da série leituras

E AMANHÃ É DOMINGO
Por Clarice Lispector

aspasSegunda-feira é […] sempre a tentativa do começo de vida nova. Façamos cada domingo de noite um réveillon modesto, pois se meia-noite de domingo não é começo de Ano Novo, é começo de semana nova, o que significa fazer planos e fabricar sonhos.

Meus planos se resumem, para esta semana nova, em arrumar finalmente meus papéis, já que a governanta eu não vou ter mesmo. Quanto aos sonhos desculpem, guardo-os para mim, como vocês guardam, com o olhar pensativo, de quem tem direito, os próprios.

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pelo tombamento da crônica número 2

Eu acho que sorvete de cereja com calda de Nutella devia ser tombado como patrimônio imaterial da humanidade, sorvete de cereja com calda de Nutella e Maria Bethania recitando os poemas da sua vida, gim com água tônica, o significado da primeira geladeira e certas canções. O sentimento de alguns poetas e o sorriso dos amores de fato também podiam ganhar o selo de coisa tombada, protegidos e resguardados de qualquer tipo de abalo para todo o sempre, e da mesma maneira os amigos verdadeiros e os primórdios do samba no bar da esquina.

As histórias bonitas e a delicadeza do mundo, quando há [porque nem sempre, infelizmente], deviam ter este selo, exatamente como o escritor sugeriu, tempos atrás, que tivessem as crônicas e os temas caros aos cronistas. Segundo ele, era para o mais imaterial dos estilos literários ser considerado um bem imaterial intocável como a panela de barro feita logo ali – escrevo da Ilha de Vitória, capital do Espírito Santo –, o queijo de Minas, o samba de roda do Recôncavo baiano, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, o frevo de Pernambuco e quem sabe o tapioqueiro da Rua Paissandu.

A crônica seria, então, inscrita no livro de tombos e celebrada como as construções mais valiosas, livre de estragos e avarias, bem ao lado do primeiro gole da cachaça para o santo, do grito do verdureiro para a freguesa bonita que não paga, mas também não leva, do pôr do sol da Praia do Arpoador, do torcedor que fica de costas na hora do pênalti, da rosca de polvilho e do apito da fábrica de tecidos.

Deste modo, o suave exercício sobre o tempo, as boas histórias e a delicadeza das coisas empreendido por mestres como o velho Braga, Drummond, Carmélia, às vezes Clarice e García Márquez quando as lembranças permitiam estariam isentos de estragos e avarias. Seriam, pois, guardados e valorizados para todo o sempre o passarinho que, ao contrário do conde, não tem fábricas, mas sabe cantar e voar; a moça daquela noite em que chovia não a cântaros, mas a bules de chá; a entrevistadora que se espanta quando a entrevistada diz que gosta de gente – não de toda gente, mas de gente que não se chateia à toa nem chateia a gente.

Estariam igualmente isentos de estragos e avarias as mulheres que passam, os estudantes que passam, as comerciárias que passam, os malandros que passam e todos os outros que passam rumo à Praça Costa Pereira. Aquela deliciosa defesa por pratos sem cheiro verde também seria preservada e valorizada para todo o sempre, como também a aventura do garoto que não sabia o que era dormir – e o avô tentava explicar que, quando chegava a noite, as pessoas tiravam a roupa, vestiam uma coisa chamada pijama, olhavam um pouco de televisão e às vezes sonhavam.

Com o tombamento da crônica, Dindi estaria livre de estragos e avarias, preservada e valorizada para todo sempre, amém.

da série leituras

A Quinta História, por Clarice Lispector
Outubro, 1960

Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. O remédio as atrairia como comida que também era. Morreriam. Assim fiz. Realmente morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só abstratamente me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam a quem era de direito, e escalavam os canos do edifício até nosso lar. Foi na hora de fazer a mistura que elas se individualizaram. Comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa; um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis, ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Fria, meticulosa, preparava o elixir da longa morte. Mêdo e rancor guiavam-me. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. A receita estava pronta. Tão bem espalhei o pó que nem se via, como para baratas espertas como eu. Horas depois, no silêncio da casa, da cama imaginei-as subindo uma a uma até a área de serviço, onde o escuro dormia – só as camisas alertas no varal. Acordei em sobressalto, era madrugada. E no chão da área lá estavam elas, duras. Durante a noite eu matara. Amanhecia. Um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Até o ponto em que, na madrugada seguinte, acordo. Ainda sonolenta, atravesso a cozinha. Mais sonolenta ainda está a área, na sua perspectiva de ladrilhos. E à luz primeira, num límpido arroxeado que que distancia tudo, vejo no chão sombras e brancuras. Dezenas de estátuas de baratas espalham-se rígidas. Endurecidas de dentro para fora. Testemunho o primeiro alvorecer de Pompéia. Revejo-lhes a última noite, na orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido aos poucos, e, com movimentos cada vez mais penosos, elas ainda tentam fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto. Outras, assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer a intuição de um molde interno que se petrifica — de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da bôca. Uma, azulada, terá sentido: “quem olhar para dentro, vira estátua”. De minha altura de gente olho a derrocada de um mundo. Começa a amanhecer. Uma ou outra antena escura freme sêca à brisa. Da história anterior, canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Até o ponto em que vejo os monumentos de gesso. Mas olho também para os canos, por onde à noite renovar-se-á uma povoação lenta e viva. Teria eu então que renovar tôdas as noites o açúcar letal? – como quem não dorme mais sem o ritmo de um narcóticos. E tôdas as madrugadas levantar-me-ia sonâmbula? – viciada na tortura de procurar no pavilhão as estátuas que minha noite cansada erguia. Senti um mau prazer na visão de uma dupla de feiticeira, e também o aviso do gêsso que seca. E é por isso que hoje, com orgulho da virtude, ostento secretamente no coração uma placa: “Esta casa foi dedetizada”.

