pequeno dicionário para o ano que começou

A
A pé, sempre que possível
Amor, todos os dias
Arte [faz parte]

B
Batata doce
Brecha na agenda
Blog, ano 13

C
Celular em modo offline
Cozinha afetiva
Camarão não pode

D
Desapego
Dores sob controle
Drummond, Carmélia, Clarice, Borges, Cortázar

E
Equilíbrio
Escrito à mão
Em paz com a vida e o que ela me traz

F
Forno e fogão
Filtro 40
Fé [que a fé não costuma faiá]

G
Grafite 1.9
Gangorra eu não gosto
Gil, Caetano, Chico, Tom, Sampaio, Melodia, Aldir

H
Há folhas no meu coração [é o tempo]

I
Inspiração
Inspiração
Inspiração

J
Justo o oposto
Janelas abertas
Jazz, uma vez mais

K
Kind of

L
Leveza, sempre que possível
Livro novo, quem sabe
Leituras

M
Menos é mais
Madrugada
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo

N
Nina Simone, um ano mais
Nada contra
Nada consta

O
Óculos
Oração
Ouvir, de fato

P
Pedalar
Praticar
Produzir

Q
Quereres
Quitanda
Quotes

R
Recomeços
Reencontros
Releituras

S
Semente
Simplicidade
Ser livre é poder escolher ao que se prender

T
Todo dia é dia de viver
Tradição, nas ocasiões em que sim [nas outras: revolução]
Then you can star to make it better

U
Uma coisa de cada vez
Unidade, união
Umbigo não é o centro do mundo

V
Violão
Vestido, ainda sempre que possível
Verde em volta

W
White, E.B.: Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis
Waffle
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
X nas boas escolhas

Y
Yin
Yang
Yin-Yang

Z
Zelo
Zoom, para ver de perto
Zarpar quando for preciso, como antes.

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pequeno dicionário para o ano que começou

A
Afetos
Alongar
Alegria

B
Bicicleta
Balanço
Bonsai

C
Cartas Extraordinárias, o livro
Cozinhaterapia
Crônicas & Canções, sempre

D
Descartar os excessos
Decoração
Dialética, o poema

E
Equilíbrio
Estude seu viver, observe sua deriva
Esperança [“é o que nos resta em tempos difíceis”]

F
Filtro 40
Foco

G
Gastronomia sentimental
Grafite de boa ponta
Gim com água tônica

H
Haruki Murakami
Hidroginástica
Horta caseira

I
Ítalo Calvino
Inspiração
Iodo e amendoim não pode

J
Jazz
Jards Macalé, sobre as coisas passando [eu quero é passar com elas eu quero]
Jornalismo

K
Kind of Blue, o disco

L
Leveza, sempre que possível
Livro novo, quem sabe
Legumes orgânicos

M
Movimento
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo
Madrugadas

N
Navegar
Na rua, na chuva, na fazenda
Nina Simone

O
O dia fora do tempo
O que for essencial, cada vez mais
Organização

P
Pão caseiro
Peixes no aquário
Paciência e perseverança

Q
Queijo de feira
Quitanda
Quase um Segundo quase esgotado

R
Reformar a casa
Respirar profundo
Reciclar o lixo, reaproveitar as sobras

S
Suavidade
Samba
Sábado [para aumentar a vitrola]

T
Textos novos
Tempo
Then you can star to make it better

U
Universidade
Utopias possíveis
Umbigo não é o centro do mundo

V
Vento sul
Vitória, a cidade
Vestido, sempre que possível

W
Wi-Fi
www
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
Xampu com cheiro bom

