das coisas que a gente aprende com as flores

Pouca coisa no mundo lembra delicadeza e doçura de modo tão imediato quanto as flores. Diante das flores, a gente pensa em açúcar, afeto e gentileza, aprende sobre a espera, a regadura e o melhor dos remédios, entende o ritmo, a suavidade e as possibilidades da natureza, percebe o caminho, o processo e o movimento das sementes, coleciona lições.

[Drummond dizia, com toda razão, que entre a raiz e a flor há o tempo].

Com os girassóis, a gente conclui que os dias azuis e amarelos sorriem mais e a gente sorri com eles e decide que faz bem ser um pouco heliotrópico, comportamento que, segundo a biologia, têm os vegetais que por motivos diversos se voltam para o sol. Com as rosas, descobre o devagar da vida, a sutileza do toque, a importância do cheiro, o machucado do espinho e o cuidado, uma pétala depois da outra e às vezes os ais – e ainda tem o Rosa, nome próprio com nome de flor, que escreveu que o mais bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que vão sempre mudando.

Com as margaridas, percebe os capítulos que a vida cria em torno de outros capítulos, o branco, o amarelo e o laranja dispostos em círculo, um depois do outro, capazes de trazer de volta um pouco da inocência das crianças, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer.

Com as tulipas, sonha com o amor perfeito e estuda até um pouco de geografia quando contam que elas vieram da Turquia, não da Holanda. Com as orquídeas, ingrediente da bebida que dava força e virilidade aos astecas e curava tosses e doenças pulmonares dos chineses, a gente acolhe o que é elegante, exótico e sensual, e treina um pouco do verbo cultivar: quanto de luz, rega moderada e adubação periódica com substratos apropriados, um diferente para cada fase do desenvolvimento.

Com as violetas, por fim, que os homeopatas usam desde 1829 para combater sinusites e reumatismos, a gente pinta de colorido a casa de paredes brancas e enfeita as estantes com a espécie que jardineiros, paisagistas e floristas acreditam ser o símbolo da lealdade e da modéstia, três meses de descanso e depois flores outra vez, exatamente como Cecília Meirelles escreveu que seria, girassol, rosa, margarida, tulipa, orquídea, violeta e gente:

“Aprendi com as primaveras
A deixar-me cortar
E voltar sempre inteira”.

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sobre o desapego

Um dia descobri que a palavra ingênuo vem do latim e designa, antes de mais nada, aquele que nasceu sem servidão ou escravidão. Sem apego. Talvez por isso algumas ingenuidades me comovam tanto, como as dos que são livres dos preconceitos que nos fazem ver mais do que há, livres dos desafetos que envenenam o corpo e o resto, livres do excesso de razão que atrapalha a visão e os outros sentidos, livres como no poema, livres.

“Liberdade
Palavra que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique
Nem ninguém que não entenda”
(Cecília Meireles)