o menino e o vento

“Quando você vive um problema, você o conhece melhor do que todo mundo”. A frase que o engenheiro William Kamkwamba costumava ouvir da avó norteou sua busca por soluções para a pequena vila de Wimbe, no interior do Malawi, um país africano montanhoso e sem saídas para o mar que ocupa as últimas posições do ranking de desenvolvimento humano da Organização das Nações Unidas e as primeiras na lista de país mais pobre do mundo.

Kamkwamba é o garoto que inspirou o filme “O Menino que Descobriu o Vento”, a comovente história da construção de um moinho que salvou uma comunidade inteira da seca e da fome. 

A saga do adolescente de 14 anos que estuda sozinho e enfrenta a descrença da família para montar um moinho de vento ganhou as páginas de jornais e virou livro. Em 2013, Kamkwamba foi eleito pela revista Time como uma das 30 pessoas com menos de 30 anos que estão mudando o mundo. Ano passado, sua história foi levada às telas pelo diretor inglês Chiwetel Ejiofor, conquistando milhares de admiradores. 

O resumo da ópera: quando a colheita da família é devastada pelo mau tempo e pela falta de políticas públicas, Kamkwamba se vê forçado a abandonar os estudos. Com a ajuda da bibliotecária do vilarejo, das poucas noções obtidas na aula de Física e de peças de ferro velho, o menino autodidata constrói uma bomba movida à energia eólica para irrigar os campos e salvar as plantações de sua comunidade.

O relato nos ensina dezenas de lições. Minhas favoritas são o poder do conhecimento genuíno existente na simplicidade, nas vivências reais e na diversidade, e a força que pessoas raras têm para mudar as coisas, a despeito de todas as dificuldades. 

Toda transformação começa com o primeiro passo, costuma dizer o menino, hoje com 32 anos. À frente da WiderNet, organização sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos, ele trabalha para estimular o surgimento de novos inventores em comunidades carentes de infraestrutura, comida e atenção. Seu foco é amparar projetos como o moinho da vila de Wimbe, aqueles que de tão simples sejam capazes de se tornar imensos.

o equilibrista

– Por que você fez isso?, alguém perguntou ao equilibrista, tão logo ele terminou de atravessar as torres gêmeas do World Trade Center, em um cabo de aço estendido, sem proteção e sem autorização, a 417 metros de altura.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo: sabe que às vezes faz bem não saber?

Quando a gente não sabe, pensei, a cabeça deve doer menos a tristeza dos dias turbulentos, o abdome deve sustentar mais o peso das vértebras retorcidas. A gente, quando não sabe, investe com mais pureza nos encontros, nos diálogos, no prazer e na arte. Protegidas pela graça da ignorância, acolhidas pelo benefício do desconhecimento, mimadas pela dádiva da inocência, as madrugadas passam quietas e a ansiedade respira no compasso certo – ou o mais perto possível.

As horas tendem a pesar menos quando a gente não sabe.

Ao contrário das estações em que chove dentro da gente, mesmo que lá fora faça sol, quando não sabe a gente experimenta a liberdade de se dedicar com menos peso à busca de respostas, sejam elas metafísicas ou prosaicas, sejam elas a respeito dos rumos do jornalismo, dos versos de Bob Dylan ou do sentido da vida, sejam elas sobre o teor alcoólico do gim ou sobre as razões daquele equilibrista.

O equilibrista, a propósito:

Às 7 da manhã do dia 7 de agosto de 1974, um francesinho chamado Philippe Petit estendeu um cabo de aço entre as torres gêmeas do World Trade Center e atravessou, sem proteção e sem autorização, o espaço entre os prédios que Osama Bin Laden mandaria pelos ares em 11 de setembro de 2001. Petit tinha 24 anos, vestia preto e cruzou o vão entre as edificações a 417 metros de altura, por oito vezes, durante pouco mais de 40 minutos. Acabou na delegacia, feliz da vida.

A traquinagem foi exaustivamente planejada. Petit alugou um helicóptero para fotografar o topo das torres, convenceu um executivo do 82º andar a ajudá-lo, fingiu ser repórter de uma revista inventada para entrevistar o síndico.

Enquanto fazia malabarismos na rua para se manter, observou, fotografou. Tomou notas. Subiu e desceu do complexo que ainda passaria por um incêndio em 13 de fevereiro de 1975, um atentado a bomba em 26 de fevereiro de 1993 e um assalto em 14 de janeiro de 1998. Acompanhou a rotina de funcionários e frequentadores e até decifrou a combinação que abria uma das portas: 7-7-4-3-5.

