da série leituras

NOTAS SOBRE A BANDA
Carlos Drummond de Andrade, Correio da Manhã, 14 de outubro de 1966

aspasO jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.

Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.

Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro… todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

pelo tombamento da crônica número 2

Eu acho que sorvete de cereja com calda de Nutella devia ser tombado como patrimônio imaterial da humanidade, sorvete de cereja com calda de Nutella e Maria Bethania recitando os poemas da sua vida, gim com água tônica, o significado da primeira geladeira e certas canções. O sentimento de alguns poetas e o sorriso dos amores de fato também podiam ganhar o selo de coisa tombada, protegidos e resguardados de qualquer tipo de abalo para todo o sempre, e da mesma maneira os amigos verdadeiros e os primórdios do samba no bar da esquina.

As histórias bonitas e a delicadeza do mundo, quando há [porque nem sempre, infelizmente], deviam ter este selo, exatamente como o escritor sugeriu, tempos atrás, que tivessem as crônicas e os temas caros aos cronistas. Segundo ele, era para o mais imaterial dos estilos literários ser considerado um bem imaterial intocável como a panela de barro feita logo ali – escrevo da Ilha de Vitória, capital do Espírito Santo –, o queijo de Minas, o samba de roda do Recôncavo baiano, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, o frevo de Pernambuco e quem sabe o tapioqueiro da Rua Paissandu.

A crônica seria, então, inscrita no livro de tombos e celebrada como as construções mais valiosas, livre de estragos e avarias, bem ao lado do primeiro gole da cachaça para o santo, do grito do verdureiro para a freguesa bonita que não paga, mas também não leva, do pôr do sol da Praia do Arpoador, do torcedor que fica de costas na hora do pênalti, da rosca de polvilho e do apito da fábrica de tecidos.

Deste modo, o suave exercício sobre o tempo, as boas histórias e a delicadeza das coisas empreendido por mestres como o velho Braga, Drummond, Carmélia, às vezes Clarice e García Márquez quando as lembranças permitiam estariam isentos de estragos e avarias. Seriam, pois, guardados e valorizados para todo o sempre o passarinho que, ao contrário do conde, não tem fábricas, mas sabe cantar e voar; a moça daquela noite em que chovia não a cântaros, mas a bules de chá; a entrevistadora que se espanta quando a entrevistada diz que gosta de gente – não de toda gente, mas de gente que não se chateia à toa nem chateia a gente.

Estariam igualmente isentos de estragos e avarias as mulheres que passam, os estudantes que passam, as comerciárias que passam, os malandros que passam e todos os outros que passam rumo à Praça Costa Pereira. Aquela deliciosa defesa por pratos sem cheiro verde também seria preservada e valorizada para todo o sempre, como também a aventura do garoto que não sabia o que era dormir – e o avô tentava explicar que, quando chegava a noite, as pessoas tiravam a roupa, vestiam uma coisa chamada pijama, olhavam um pouco de televisão e às vezes sonhavam.

Com o tombamento da crônica, Dindi estaria livre de estragos e avarias, preservada e valorizada para todo sempre, amém.

lembranças de um dia sem assunto

Quase sete anos se passaram desde que aconteceu comigo. Àquela altura do campeonato, era nítida a impressão de que tudo já havia sido dito, do futebol aos mistérios da memória, da saudade às angústias do tempo, da arte à Física, da fé às palavras de Clarice, dos óculos de sol recém-comprados às dores de cabeça em excesso, da corrupção, da propaganda e do sobe-e-desce das Bolsas de Valores, de uma canção em particular ou aquele álbum inteiro de capa branca e só o nome assinado no meio, do amor ou justo o oposto; tudo.

Oficialmente eu passava a fazer parte do time dos autores sem assunto, portadora da chaga da obviedade latente, a cabeça inteira branca pelo lado de dentro, nenhuma ideia, nenhum tema, nenhum som, recado; nada. Pela primeira vez na minha vida de cronista, não havia afetos pra serem ditos, reencontros pra serem lembrados, ladrão filho da puta pra ser xingado, ponte, pano de prato, estante, apenas um dia abafado pela absoluta falta de criatividade, algumas horas antes do horror, o horror chamado prazo de entrega.

Não havia sentimentos pra serem digeridos, diálogos pra serem exaltados ou então os silêncios que seriam igualmente exaltados um dia, ou até havia, mas vai saber. Não havia matemática, poesia nem química naquela semana de absoluta falta de criatividade. Nem a chance de ser como dizem são os bons escritores – que passam a vida inteira escrevendo o mesmo livro, como um jardineiro que regasse suas flores de obsessão – havia, nada, só a tela vazia diante da testa, dos óculos, da ruga de expressão, da cara lavada.

