o dia fora do tempo

Dizem que o gosto da civilização maia por entender o sentido histórico das coisas colocou o tempo como preocupação central de seu povo. Havia o hábito entre os ocupantes do fértil Vale do Yucatán, desde remotos anos antes de Cristo, de medir com zelo a passagem dos dias e respectivas noites, registrar de modo minucioso o movimento dos astros, demarcar as celebrações religiosas, as vitórias militares, a fundação das cidades e as colheitas, além de erguer nas pedras inscrições que contribuíssem para a memória das gerações futuras.

Os ciclos se repetiam de 13 em 13 luas de 28 dias cada, somando 364 dias, com início em 26 de julho e fim no 24 de julho seguinte. O dia 25 não pertencia nem a um ano nem ao outro, e os maias o chamavam de O Dia Fora do Tempo.

Taí: gostei.

Durante 24 horas, as tarefas eram meditar a respeito da vida, agradecer pelo resultado das semeaduras anteriores, cancelar dívidas materiais ou metafísicas, dedicar-se às artes, elevar o estado de consciência e respirar com toda a liberdade do mundo. Nelas se concentrava a energia para o período que em breve começaria, bem ou mal, alegre ou triste, leve ou pesado, de acordo com o que fosse – bom ou mau, alegre ou triste, leve ou pesado – o Dia Fora do Tempo.

Como nos primeiros dias do ano e apesar do tempo que às vezes não há, no Dia Fora do Tempo a ordem podia ser entender o que realmente importa, ficar próximo do que nos emociona e dispensar o resto, celebrar o sol tímido dos dias de julho, o cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola, os planos para a reforma da cozinha, as pequenas festas, as boas companhias ou a vontade de reencontrar os parceiros que suavizam com seu afeto as outras ausências.

A ordem podia ser firmar os músculos, respirar profundo, investir na capacidade de superar as adversidades, perdoar até aqueles que nos prejudicam porque são movidos pela vaidade, pela prepotência ou pela insegurança. Podia ser entender o próprio tempo, respirar antes da explosão, suavizar antes do julgamento, reduzir as expectativas, esperar um pouco além do previsto, com toda calma possível dentro. Podia ser a ordem no Dia Fora do Tempo ver o mundo com os olhos da delicadeza, tanto quanto possível, mesmo que nem sempre e depois dançar you make me feel there are songs to be sung.

[O senhor me faz sentir que há canções para cantar, Frank Sinatra].

No Dia Fora do Tempo, a ordem podia ser fazer como fazem os ganeses no ano novo deles: cavar um buraco no chão, colocar a boca e contar o que se passou de ruim, “cobrir” as palavras com terra e discorrer suavemente sobre as coisas boas que deseja, jogar um pouco de vinho ou cachaça sobre a terra em homenagem aos ancestrais e, enfim, beber também um pouco. Podia ser, como nos primeiros dias do ano e apesar do tempo que às vezes não há, um período dedicado a olhar pra trás, avaliar projetos, reorganizar desejos, rever feitos, tomar nota do que for preciso e apagar o resto, com todo o desapego do mundo.

O Dia Fora do Tempo seria então tomado pela leveza dos começos, pela fé no movimento, pela esperança em dias melhores e as orações a postos, para que o grandioso e bom Deus mais uma vez amenizasse as faltas, perdoasse os deslizes, aliviasse os excessos, instaurasse o equilíbrio e mantivesse a paz, pelo próximo ano e sempre, amém.

13 coisas que aprendi em 2013

1. Não importa o quanto você se esforce. Sempre vai haver alguém para achar que não foi o bastante. Apesar disto, devemos acreditar o quanto possível, fazer o melhor que estiver ao alcance e seguir em frente, a despeito de todos os desapontamentos.

2. As plantas, como os melhores afetos, não sobrevivem sem cuidado. A exceção são as Zamioculcas, uma espécie original da Tanzânia, afeita ao nosso clima, visualmente exuberante, mas pouquíssimo exigente com as regas, as adubações e as podas.

3. Pouca coisa na vida não melhora depois que a gente respira devagar e fundo. Erica Abi Wright sabe exatamente o que canta com seu vozeirão texano: “If you start breathing then you won’t believe it you’ll feel so much better”. #Fato.

[Também aprendi com 2013 que hashtags podem ser legais].

4. De acordo com o Google Maps, o sentido da vida está na Avenida Dr. Antonio Moraes de Barros, número 90, Centro, Atalaia, Paraná. O CEP é o 87630-000.

5. Um copo de suco natural acompanhado de uma fatia de pão integral no café da manhã faz toda a diferença na disposição que levamos para o resto do dia. Espreguiçar o corpo também é um santo remédio.

6. Precisamos aproveitar melhor a comida apesar dos defeitos físicos, apostar sempre que possível em frutas, legumes e verduras sem agrotóxicos, usar casca de abacaxi pra fazer suco, tomates ligeiramente passados pra fazer molho e um monte de outras receitas com sobras que tem gente por aí ensinando a fazer. Não dá mais pra jogar tanta comida fora em um planeta onde uma em cada oito pessoas sofrem de desnutrição crônica. Simples assim.

[Doce de leite no meio da tarde continua valendo].

7. Determinadas tarefas que você desempenhava como se fossem feitas para você continuam caminhando na sua ausência, de uma maneira ou de outra. Perceber a verdade faz um bem danado à humildade e ao desprendimento.

8. A dica 171 do livro de autoajuda de capa amarela é inacreditavelmente eficiente, apesar de livro de autoajuda ser aquela coisa: ao começar o dia, quando a energia está alta, separe uma hora para se dedicar sem interrupções a um item importante da sua lista de tarefas.

9. O ciúme envenena o cotidiano e atrasa o início de boas amizades.

10. Reformar uma roupa que não dá mais, tirar a manga feia de um vestido de resto lindo, cortar no comprimento de uma saia de fina estampa, soltar a prega de uma calça e voltar a respirar dentro dela alegra o guarda-roupa, o bolso e o planeta.

11. As pistas da vida estão todas no boletim da escola. Com a palavra, a cronista da cozinha Nina Horta: “Todos nós temos um ou mais focos de burrice irreversíveis e a gente sabe bem quais são. Se guardamos os boletins do primário já não precisamos quebrar muito a cabeça. 10 em português, 4 em matemática, 8 em história, 10 em polidez, 5 em geografia. Quase um século depois você ainda estará escrevendo bem, jamais terá brigado no trânsito, fala baixo, faz conta nos dedos e se perde à toa”.

12. O vaivém dos peixes é um calmante e tanto, eles ali, sem irritação, impaciência ou teimosia, sem ciúme do outro peixe, sem medo da morte ou coração partido, sem trabalho por fazer ou vontade de desistir, sem raiva, pena de si mesmo, pessimismo, pensamentos malvados, dor no cotovelo, sem culpa ou rancor, apenas cumprir a tarefa de ir de um lado para o outro com leveza e simplicidade, e depois voltar.

13. Acupuntura funciona de verdade.