as histórias que nos contam as estantes na pandemia

As histórias que contamos ao longo da pandemia não são como as de antes. Afinal, isolados como estamos, as narrativas têm quase sempre a casa como cenário e nós, os que vivem conosco e os bichos de estimação como personagens. Às vezes um ou outro fantasma surge nas avenidas, viadutos e vielas da memória. Mas, de um modo geral, poucas são as variações nas resenhas da quarentena e seus temas centrais, a saber: cansaço, saudades, a inquietude com relação ao futuro, o pão, a louça pra lavar e as perdas do caminho.

Agora imaginem se pensarmos nas estantes de livros como um elemento a mais da narrativa construída ao longo do confinamento? Prateleiras e mais prateleiras alçadas à condição de cenário com toda sorte de tipos, sentimentos, diálogos e desfechos à espreita…

O que o velho exemplar de “Cartas Extraordinárias” atrás de mim, por exemplo, indica aos colegas quando apareço na videoconferência da firma? Aquele surrado volume de “O Mal Estar da Civilização” esconde mesmo o que penso que ele esconde? A fila de livros de Hermann Hesse milimetricamente postos em ordem cronológica quer dizer o que? O fato de “Demian”, “Sidarta”, “O Lobo da Estepe” e “O Jogo das Contas de Vidro” virem em sequência, enfileirados, mas sem “Narciso e Goldmund”, guarda algum tipo de segredo ou contradição?

Gostei do que fez o New York Times há poucos dias a este respeito: revelou o que as estantes dizem sobre as pessoas em frente delas nas lives que povoam a quarentena.

O músico Yo-Yo Ma lê, leu ou pretende ler, quem sabe, sobre como lidar com medo de palco. O ator Tom Hanks tem livros sobre política até o teto, incluindo, por exemplo, as transcrições das conversas de telefone de Lyndon Johnson, o presidente de número 36 dos Estados Unidos, a respeito da Guerra do Vietnã.

Anna Wintour, a difícil e influente editora-chefe da Revista Vogue, ostenta um exemplar de “The Nix”, de Nathan Hill, o irônico relato de um escritor fracassado obrigado a lidar com antigas feridas após o ressurgimento da mãe, e outro de “Naming Names”, o volume de Victor S. Navasky sobre a caça aos comunistas de Hollywood na década de 1940.

A atriz Gwyneth Paltrow prefere temas mais amenos, mas nem tanto: a vida das estrelas na Riviera Francesa e as pinturas simbolistas de Gustav Klimt. A colega Cate Blanchett, por sua vez, coleciona livros como “Pós-capitalismo: Um Guia Para o Nosso Futuro”, do jornalista britânico Paul Mason, e “Moscow, 1937”, do historiador alemão Karl Schlögel, além de uma edição completa, em papel, do Dicionário Oxford, com seus 20 volumes, 21 mil páginas e mais ou menos 350 milhões de caracteres a respeito de um monte de coisas.

Estantes e livros são vastos como o mundo de Drummond.

você sabe com quem está falando?

É o professor Mário Sérgio Cortella quem diz, numa palestra famosa de 2005: somos um entre 6,4 bilhões de indivíduos no planeta, pertencentes a uma espécie entre outras três milhões de espécies classificadas, que vive num planetinha, que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer.

Quinze anos depois da palestra famosa, deixamos de ser 6,4 bilhões de indivíduos no planetinha que gira em torno de uma estrelinha para sermos 7,6 bilhões. Há alguns dias, um homem entre estes 7,6 bilhões de indivíduos saiu para caminhar sem máscara na orla de Santos, litoral de São Paulo, contrariando a legislação local, que obriga o uso do acessório em vias públicas da cidade durante a pandemia do coronavírus. 

A cena foi exaustivamente noticiada, compartilhada e comentada. Embora seja um entre os cerca de dois mil desembargadores do Brasil – um profissional a serviço do cumprimento da lei, portanto -, o homem sem máscara de Santos tentou intimidar o policial que questionou sua conduta, rasgou a multa e ligou para o secretário de Segurança Pública. O motivo: julgar que deveria ter um tratamento diferente dos outros habitantes do planetinha que gira em torno de uma das 100 bilhões de estrelinhas que compõem a nossa galáxia.