Y
Yin-Yang
Yoga
Yes, we can

Z
Zen
Zelo
Zarpar quando for preciso

obrigada, 2015 | seja bem-vindo, 2016

Foi um ano duro, certamente. A economia, a política, os humores e o corpo apresentaram sinais de desgaste que espero sejam suavizados nesta nova temporada. Tomei nota sobre o que escreveu o professor: “Estude seu viver, observe sua deriva”, o que nos coloca para andar, o que acorda a nossa imaginação, o que estimula a nossa energia. Escrevi um pequeno dicionário para o ano que começava, A de alimentos orgânicos, água e alongamento, B de bicicleta, chás e crônicas, diversão e discos, escrever, foco, gim com água tônica, Here Comes the Sun, inspirações, jazz e jornalismo, Kind of Blue, leveza sempre que possível [nem sempre foi], movimento, Nina Simone, óculos, paciência e perseverança, queijo sem lactose, respirar profundo, sol e sossego, tom maior, utopias possíveis, Vitória, Waffle, xampu com cheiro bom, Yin-Yang e zarpar quando fosse preciso. Por certa indisciplina, deixei mais do que devia dele para trás.

Aprendi que grandes realizações exigem atenção aos pequenos começos. Entendi que as convenções, ao contrário, produzem condenados, como a pressa que esquece a natureza do tempo, a ambição que ignora os limites do espaço, a vaidade dos que valorizam o umbigo, o espelho e o poder no lugar do que convém. Vi um pouco mais ainda sobre a vaidade dos homens e senti ainda mais forte minha convicção de que melhor que o poder é a potência, melhor que o acúmulo é a permanência, melhor que o exagero é o equilíbrio, melhor que a posse é o sentido. Ouvi outra vez menos música do que gostaria. Li Cartas Extraordinárias – e E.B. White tem toda a razão: esperança é o que nos resta em tempos difíceis.

Cozinhei como terapia. Optei sempre que possível pelos alimentos orgânicos, reaproveitei as sobras das panelas e separei o lixo seco do úmido, em pequenas tentativas diárias de fazer algo pela sobrevivência do planeta. Segui firme com a acupuntura, mas nem tanto com a bicicleta. Comprei um bonsai, plantei couve, limão e rabanetes, colhi cogumelos e romãs em miniatura. Fui menos grata do que deveria. Torci com o coração inteiro para que aquele otimismo fosse tão logo também meu, que tenho tido mais trabalho por fazer que fé em certos tipos de homens e mulheres, mais dúvidas que disposição para ginástica, mais medo de determinados vivos que da maioria dos mortos. Desejei igualmente que aquela frase de cinema se tornasse a cada dia mais minha, de todos nós:

– Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida.

Obrigada, 2015.
Seja bem-vindo, 2016.

desde o fim até o começo

Finais de ano são um desafio em si mesmos. O tempo encurta. O barulho aumenta. O clima esquenta. O ritmo acelera. A respiração segue a cadência do mundo e pesa. Mesmo que a experiência de períodos anteriores garanta que em breve as coisas se acalmam, o equilíbrio construído a duras penas nos meses que ficam para trás ameaça ruir. A lista de tarefas, exatamente como o preço do feijão, o gás, a luz, o telefone e o operário, não cabe no poema – porque o poema, senhores, está fechado, e não há vagas.

As exigências são inúmeras: dar conta das promessas que não saíram do papel, comprar os presentes do Natal, escolher as vestes do Ano Novo, preparar o cardápio da ceia, buscar os parentes que chegam de longe, acertar as contas, ajeitar a casa, limpar os papéis, a faxina no armário, a festa da firma, o amigo secreto, aquilo tudo.

Por puro pragmatismo, caminhamos rumo a resultados imediatos para questões urgentes, como se fôssemos bombeiros que correm contra o relógio para salvar uma casa em chamas, obrigação, utilidade, cozinha, entrega, família, compra, pedaço, cobrança, criatividade, força, prato, olho, faxina, planejamento, analgésico, compromisso, reunião, prazo de entrega, encontro, banco, jantar, exame, encanador, um caminhão de tarefas à espera de resoluções, a vida inteira. O que sobra à contemplação é quase nada.

Felizmente, os começos de ano são o justo oposto, porque guardam em si uma dose extra de esperança no futuro e uma extraordinária disposição para recolocar as coisas na perspectiva da generosidade com o mundo, com os outros e com nós mesmos.