A quinta história chama-se “Uma Alma Refeita”. Começa assim: queixei-me de baratas.

clarice, as preces e os cães

Clarice Lispector, como se sabe, não era exatamente uma pessoa doce, nem a leveza era o seu forte. Mas reza a lenda que um dia ela se virou para um cachorro um pouco neurótico que comia cigarros às vezes ainda acesos, tomava uísque e adorava Coca Cola e declarou:

– Que inveja eu tenho de você, Ulisses, porque você só fica sendo.

O vira-lata havia chegado à casa dos Valente quando os dois filhos da escritora – que, como se sabe, não era exatamente uma pessoa alegre, nem a simplicidade era o seu forte – já estavam crescidos. Sua desobediência crônica, seu gosto pelo malte e pela cafeína e os hábitos de engolir as bitucas dos convidados e deixar sua marca no tapete da sala ficaram famosos em livros e em entrevistas.

Em uma delas, Clarice explicou, daquele jeito dela de explicar, entre triste e distante, arrumou o cão porque precisava amar uma criatura viva que lhe fizesse companhia. “Ulisses é um mestiço, o que garante uma vida mais longa e uma inteligência maior. É um cachorro muito especial”, afirmou, na ocasião. Já em uma de suas histórias infantis, o narrador era um cachorro de nome Ulisses que se orgulhava de “não obedecer sempre, gostar de fazer o que quer e fazer xixi na sala de Clarice”.

Ulisses era, segundo consta e apesar das desobediências, uma boa companhia para a complicada Clarice. Cachorros, afinal, são menos complexos que gente, bem capazes, portanto, de ficar apenas sendo, obedecer sem vaidade, seguir sem orgulho, respirar repetidas vezes, viver daquele modo levinho de que são feitos as tortas que escapam da receita, determinados encontros, os sábados de sol e as tardes de domingo.

Cachorros parecem saber, profundamente, mesmo que não pensem, a lição do livro açucarado de duas primaveras atrás, segundo o qual não há nenhum problema no mundo que não possa ser curado com um banho quente, um copo de uísque – será que é por isso que dizem que o uísque é o cão engarrafado? – e um livro de preces.

[Amém].

Clarice, como se sabe, não era exatamente uma pessoa centrada, nem o otimismo era o seu forte. Um dia escreveu a um amigo: “As pessoas daqui me olham como se eu tivessse vindo direto do Jardim Zoológico. Concordo inteiramente”. Ao marido contou que queria ouvir bobagens que a fizessem esquecer a ruindade do mundo.

Para uma irmã, confessou que achava o mundo todo ligeiramente chato e para outra ironizou: “Conheci várias pessoas simpáticas. Muitas esnobíssimas, de feitio duro e impiedoso, embora sem jamais fazer maldades. Eu acho graça em ouvi-las falar de nobrezas e aristocracias e de me ver sentada no meio delas, com o ar gentil e delicado. Nunca ouvi tanta bobagem séria e irremediável. Gente cheia de certezas e de julgamentos, de vida vazia e entupida de prazeres sociais e delicadezas. É evidente que é preciso conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso. Por mais protetora dos animais que eu seja, a tarefa é difícil”.

Com Ulisses, ao que parece, a convivência era mais fácil. Cachorros, afinal, são mais simples e quase sempre mais dispostos a absorver o amor dos outros sem esperar grandes recompensas, brincar sem pressa, atender uma dezena de vezes a mesma ordem, levar a vida que Deus manda sem pergunta nem decepção. Cachorros, nos dias que que o mundo complica, fazem a Clarice estar coberta de razão quando se virou para um bicho um pouco neurótico que comia cigarros às vezes ainda acesos, tomava uísque e adorava Coca Cola e declarou:

– Que inveja eu tenho de você, Ulisses, porque você só fica sendo.

clarice lispector e o sol

– Papai, inventei uma poesia.
– Como é o nome?
– Eu e o sol
Sem esperar muito recitou:
– “As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas, mas eu não vi”.
– Sim? Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?
Ela olhou-o um segundo. Ele não compreendera.
– O sol está em cima das minhocas, papai, e eu fiz a poesia e não vi as minhocas…