desperdício de água, o analfabetismo, o atraso, o desrespeito no trânsito, o preconceito, o racismo, a competição desleal, o lucro a qualquer preço, aquele jeitinho para quase tudo que aprendemos que faz parte.

A verdade é que não faz.

Protestar contra o sistema, a política ou a corrupção, na maior parte das vezes, é mais fácil que mudar em nós mesmos comportamentos nocivos. Mas o fato é que atitudes individuais externas às regras da boa convivência e do bem coletivo também fazem mal, e muito, à vida pública e ao país que nos abriga.

outono

Apesar dos protestos alheios, sempre adorei os dias de calor, abrir a janela felicíssima com o quente que vinha de fora, aproveitar os minutos que sobravam do almoço plantada debaixo do sol como uma planta que precisasse da fotossíntese para seguir, olhar atrás do vidro a profusão de vermelhos e amarelos e cinzas e verdes do entardecer, pensar no quanto faz bem viver embalada pela ideia de que, no verão, a vida pesa menos. Mas o outono, oficialmente inaugurado aos 20 dias do mês de março, tem seu lugar; é certo que tem – e significados interessantes.

Para maias, astecas, chineses, hindus e japoneses, outono é tempo das mudanças. Segundo a canção, é a chuva chovendo, a conversa ribeira das águas de março; é o fim da canseira. De acordo com o olhar de dois anos atrás, e ainda hoje, é uma temporada de transformações, de colher e ver as folhas que caem, amarelas.

Conforme a Física, é a época em que a luz solar incide perpendicularmente sobre o Equador, as temperaturas estão mais amenas, os dois hemisférios ficam igualmente iluminados, dias e noites têm duração semelhante e o ar, menos umidade. Pelos cálculos do Instituto Nacional de Tempo, Clima e Transformações, a previsão é outra: mudanças bruscas no céu e formação de nevoeiros que terão se dissipado até o fim da temporada.

[Ufa].

Outono é tempo de projeto novo, fôlego novo, caminho novo; e cuidar dos afetos de sempre e plantar as sementes à espera de semeadura, cada uma com exigências muitíssimo particulares, terras com alto teor de matéria orgânica e água uma vez por dia para as mudas da Habanero Red, um pouco de calcário no canteiro da Chapéu de Bispo, as violetas que parecem sufocadas quando fechamos as cortinas, o verde plástico das samambaias, dependuradas e firmes como poucas coisas no mundo conseguem ser ao mesmo tempo, casca de ovo e borra de café para adubar as acerolas e um pouco de conversa, que no final das contas não deve fazer mal.

É tempo de leitura nova e descobrir, pelas páginas que se seguem, as dores do homem que, quando menino, usava calças curtas e pensava que a vida era uma fita em série e, crescido já, de calças compridas, continuou pensando do mesmo modo, de maneira que, quando uma coisa triste tinha de acontecer, acontecia mesmo.

– É o diabo.

Enquanto o verão remete a leveza, simplicidade e movimento, o outono lembra faxina, arrumação, reencontrar o foco, planejar outro caminho, voltar a sorrir também com o espírito, e não apenas com os dentes. Se um abriga chegadas e reencontros [e também algumas idas, e às vezes nem dá tempo de dizer adeus], o outro guarda a decisão, difícil, mas certeira, de deixar, transformar, virar a página.

Se franceses, paquistaneses, chineses e holandeses eram capazes de viver com gramáticas e relações em que nunca houve a dor da ausência, por que não a gente? Saudade, afinal, faz parte da lista das palavras [é a sétima] mais difíceis de traduzir do mundo – só perde para ilunga [alguém disposto a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez”, no idioma africano Tshiluba], shlimazi [“alguém cronicamente azarado”, em ídiche] e outras quatro que não lembro mais.

Outono é tempo de alimentar a paciência, investir nos afetos mais serenos, manter a casa arrumada, a mesa, as estantes, os armários e as lembranças, aprender receitas novas, o ponto certo, alecrim e molho de café.

[Delícia].

Enquanto o verão se embalava com um cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola e a rima segundo a qual não precisa sofrer para saber o que é melhor para você, no outono os sons têm um tom a menos e as receitas, um condimento a mais. Se um abria espaço para música alta e caipirinha, o outro costuma ser de novos ares, desfazer do apego, do medo e do aconchego, jogar fora os papéis que não servem, e também certas histórias e as faltas, lavar a alma com a chuva que cai em profusão, exatamente como a canção diz que faz.

as melhores noites

Às vezes elas começam de quando menos se espera, um acaso no supermercado, um pedido sem compromisso, um dia de folga em que não há nada além de estar, nem relógio nem telefone nem obrigação, nada além do encontro que faz rir, da rede na varanda, dos discos e das panelas; nada. Às vezes é o contrário e elas se anunciam deliciosas desde o primeiro minuto, tudo planejado, marcado e combinado desde o início, como as linhas do romance que o professor de jornalismo usava como exemplo dos começos perfeitos:

– Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

As melhores noites têm as melhores companhias, nem que seja a gente mesmo, livro, música, as plantas à espera de poda, rega e um dedo de conversa, liberdade, lembrança, faxina, pizza e depois chocolate, ou então os amigos que chegam, uns depois os outros, pratos e copos à mesa, conversa pra mais de metro e de vez em quando as 35 doses de rum destinadas às ocasiões mais especiais da vida.

Às vezes elas são como as melhores chegadas, que fazem dançar a dança dos dias felizes e às vezes madrugadas, tronco leve, sorriso escancarado, disposição para a graça de qualquer coisa, a qualquer hora, brilho no olho e um efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa.

Às vezes é o contrário, e elas se postam quietinhas no sofá, diante da TV, silenciosas e brancas como a bruma do soneto, de repente e não mais, como se o mundo estivesse inteiro livre do barulho, do trânsito e das seca-pimenteiras, como se a gente fosse eficiente o bastante, inteligente o tempo todo e sereno o suficiente para não estragar as coisas nas temporadas em que devia apenas agradecer. As melhores noites têm o melhor cheiro, a melhor textura. São macias como parecem ser as nuvens, e de um perfume suave como aquele que fica no travesseiro.

As melhores noites têm a melhor cor, azul amarelo vermelho verde preto e a soma de todos os tons a serviço dos afetos, da vontade e da simplicidade, ama, come, conversa, repete, diz as palavras inventadas, ama de novo, conversa mais, repete, conta dos planos para o ano novo, ama de novo, conversa mais, repete. Às vezes elas são como a nostalgia dos dias da infância, levinhas e açucaradas, a foto que registrou a gente pedalando no sol como se o mundo inteiro coubesse num sol, vestido listrado e chinelinhos tamanho 20, aquela nostalgia.

Às vezes é o contrário, e elas se mostram impróprias para menores, velozes, quase delirantes, um pouco irresponsáveis, vodca ou vinho, rock ou samba, sozinho ou acompanhado, na rua ou em casa, publicável ou nem e de herança, na manhã seguinte, a cabeça dói, o estômago dói, até as batatas da perna em determinadas ocasiões doem, mas o coração agradece. Às vezes elas simplesmente são, e terminam com a canção perfeita para uma noite perfeita, sem explicação ou exigência, sem peso ou provocação, no volume certo, no compasso certo, no tempo certo.

Sim, tudo agora está no seu lugar
O Universo até parece conspirar pra que não seja em vão
Tanto tempo esperando esse amor…

As melhores noites têm as melhores trilhas sonoras.