Separados do peso por um pequeno espaço de tempo e tomados pela insustentável leveza do sol, os primeiros dias da nova temporada parecem feitos sob medida para a empreitada de pedalar sem desculpas, para a promessa de reencontrar os queridos de modo mais habitual, para os projetos que esperam na gaveta, para o cardápio à base de folhas frescas, legumes orgânicos e frutas da estação, para o calor, a simplicidade, a fé e o movimento.

“Estude seu viver, observe sua deriva”, escreve um professor que tem por missão despertar a capacidade de utilizar potenciais criativos para impulsionar as mudanças desejadas por seus aprendizes. Cada passo, cada reação e cada nova forma de pensar surgida entre uma e outra lição são fundamentais, ele anota; o que nos coloca para andar, o que acorda a nossa imaginação, o que estimula a nossa energia.

Talvez por isto, tão logo janeiro se aproxime, reservo uma noite calma, escolho as canções, tomo um lápis de boa ponta, os projetos, as metas e os sonhos e realizo o ritual igualmente silencioso de passar a limpo a agenda do ano, preenchendo o novo volume com aniversariantes e telefones de emergência, compromissos e desejos.

Costuma ser exatamente deste modo, como uma ciência poeticamente exata, na medida da esperança: em que médico voltar e quando, as contas a vencer, os contatos que preciso retomar, rever anotações, olhar para trás, avaliar projetos, reorganizar desejos, analisar feitos, tomar nota frescas do que for preciso e apagar o resto, com todo o desapego do mundo. Terminada a liturgia, estou pronta para seguir em frente.

pequeno dicionário para o ano que começou

A
Água
Alimentos orgânicos
Alongamento

B
Bicicleta
Balanço
Boas companhias

C
Chás
Creative Commons
Crônicas

D
Detox
Diversão
Discos de vinil

E
Estampas
Estudos
Escrever

F
Filtro 40
Foco
Frutos do mar não pode

G
Gastronomia sentimental
Gengibre
Gim com água tônica

H
Humor
Havaianas
Here Comes the Sun, a música

I
Iogurte com granola
Inspirações
Interesses novos

J
Jazz
Janelas abertas
Jornalismo

K
Kind of Blue [o disco]

L
Leveza, sempre que possível
Livros
Liberdade

M
Movimento
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo
Medicina Tradicional Chinesa

N
Nachos
Namorar
Nina Simone

O
Olhar o mar
Óculos de sol
Óculos de grau

P
Pão integral
Plantas na varanda
Paciência e perseverança

Q
Queijo sem lactose
Quitanda
Quase um Segundo nas escolas do Estado

R
Receitas novas
Respirar profundo
Rubem [a revista]

S
Sol
Saúde
Sossego

T
Tomate [o esmalte]
Trabalho bem feito
Tom maior

U
Universidade
Utopias possíveis
Uva passa sem caroço

V
Viajar, voltar
Vitória [a cidade]
Vida Simples [a revista]

W
Wi-Fi
Waffle
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
Xampu com cheiro bom
Xadrez [no guarda-roupa]
Xô, energia negativa

Y
Yin-Yang
Yoga
Yes, we can

Z
Zen
Zoombido [o programa de TV]
Zarpar quando for preciso

14 coisas que aprendi em 2014

1. A paz não é tarefa fácil, mas respirar fundo, apostar no poder da serenidade e acreditar que a saída quase sempre aponta para o que for simples ajuda a, quase sempre, transformar peso em força, exemplo em inspiração, limão em limonada.

2. Atitudes e palavras gentis demonstram força, não o seu oposto. Confiança, respeito e admiração são sentimentos incrivelmente mais poderosos do que medo, obediência e subserviência. Precisamos não apenas de lógica, de logística, inteligência, organização e eficiência, mas também de sensibilidade e afeto para compreender as transformações do mundo. Devemos não apenas trabalhar duro, mas igualmente investir em encontros com aqueles que pensam menos na posse e mais no sentido, menos no acúmulo e mais na permanência, menos no exagero e mais no equilíbrio, menos no poder e mais na potência.

3. A humildade talvez seja parente próxima da beleza, ou então da simplicidade, aquela que o implacável imperador encontrou, depois de duas décadas de conquistas e crueldades, em uma pequena horta na sua terra natal. Certo dia, diante da sugestão de que retornasse ao poder, o ex-imperador teria dito:
– Se você visse meus lindos repolhos, não me pediria uma coisa dessas.