Poucos dias antes, um casal num bar do Rio de Janeiro durante uma fiscalização da Vigilância Sanitária e um empresário de São Paulo denunciado por violência doméstica tiveram julgamento parecido. Tanto a fala da mulher no Rio – “Cidadão não, engenheiro civil, formado. Melhor do que você.” – quanto a do homem em Sampa – “Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um bosta. Aqui é Alphaville, mano!” – demonstram um sentimento de superioridade diante dos outros tão profundo quanto equivocado.

O que os faz defender que a vontade individual, o endereço de luxo ou os contatos que têm são mais fortes que o bem coletivo, a saúde pública e as regras do país é a sensação de privilégio. Uma sensação que, infelizmente, tem tudo a ver com o Brasil. 

memórias de um tempo de exílios falências e mudanças

Havia uma lupa entre os pertences que herdei na passagem do meu pai. Um pequeno artefato que, graças à engenhosidade de romanos e chineses do século VI antes de Cristo, permite enxergar com lente de aumento objetos que, de outro modo, quase não se vê.

Livros de letra miúda, as entrelinhas de um contrato, detalhes e entalhes de um móvel feito à mão. As fusas e semifusas de uma partitura desbotada pelo tempo. O porta-retrato posto no exato ponto que separa o esquecimento da obsessão. Objetos vistos com lente de aumento graças à engenhosidade de romanos e chineses do século VI antes de Cristo.

É a Física quem diz: com as lupas e suas lentes convergentes, temos uma imagem virtual, direita e maior de um objeto real. Para que a imagem se forme, o objeto deve estar entre o foco e o centro ótico da lente. O tamanho da imagem produzida na retina varia de acordo com o ângulo que o objeto ocupa no campo de visão. 

A posição precisa ser firme, sem grandes variações. Caso contrário, letras miúdas, entrelinhas, detalhes, entalhes, fusas, semifusas, esquecimento e obsessão tornam-se um borrão, uma mancha, um rabisco imperfeito da ausência, da distância, da névoa e do descuido.

Alguém escreveu, com toda razão, que vivemos um período de ruínas. De empregos e empreendimentos aos sistemas de saúde, da ética dos homens públicos ao bom senso do capitão, dos projetos para 2020 ao coração do meu pai, as falências estão por toda parte. 

Até o tempo anda bugado nos últimos meses, correndo contra si mesmo enquanto cancelamos projetos e celebridades, sovamos pão e incertezas, envelhecemos diante de sonhos, rotinas e encontros suspensos pela pandemia. 

Vivemos, respiramos, trabalhamos, escrevemos, postamos. Abrimos portas para o essencial. Descemos escadas, evitamos elevadores. Lavamos a louça para em seguida sujar outra vez. Mesmo que a contragosto, adotamos novos hábitos. Pouco a pouco, construímos com o que temos à mão as memórias deste tempo de exílios, falências e mudanças.

rotina na pandemia é feita de miudezas do cotidiano e esperança em dias melhores

Poucos meses atrás, éramos um acúmulo de sonhos, projetos, fazeres, prazeres e afazeres. Afetos, dores, alegrias, encontros, ausências e memórias dividiam espaço com metas e objetivos de prazos variados, mais ou menos organizados, dependendo do afinco e da disciplina de cada um. Mas, desde o início da pandemia, a vida parece se alimentar apenas das miudezas do cotidiano e da esperança em dias melhores. O calendário avança, e nós seguimos, envelhecendo diante das coisas grandes suspensas pelo coronavírus e suas curvas assustadoramente ascendentes.

A boa notícia é que o miúdo da vida nunca foi tão significativo. Na falta de alternativa mais excitante, o ganha-pão dos cronistas ganhou também a atenção dos outros. 

Assim, de obrigações periféricas e desbotadas, o expediente para cumprir, a louça suja, a roupa lavada e as compras à espera de desinfecção viraram acontecimentos dignos de nota. O bicho de estimação, o que disseram no grupo da firma, o pão feito em casa, eles e tantas outras pequenas rotinas que antes até podiam passar despercebidas agora preenchem o vazio criado pelo isolamento e pelas más notícias.