Como a maioria absoluta dos sonhares, Philippe Petit ignorou os riscos, os ventos, a umidade do ar e as exigências da polícia e fez – palavras dele – aquilo que tinha de fazer. Andar sobre fios era paixão antiga, daquelas como na canção.

[Basta um encontro por acaso e pronto: começa tudo outra vez].

Petit já havia passeado suspenso entre as duas torres da Catedral de Notre Dame e pela ponte que atravessa a baía de Sidney, na Austrália. Para atravessar as torres gêmeas, contou com a ajuda de um amigo e da namorada. Também teve alguma sorte, declarou em entrevistas que viriam depois da façanha. Pensou em tudo, minúcia por minúcia, desde o transporte até o modo como faria um cabo de 200 quilos atravessar de um ponto ao outro – no fim das contas decidiu usar um arco e uma flecha para, então, caminhar sobre a corda bamba, deitar e dançar um pouco.

O nome da coisa é funambulismo.

A vara de equilíbrio pesava aproximadamente 25 quilos. Por toda a extensão da linha, havia cabos pendendo em direção ao chão. A função deles era reduzir as vibrações na superfície da corda bamba e, também, amenizar a sensação de vazio que dá olhar para baixo quando não há nada para ver, nem paisagem nem um rosto conhecido, nem formas nem perspectivas; nada.

– Por que você fez isso?, alguém obviamente perguntou.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo – vocês já sabem: sabe que às vezes faz bem não saber?

o rum e o refúgio

“Difícil é essa condição humana.
Eu não estava armado para isso.
Esses trens, essa vida…”

Em uma das cenas mais bonitas de 35 Doses de Rum, um homem diz para sua filha que eles têm, dentro de casa, absolutamente tudo o que precisam. Talvez tenham, de fato: afeto, liberdade, livros, música, comida e as memórias, quase tudo. Pai e filha vivem num subúrbio de Paris, e só aos poucos sabemos da morte da mãe, da relação despedaçada do viúvo silencioso com a motorista de táxi que mora ao lado, da barreira que a menina impõe ao amor, do vizinho que ameaça ir embora numa atitude de quase desespero.

Aos poucos sabemos, ou porque o filme sugere ou vai ver são as cicatrizes, das razões de pai, filha, motorista de táxi e vizinho. Aos poucos entendemos, ou porque o filme sugere ou vai ver vocês sabem, que as razões deles são um pouco como as de todos nós: o medo do envolvimento, a dor da perda, o desequilíbrio dos traumas, a vontade do encontro.

O lar deles, como acredito devem ser os verdadeiros lares, é o abrigo que protege da solidão da cidade grande, dos caminhos tortos do trem, do mau humor cuspido no trânsito, dos vazios e das expectativas desfeitas, das tristezas acumuladas no tempo, dos finais, das ausências [até mesmo as dos vivos, que são tão ou mais difíceis do que a falta que nos fazem os que já estão mortos] e da própria morte.

Seus silêncios dizem quase tudo, como dizem entre si – sem palavras, ou com poucas – aqueles que atingiram a beleza de não precisar dizer da raiva ou da saudade, do desejo ou da tristeza, do amor ou das necessidades, raiva, amor, saudade, desejo, tristeza e necessidade subentendidos, e compreendidos igual. São como talvez devêssemos ser todos, também, afetuosos, silenciosos, simples e tranquilos, verdadeiros, sinceros e presentes, quase nunca indelicados, quase nunca indiferentes, quase nunca reticentes.

Os personagens de 35 Doses de Rum compartilham o desconforto diante da realidade, como fazem os amigos de verdade, agem como cúmplices diante do gato morto que vai pro lixo, do flerte e da dor de cotovelo embaladas por Nightshift e aquela melodia tristíssima dos Commodores, tristíssima como a expressão da personagem que insiste num amor não correspondido; do trabalho, da panela nova, da faxina catártica, do carro que pifa numa noite de chuva em que a música compensa até as divergências.

O filme é todo de movimentos suaves, corpos e objetos dançando a dança sutil dos melhores encontros, aqueles que a gente carrega quando vai embora – e deixa um pedaço com eles. É como são as melhores coisas do mundo, como a madrugada em que havia um violão e nenhuma expectativa; como o tempo em que não havia mais nada de importante, só os dois. É como são as melhores noites ou então os dias que a gente celebra com as 35 doses de rum destinadas apenas às ocasiões mais importantes da vida.