4. Cartografia é uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa.

5. Depois de um tempo e a certa distância, até o rancor vira outra coisa e a verdade feita de saudade, ciúme, cansaço, ansiedade e apego abre espaço para a percepção de que rupturas são indispensáveis, de que coragem e criatividade fazem melhor ao mundo que conformismo. Em outro momento ou de um lugar diferente, uma angústia sufocante não passa de nada, o pior ressentimento não passa de uma lembrança vaga, um monstro gigante não passa de um ciuminho bobo, uma paixão incurável não passa de um amontoado de memórias. Em outro momento ou de um lugar diferente, os pesos pesam menos e, depois de algumas horas de sono, dá até pra reconhecer o tamanho do passo que pareceu pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso. Depois de um período e a certa distância, as coisas mudam, ou então muda o olhar que colocamos sobre elas.

6. Adianta bem pouco acumular mil experiências se a mente não descansa.

7. Emoção mal digerida é como comida pesada: faz mal ao estômago, sobrecarrega o fígado, atravanca o intestino. Se, conforme determina a medicina tradicional chinesa, a barriga for o centro do homem, os sentimentos negativos, preocupação excessiva e pensamentos obsessivos alteram profundamente o funcionamento de certos órgãos, deixando o corpo todo em total desarmonia.

[Ai].

8. Mia Couto tem toda razão. Cozinhar é um modo de amar os outros.

9. Eugenio Mussak também sabe o que diz: o que dá a verdadeira dimensão de um lugar, seja uma casa, uma cidade ou um planeta, não é o quanto que ele é grande, mas o quanto que ele é justo.

10. Desde remotos anos antes de Cristo, a civilização Maia tinha tinha por hábito medir a passagem dos dias e respectivas noites, registrar o movimento dos astros, demarcar as celebrações religiosas, as vitórias militares, a fundação das cidades e as colheitas, além de erguer nas pedras inscrições que contribuíssem para a memória das gerações futuras. Os ciclos se repetiam de 13 em 13 luas de 28 dias cada, somando 364 dias, com início em 26 de julho e fim no 24 de julho seguinte. O dia 25 não pertencia nem a um ano nem ao outro, e os maias o chamavam de O Dia Fora do Tempo. Durante estas 24 horas, as tarefas eram meditar a respeito da vida, agradecer pelo resultado das semeaduras anteriores, cancelar dívidas materiais ou metafísicas, dedicar-se às artes, elevar o estado de consciência e respirar com toda a liberdade do mundo. Nelas se concentrava a energia para o período que em breve começaria, bem ou mal, alegre ou triste, leve ou pesado, de acordo com o que fosse – bom ou mau, alegre ou triste, leve ou pesado – o Dia Fora do Tempo.

Taí, gostei.

11. A dica 11 do livro de autoajuda é, como a de número 171 em 2013, inacreditavelmente eficiente, apesar de livro de autoajuda ser aquela coisa: “Quando estiver de bom humor, sente-se à sua escrivaninha e faça uma lista de atividades, comidas, lugares, pessoas e situações que o fazem se sentir bem”.

12. As dicas 26, 27 e 28 de um outro exemplar também funcionam:
Descarte as coisas que não usa mais | Descarte os hábitos e sentimentos que você ainda usa, mas que são nocivos ao seu bem estar | Poupe ao menos 20% de seu ganhos

13. Dançar é um santo remédio. O que diz a canção faz bem igual: “Cuide tudo o que for verdadeiro. Deixe tudo o que não for passar”.