Li estes dias um poema da poeta carioca Marília Garcia que diz o seguinte, assim mesmo, em minúsculas: 

“o que se passa todos os dias e que volta todos os dias
o banal o cotidiano o óbvio o comum o ordinário
o infraordinário
o barulho de fundo o hábito
— como perceber todas essas coisas?
como abordar e descrever aquilo que de fato
preenche a nossa vida?”

A pandemia ceifou pelo menos 400 mil vidas até agora. Interrompeu projetos, ampliou distâncias, colocou a morte diariamente no nosso campo de visão, levou gente querida de muitos de nós, colocou muitos modelos em xeque. Mas também nos mostrou que, de fato, há vida escondida no que é banal, habitual, ordinário. E, na despercebida potência do cotidiano, no enorme significado dos objetos à nossa volta e na força do que fazemos enquanto esperamos, quem sabe está uma saída para dias melhores. 

a peste da insônia

Ilustração do livro Cem Anos de Solidão

Apesar das incertezas e perdas produzidas pela pandemia, uma ou outra estrela bailarina têm nascido deste imenso caos que se instalou desde a chegada do coronavírus. Quero sugerir uma delas para vocês: o curta-metragem “La Peste del Insomnio”, que podemos traduzir como “A Peste da Insônia” e assistir gratuitamente  no site www.fundaciongabo.org e no YouTube

No filme de 15 minutos, 30 atores latino-americanos lêem trechos do mágico romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, descrevendo uma quarentena parecida com a que estamos atravessando – uns com mais juízo, outros com menos. 

Os trechos nos contam a respeito de uma epidemia que assolou Macondo, a aldeia do livro publicado em 1967. A Peste da Insônia fez um, depois dois, depois todos os habitantes da cidade perderem completamente o sono. E, embora o patriarca José Arcadio Buendía acreditasse que a doença era bem-vinda, porque faria a vida render mais, a epidemia escondia uma consequência terrível. Os dias e noites em claro evoluíam para o esquecimento, sumiam com as lembranças, o nome e a noção das coisas, a consciência do ser.

Ironicamente, Gabo perdeu-se da própria memória pouco antes de morrer, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos. Na época, parou de falar ao telefone, porque não reconhecia os interlocutores pela voz. Quando não sabia com quem conversava, fazia perguntas genéricas como “o que tem feito?”para tentar reencontrar o rumo. Coisas mais antigas, segundo consta, continuaram intactas na cabeça mirabolante do menino pálido, subnutrido e atormentado pelos piolhos que se tornou um dos maiores escritores do mundo.

Gabo morreu em 2014, dois anos depois de perder a memória. “Cem Anos de Solidão” permanece como um dos livros mais importantes da vida de muitos de nós. A Peste da Insônia encontrou a cura. Como Melquíades, o cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal que levou o gelo e outras invenções a Macondo, “La Peste del Insomnio” é uma pequena dose de imaginação e esperança, um pequeno alento em meio a tantas más notícias.

krespinha, e o vento levou e o racismo que quase não se vê

Quase 5 milhões de escravos negros cruzaram o Oceano Atlântico entre 1500 e 1850. Passamos 388 dos 520 anos da nossa História escravizando oficialmente os que vinham da África e seus filhos. Nos outros 132 anos, vimos a prática abolida no papel seguir impregnando o pensamento, a educação, as instituições e as estruturas deste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas extremamente preconceituoso.

Avançamos um pouco, mesmo que ainda falte muito. Ampliamos o debate sobre a importância da diversidade nas organizações, embora ainda haja um bocado a ser feito. Protestamos contra mortes movidas pela cor da pele. Vimos leis mudarem. 

Muitos de nós reconhecemos que o racismo não é um problema apenas dos negros. Entendemos que nós, brancos e misturados, precisamos nos posicionar a respeito dele, olhá-lo a partir da justiça, da empatia e da compreensão com o povo preto e seus ancestrais.

Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, somos obrigados a conviver com retrocessos inacreditáveis como as mortes de Miguel Santana da Silva, João Pedro Mattos, George Floyd e tantos outros. Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, comentários e postagens racistas inundam o ambiente digital todos os dias. 

Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, somos acordados numa quarta-feira de 2020 com o relançamento de uma esponja para limpeza pesada que remete, jocosamente, ao cabelo crespo e à mulher negra. 

Criticar a Bombril por trazer de volta ao mercado um produto dos anos 1950, sem levar em consideração seu racismo escancarado, não é mimimi nem falta de empatia. A esponja que “remove sujeiras e gorduras de um jeito rápido e eficaz, sem esforço”, conforme descrição no site oficial da marca (logo depois retirada do ar), é o passado esmurrando a porta para assombrar aqueles que ainda sofrem com a herança escravocrata e a desigualdade racial. 

Felizmente, três ou quatro dias antes, demos um pequeno passo adiante. Depois de um contundente apelo publicado no jornal Los Angeles Times pelo diretor e roteirista do filme “12 Anos de Escravidão”, o clássico “E o Vento Levou” foi retirado temporariamente do catálogo da distribuidora Warner. Uma mensagem será colocada antes do filme, de modo a explicar o cenário histórico em que ele foi feito e o contexto ali exibido. 

“E o Vento Levou” relata com pompa, circunstância e nostalgia a escravidão no sul dos Estados Unidos e a guerra travada para que ela fosse mantida. Um autêntico representante da era de ouro de Hollywood. Quatro horas de romance, aventura, tragédia, humor, frases antológicas, um ícone na trilha sonora. Dez vezes premiado no Oscar. E uma perspectiva racista, muito racista, em seu ponto de vista favorável à escravidão.

Não custa lembrar: racismo estrutural é um conjunto de práticas históricas, culturais, políticas e institucionais que privilegiam um grupo racial e desfavorecem outro. De tão agarrado na cultura, na polícia, na política e na economia, há quem diga que ele nem existe. Mas ele está aqui, ali, em qualquer lugar, e se revela na ausência de negros em espaços de poder, de saber e de fazer. 

O racismo estrutural tem relação direta com a escolha da Bombril e se encontra na raiz das mortes de Miguel, João Pedro, George Floyd e tantos outros. Ele está aqui, ali, em qualquer lugar, impregnando o pensamento, a educação, as instituições e as estruturas deste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas extremamente preconceituoso. 

o dia em que machado de assis encontrou george floyd

Protesto contra a morte de George Floyd. Foto de Guillaume Issaly

Um alento vem de longe nestes dias de sonhos, planos, perspectivas, projetos e 300 mil vidas ceifados pela pandemia. É Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho, um sujeito que nos conforta com suas palavras desde 1861 e que volta à baila para nos lembrar, uma vez mais, do que é oposto à ignorância, ao peso, à brutalidade e ao desencanto. 

Na terça-feira 2 de junho, uma nova tradução de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para o inglês chegou aos Estados Unidos. Os exemplares se esgotaram em menos de 24 horas. Coincidência ou não, era o oitavo dia dos protestos desencadeados pelo assassinato de George Floyd, um ex-segurança negro como Machado de Assis, seu pai e seus avós.

Floyd, como se sabe, foi asfixiado por um policial branco por causa de uma nota falsa de 20 dólares. Sua frase final se transformou em um dos gritos de guerra das manifestações que começaram com os norte-americanos e se espalharam pelo mundo: “Não consigo respirar”. 

Machado de Assis, filho de ex-escravos alforriados, teve melhor sorte, se assim se pode dizer. Mas enfrentou durante toda a vida o racismo, a herança escravocrata e a ambiguidade de criticar a burguesia ao mesmo tempo em que ascendia para dentro dela. 

“Memórias Póstumas” foi lançado em 1881, sete anos antes da abolição da escravatura. No romance, o finado Brás Cubas, filho de uma típica família da elite carioca no século XIX, decide escrever sua autobiografia a partir do túmulo. O morto nos conta sua saga com ironia e acidez, dedicando o volume póstumo ao verme que primeiro roeu as frias carnes de seu cadáver.

