vai levando

Ilustração: Clara Nahas Dias
Ilustração: Clara Nahas Dias

A gente vai levando, exatamente como na canção, com toda a fama, toda a Brahma, toda a cama, toda a lama. Mas às vezes a vergonha é grande, ouvir um conterrâneo ao que parece errado dizer que não carrega mágoa ou ressentimento, como se os culpados devessem perdoar os inocentes e não o contrário.

Às vezes a vergonha é grande, ver uma figura pública de conduta duvidosa sair louvada por autoridades que deveriam igualmente zelar pela honestidade e pela transparência, e a gente sem saber o que é pior, se a quebra do sigilo do caseiro ou as consultorias milionárias, se as escolhas ou o cinismo, se os aplausos ou citar Drummond em vão:

– Havia e haverá sempre pedras em nossa caminhada.

A gente vai levando, exatamente como na canção, com todo o emblema, todo o problema, todo o sistema, toda Ipanema. Mas às vezes a saudade é grande, querer saber e não poder, querer falar e não conseguir, querer estar e simplesmente não haver.

Às vezes a saudade é grande, um amor que se foi, um amigo que não veio, pai, irmão, vizinho ou bicho de estimação que passaram desta para outra, um vazio imenso que só o tempo resolve, a vontade de voltar pro passo, pro braço, pro laço e as madrugadas inteiras à disposição da música, do diálogo e da geladeira. Ainda assim a gente vai levando, como a canção, com o nada feito, com a sala escura, com um nó no peito, com a cara dura.

[Não tem mais jeito. A gente não tem cura].

A gente vai levando, exatamente como na canção, com o todavia, o todo dia, o todo ia, todo não ia, todo rock, todo pop, todo estoque e todo Ibope, exatamente como na canção. Mas às vezes o desconforto é grande, protestos que um dia foram úteis mas acabaram perdendo o fio da meada, democracia no discurso e outra coisa na prática, pouca habilidade para negociar de um lado, movimento que passou da hora do outro, Twitter, Facebook, mesa de bar e as vias públicas reservados a agredir os que pensam diferente.

A gente vai levando, exatamente como na canção, sanha, façanha, picanha, campanha e manha, estima, esgrima, clima, tudo em cima. Ou quase, porque às vezes a dor é grande, a coluna que não endireita, o corte que não cicatriza, o joelho que encontrou a quina, a cabeça nos dias de TPM, e ai de quem ousar dizer que é frescura.

Às vezes a dor é grande, e haja mucato de isometepteno, dipirona sódica e cafeína anidra para tanto incômodo, haja diálogo pra tanta pergunta, haja o passar dos dias pra tanta ferida, haja paciência pra tanto desencontro. A gente vai levando, com toda cédula, toda célula, súmula e sílaba, uma letra depois da outra, apesar dos pesares. Exatamente como na canção, a gente vai levando.

adoráveis clichês

Tem lugares-comuns dos quais não dá pra fugir. Eles são deliciosamente alimentados nos cardápios, nos afetos e na escolha das canções, no cinema, nos encontros e no calor das madrugadas, pelas páginas da História, pela métrica da Poesia e pelas certezas da Física. Dispensam defesas, desprezam preconceitos e desconsideram regras, gramática, dicionário e enciclopédias devidamente postos de lado simplesmente porque determinados clichês são adoráveis e ponto final.

As listas, por exemplo, são um dos adoráveis lugares-comuns de onde não dá pra fugir. De Nick Hornby a Regina Brett, dos 1001 discos para ouvir antes de morrer às 50 ideias para uma vida feliz. Dos 15 maiores símbolos sexuais de todos os tempos às cidades mais digitais do país [a minha está lá, na quarta colocação]. Dos 20 móveis inusitados para a sua sala às 10 carreiras que tiveram maior aumento de salário em 2010, o rol de determinações, sugestões e ações caminha da música ao câncer. Dos países com menor risco de desastre natural aos produtos típicos de festa junina com maiores impostos.

[Acreditem: eles foram enumerados em um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, e o campeão é a cachaça usada para fazer Quentão].

Tem lugares-comuns dos quais não dá pra fugir. Eles são deliciosamente alimentados nos almoços, nos diálogos e na escolha dos poemas, nos botecos, nas paredes e no quente do edredon, pela Matemática, pela Geografia e pela lógica da Natureza. Dispensam explicações, desprezam julgamentos e desconsideram críticas, análise, resenha, avaliação e censura devidamente postas de lado simplesmente porque determinados clichês são adoráveis e ponto final.

Batata frita, chocolate com Coca Cola, pizza e Chico Buarque, por exemplo. Pode ser no almoço ou depois, no jantar ou no assalto noturno à geladeira, carboidrato, açúcar, gordura e gás a serviço do prazer, a música nova, Meia-Noite em Paris e a ideia – exaustivamente repetida, como os verdadeiros clichês – segundo a qual tanto um quanto os outros até quando são ruins são bons.

Tem lugares-comuns dos quais, definitivamente, não dá pra fugir. O amor, as canções de amor e as declarações de amor, por exemplo. A neurociência explica que, nos apaixonados, a dopamina ativa os centros de recompensa do cérebro e produz prazer. Segundo ele, as sensações vão do arrepio ao orgasmo, corar, suar, ofegar, ouvir o coração disparar, exibir os melhores sorrisos, as melhores ideias, as melhores formas. Você olha, encosta, afaga, aperta, ri, sonha, olha de novo, aperta mais e ri outra vez, o melhor riso de todos. Tem clichê mais adorável?

ah…

Ah, esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Com os olhos de um bandido
Ah, esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Com os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou para o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada
Ele some
Ele é quem quer
Ele é um homem e eu sou apenas uma mulher