14. O vento sul guarda a melancolia dos domingos de inverno, mas também a leveza do descanso e a imensa possibilidade dos recomeços, limpar o céu com sua força, inspirar palavras com a tristeza que prenuncia, dispersar os maus presságios que insistem apesar da fé, como fosse não apenas o movimento do ar em relação à superfície terrestre com variações de velocidade e direção, mas também um pequeno teco de esperança, uma canção em tom maior, um abraço com o braço mais firme de todos, a crônica otimista do instante que passa:

“Não há muita pressa, mas é preciso aprender a continuar. É preciso plantar uma rosa, cumprir promessa, escrever o poema que um dia pediram de mim, numa mesa de bar. É preciso voltar a crer, e você, Maria, nunca mais vai dizer que já não é mais tempo de esperar. Nunca senti que a vida exigisse tanta esperança de mim, como exige agora. Deve haver sempre a espera, enchendo todas as mãos, todos os olhos, todos os silêncios. Não deve faltar jamais a esperança, Maria: ela precisa estar também no sonho, no gesto, em todas as palavras e em todas as canções”.
Carmélia Maria de Souza

o dia fora do tempo

Dizem que o gosto da civilização maia por entender o sentido histórico das coisas colocou o tempo como preocupação central de seu povo. Havia o hábito entre os ocupantes do fértil Vale do Yucatán, desde remotos anos antes de Cristo, de medir com zelo a passagem dos dias e respectivas noites, registrar de modo minucioso o movimento dos astros, demarcar as celebrações religiosas, as vitórias militares, a fundação das cidades e as colheitas, além de erguer nas pedras inscrições que contribuíssem para a memória das gerações futuras.

Os ciclos se repetiam de 13 em 13 luas de 28 dias cada, somando 364 dias, com início em 26 de julho e fim no 24 de julho seguinte. O dia 25 não pertencia nem a um ano nem ao outro, e os maias o chamavam de O Dia Fora do Tempo.

Taí: gostei.

Durante 24 horas, as tarefas eram meditar a respeito da vida, agradecer pelo resultado das semeaduras anteriores, cancelar dívidas materiais ou metafísicas, dedicar-se às artes, elevar o estado de consciência e respirar com toda a liberdade do mundo. Nelas se concentrava a energia para o período que em breve começaria, bem ou mal, alegre ou triste, leve ou pesado, de acordo com o que fosse – bom ou mau, alegre ou triste, leve ou pesado – o Dia Fora do Tempo.

Como nos primeiros dias do ano e apesar do tempo que às vezes não há, no Dia Fora do Tempo a ordem podia ser entender o que realmente importa, ficar próximo do que nos emociona e dispensar o resto, celebrar o sol tímido dos dias de julho, o cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola, os planos para a reforma da cozinha, as pequenas festas, as boas companhias ou a vontade de reencontrar os parceiros que suavizam com seu afeto as outras ausências.

A ordem podia ser firmar os músculos, respirar profundo, investir na capacidade de superar as adversidades, perdoar até aqueles que nos prejudicam porque são movidos pela vaidade, pela prepotência ou pela insegurança. Podia ser entender o próprio tempo, respirar antes da explosão, suavizar antes do julgamento, reduzir as expectativas, esperar um pouco além do previsto, com toda calma possível dentro. Podia ser a ordem no Dia Fora do Tempo ver o mundo com os olhos da delicadeza, tanto quanto possível, mesmo que nem sempre e depois dançar you make me feel there are songs to be sung.

[O senhor me faz sentir que há canções para cantar, Frank Sinatra].

No Dia Fora do Tempo, a ordem podia ser fazer como fazem os ganeses no ano novo deles: cavar um buraco no chão, colocar a boca e contar o que se passou de ruim, “cobrir” as palavras com terra e discorrer suavemente sobre as coisas boas que deseja, jogar um pouco de vinho ou cachaça sobre a terra em homenagem aos ancestrais e, enfim, beber também um pouco. Podia ser, como nos primeiros dias do ano e apesar do tempo que às vezes não há, um período dedicado a olhar pra trás, avaliar projetos, reorganizar desejos, rever feitos, tomar nota do que for preciso e apagar o resto, com todo o desapego do mundo.

O Dia Fora do Tempo seria então tomado pela leveza dos começos, pela fé no movimento, pela esperança em dias melhores e as orações a postos, para que o grandioso e bom Deus mais uma vez amenizasse as faltas, perdoasse os deslizes, aliviasse os excessos, instaurasse o equilíbrio e mantivesse a paz, pelo próximo ano e sempre, amém.