O protagonista revê a infância de menino rico, mimado e endiabrado, a paixão por uma prostituta que durou 15 meses e 11 contos de réis, e também a própria morte. A causa: pneumonia, adquirida enquanto ele trabalhava obsessivamente na criação do emplastro Brás Cubas, um medicamento sem comprovação científica que se pretendia destinado a aliviar a melancolia da humanidade. 

[Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência].

Ao revisitar a própria trajetória, o defunto Brás Cubas retrata também a escravidão, as desigualdades sociais, a chegada dos valores liberais ao país e a tentativa de modernização de uma elite enraizada no atraso. “Memórias Póstumas” – palavras do autor – é um livro que, por mais risonho que pareça, guarda um sentimento amargo e áspero. Não deixa de ser curioso que ele volte a ser notícia exatamente agora.

mulheres invisíveis

Fernanda Montenegro em cena do filme “A Vida Invisível”

Por diversas razões, “A Vida Invisível” é um filme de partir o coração. Porque duas irmãs se perdem de vista, separadas pelas circunstâncias da vida e pelo machismo da família. Porque ambas são silenciadas em seus maiores desejos. Porque determinados acordos escondem um doloroso e desigual domínio de uma parte sobre a outra. Porque, como Guida e Eurídice Gusmão, há muitas mulheres que apenas ficam. 

A história se passa na década de 1950, mas podia ser hoje, na noite passada ou agorinha mesmo, enquanto o isolamento social exigido pela pandemia do coronavírus amplia os registros de violência contra a mulher, as separações e as diferenças entre ricos e pobres. 

Filhas de um conservador casal português, Guida e Eurídice Gusmão são como água e vinho. Eurídice é uma jovem tímida, realista e retraída que deseja ser pianista profissional. Guida é expansiva, sonhadora e extrovertida, e tem como meta encontrar um amor de verdade e, no caminho, se divertir um pouco. 

A ingenuidade delicada da dupla contrasta com a rispidez do pai, com a omissão da mãe e com o destino que as espera. Guida foge com um marinheiro grego, viaja, casa, separa e engravida, nesta ordem. Expulsa de casa por causa da gravidez sem marido, enfrenta a dura realidade da vida operária para criar o filho. 

Sua invisibilidade vem da condição de mulher social e economicamente vulnerável. A de Eurídice está dentro de casa, no marido aparentemente cortez que personifica a violência sexual e psicológica vista como normal em muitas famílias, especialmente naquela época, mas ainda hoje. 

Uma ou outra delicadeza se impõem no duro cotidiano das irmãs: a música, a amizade como espaço de resistência e transformação, as cartas que Guida destina a Eurídice sem saber se realmente foram entregues. 

Ao narrar a história de duas irmãs silenciadas pelo patriarcado e pela opressão social, em uma longa caminhada interior que elas percorrem sempre no mesmo lugar, o filme de Karim Ainouz homenageia, de algum modo, todas as mulheres invisíveis do mundo.

como aderir ao “novo normal” ou quem sabe escapar dele

Vitória (ES), meados de maio, 2020, outono-inverno. O isolamento social exigido pela pandemia do coronavírus continua, apesar dos comportamentos e recomendações que navegam perigosamente pelo caminho contrário. Em meio às notícias em profusão, mortes distantes, perdas próximas e piadas de gosto duvidoso, uma expressão chama minha atenção: o “novo normal”. 

A combinação parece ter ganhado força nos últimos meses, quando percebemos que a pandemia não apenas havia se instalado para durar, como também nos obrigaria a mudar antigos hábitos e certas formas de fazer as coisas. 

Ainda não sabemos como vamos sair desta fase, mas é certo que sairemos diferentes, dizem que mais empáticos, quem sabe mais conscientes, um pouco menos consumistas talvez, possivelmente mais solitários. Sairemos do isolamento mais solidários e menos apegados às convenções que vimos cair por terra enquanto estávamos trancafiados em casa? Sairemos mais silenciosos ou, pelo contrário, mais falantes do que nunca?

Afinal, o que devemos fazer para aderir ao “novo normal” – ou quem sabe escapar dele?