A boa notícia é que eu estava bem acompanhada [e bota bem acompanhada nisto]. Podia recorrer a Drummond e dizer que estava constrangida a exercer a tristíssima profissão de encher linguiça ou então lembrar Vinicius, quando reconheceu que, em certos dias, escrever uma crônica que fosse bem-feita e divertisse os leitores era missão impossível.

Podia descrever o horizonte ou, como Cony, a cara que via no espelho, descer ao bar da esquina e descrever o samba ou então, como João Ubaldo, apelar para uma piada ruim e outra pior ainda. Podia, até, quem sabe, defender a classe evocando uma vez mais o velho Braga, que, até quando parecia estar sem assunto, carregava alguma coisa, que era o peso de sua alma.

E olhem lá que não era pouco.

Carregar o que corre dentro de fato, não é pouco, bem ao contrário, um fardo desajeitado como o do ator em crise existencial que decide contratar uma empresa que extrai a alma dos agoniados. Talvez não fosse também o caso do velho Braga, que alguém já disse escrevia até melhor quando não sabia sobre o que escrever. Certamente não era, do mesmo modo, o meu caso àquela altura do campeonato, só a página em branco e nenhum tema para ocupá-la de modo satisfatório, ou então uns e outros, inconsistentes ainda, à espera de decantação, coar, chacoalhar, peneirar e depois aqui.

o difícil e o fácil

Reverência ao Destino
Por Carlos Drummond de Andrade

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá. Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado. Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer. Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais. Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar. Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil. Fácil é dizer oi ou como vai? Difícil é dizer adeus, principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas. Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa. Fácil é querer ser amado. Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca. Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas. Fácil é ditar regras. Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros. Fácil é perguntar o que deseja saber. Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta. Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria. Fácil é dar um beijo. Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro. Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado. Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho. Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

na estrada

Ilustração da Mariana Mauro (www.flickr.com/photos/marianamauro)

Eu tinha o sol na cara e a alegria de estar na estrada como se não houvesse mais nada além de ir. Tinha algum tempo livre, meia dúzia de incertezas que precisavam ser pensadas a distância, o livro que faltava pouco para acabar, Chocolápis com Coca Cola e gosto de infância, tinha algumas roupas espremidas na mala de mão e a ideia, antiga e certeira, de que uma viagem, mesmo as menores e menos surpreendentes, nos transforma em alguma outra coisa.

Estrada lembra desapego, lembra “Thelma e Louise” e o espírito de largar tudo para trás e explodir as regras todas, lembra Jack Kerouac e viajar pelo mundo de carona e igualmente quebrar tudo, lembra “Diários de Motocicleta” e as intenções iniciais daquele homem que quis mudar o mundo, lembra “Paris, Texas” e a decisão de caminhar em busca de redenção e do passado, lembra “Estrela Solitária” e aquele desejo imenso de sumir do mapa quando a cabeça dói demais ou quando um amor acaba ou só sumir, simplesmente, porque sim.

Estrada desperta a vontade de ter uma carteira de identidade nova, de telefonar pedindo um emprego novo, de aprender uma língua nova, de ter um bocado a mais de segurança e determinação, de lidar melhor com os imprevistos, de deslumbrar com as novidades, de sentir saudades de verdade, de amar daquele modo puro e profundo que amamos aos cinco anos de idade, sem dores alojadas no peito, sem sapos indigestos no estômago, ar preso nem nada.

Estrada pressupõe ser estrangeiro e um pouco anônimo, estar longe de qualquer rota conhecida e tomar outras como suas, ter referências passageiras que não explicam escolhas nem consequências, mas também não pesam como chumbo grosso, alimentar a ideia, divertida e um pouco assustadora, de que todo ser humano é um pouco como Claire Colburn, de outro filme (“Tudo Acontece em Elizabethtown”) e o mesmo espírito: pôr na mala mapas, discos, calças confortáveis, três lembranças e algum dinheiro, e sair por aí.

Estrada tem cheiro de liberdade, de solidão, de possibilidades, pensamentos desconexos, descobertas inesperadas; desperta um tipo de sentimento, estranho e bom, de pertencer a nenhum lugar, o não-lugar que os pós-modernos da academia gostam de exaltar, o não-lugar que quer dizer exatamente o que parece, vazio, impreciso, duvidoso, o não-saber latitude, longitude ou quilometragem e assim mesmo seguir, sem mapas, só canções e aquele poema.

“De repente você resolve fugir”

É Drummond, o doce e sábio Drummond, fugir sem saber o destino nem a razão (embora a razão de fugir nasça com o fugitivo), fugir sem ter dinheiro nem roupa, rumo à fuga que não se sabe onde acaba, mas começa na ponta dos dedos, fugir quando os outros estiverem dormindo, a pé e de pés nus, levando pão, canivete, lenço, figurinhas difíceis de juntar, mãos livres para pessoas, trabalhos e onças que virão, fugir agora ou nunca, à meia-noite.

À meia-noite em ponto ou nunca.