Pode ser que o contexto nos ajude a entender, um pouco que seja. O “novo normal” é uma expressão cunhada pelo economista norte-americano Mohamed El-Erian em maio de 2009, 11 anos atrás, portanto. Sua inspiração foi o cenário global pós crise de 2008, considerada a mais grave desde a Grande Depressão de 1929. Segundo ele, o novo normal traduzia a ideia de que, após 2008, o mercado passou a ter características bem diferentes das que até então apresentava.

Corta para a pandemia que chacoalhou o mundo do pior jeito possível, com quase 5 milhões de infectados em seis meses, 320 mil mortos no mundo, 20 mil no Brasil, até a noite de 20 de maio e em curva ascendente. Visto que a Terra não é plana, rodamos um pouco e nos deparamos, novamente, com o “novo normal”. Ou, mais exatamente, o novo “novo normal”.

Mais uma vez, pode ser que o contexto nos ajude a entender, um pouco que seja. 

O novo “novo normal” significa tornar comuns atitudes que antes nos eram estranhas. Andar de máscara na rua, por exemplo. Trabalhar em casa. Cumprimentar com o cotovelo. Sorrir com os olhos. Comprar dos pequenos negócios locais. Comer em casa, limpar as sacolas do supermercado, logística para sair, ritual de desinfecção na volta, happy hour virtual, sapatos na entrada, saudades na estante, certezas na gaveta. 

O novo “novo normal” como um modelo de vida que vamos descobrindo aos poucos, a duras penas. Com menos poluição, mas menos emoção também. Com mais equilíbrio no consumo, mas menos dinheiro também. Com mais amigos desempregados e a maioria das possibilidades perdidas na pandemia. Com a pele melhor, mas cheia de desesperança. Com um pouco de esperança também, mas medo do futuro, do espirro, de quase tudo. Com a impressão de que o tempo parou, mas a vida corre lá fora, à espera de reinvenção.

vida noturna

Foto de Jordon Conner

Em uma passagem do livro Diários de Bicicleta (2009), David Byrne reflete sobre como seria se a História da humanidade fosse contada por meio da vida noturna. Um século depois do outro explicados não pelas guerras, acordos, derrotas, vitórias, recuos e transformações, mas pelo modo como se dão as manifestações e celebrações madrugada adentro. 

O líder da banda Talking Heads é um entusiasta de boas causas, entre elas a música brasileira, a boemia e a sensação de liberdade que acompanha o hábito de pedalar.

Seu livro apresenta a visão de um sujeito que tem a bike como principal meio de transporte desde os anos 1980. Uma janela mágica que o deixa observar o funcionamento das coisas, o ritmo da vida, a arquitetura do mundo e geografia das cidades.

A tese é a seguinte: o que acontecia nos cabarés da República de Weimar, na década de 1920, prenunciava a Segunda Guerra, assim como o punk rock foi um reflexo sombrio da Era Reagan e seu explosivo duo conservadorismo-militarização. Da mesma forma, o fervo que se via nas icônicas casas noturnas Studio 54 e o CBGB refletia a profunda desilusão que se abateu sobre Nova York nos anos 1970, numa espécie de avesso da crise que quase levou a cidade a um colapso. 

Para Byrne, a vida noturna pode oferecer uma visão mais profunda de certos períodos históricos e políticos do que os registros oficiais. A partir desta perspectiva, ele diz, pode ser que conseguíssemos entender o presente ou o futuro olhando para as pistas de dança, a cena cultural ou as mesas de bar. 

Se Byrne tiver razão, e eu não duvido que tenha, as maneiras que temos encontrado coletivamente para lidar com o isolamento necessário ao combate do coronavírus servem como pequenas pistas para o cenário que se desenha para o mundo pós pandemia. 

Vida noturna não há [são exigências do momento], mas um sentimento coletivo de cooperação e uma profunda nostalgia de quando podíamos antecipar golpes e revoluções, avanços e recuos, crises e revezes no tempo passado entre canções, conversas ao pé do ouvido, amigos, amores, desafetos e algumas doses de gim.