carta aberta a uma amiga que está de mudanças

Vitória, 6 de outubro de 2019

Querida Jana, 

Tem um texto seu que não me sai da cabeça. Um texto de quando você olhou com atenção para a sua imagem no espelho e viu que a tristeza do último ano te deu um bocado de quilos. Um texto sobre a tristura em forma de peso ter agarrado nas suas coxas e barriga e peitos e bochechas, ao mesmo tempo em que abriu um buraco do lado de dentro, um nada escuro, enquanto a volta foi enchendo e enchendo. Um texto lindo como tantos outros que você escreve e eu, de longe, admiro e rio e choro e penso:

– Caramba, preciso ligar para a Jana.

Preciso dizer como é inspirador vê-la superar tanta coisa e ainda rir aquela gargalhada contagiante, estudar um bocado, mas não deixar a leveza de lado, ter sensibilidade, inteligência, beleza, elegância e humor a despeito do que falta. Preciso saber timtim por timtim a respeito dos planos para a temporada em Portugal, o doutorado, a filha que vai e a filha que fica, as amizades e os desafetos, a casa nova, os amores todos. 

Preciso dividir o que aprendi sobre autocuidado no dia em que me vi obrigada a cuidar um pouco de mim, mostrar o projeto sobre as crônicas da Carmélia e o chumbo daqueles tempos de dureza que você bem sabe. Preciso compartilhar os fatos da tarde em que entendi que o que nos define é a forma como levantamos depois de cair. Preciso matraquear um pouco sobre as últimas quedas que, menina, nem te conto.

Preciso praticar o verbo matraquear e saber detalhes de como a tristura em forma de peso agarrou nas suas coxas e barriga e peitos e bochechas, ao mesmo tempo em que abriu um buraco do lado de dentro, um nada escuro. Preciso dizer do texto que você escreveu e eu li, admirei e ri e chorei e pensei:

– Caramba, preciso tomar um vinho com a Jana [e quem sabe duas Margaritas]. 

Preciso falar da lição aprendida com a moça em tratamento paliativo contra um câncer que tomou todo o corpo e não há mais nada a ser feito pela Medicina: o Sagrado não está à disposição das nossas vontades e, por isso, temos de fazer a parte que cabe a cada uma de nós. Preciso confabular com você a respeito da parte que cabe a cada uma de nós. Preciso de meia dúzia de conselhos, por favor.

Preciso falar dos quilos que também ganhei, e dos porquês. Preciso mostrar para você aquele parágrafo sobre as horas de dúvida em que a resposta, serena e certeira, morava invariavelmente na sala da sábia chefa que está de mudanças para Portugal. 

Mudanças, assim mesmo, no plural. 

Preciso dizer das mudanças assim mesmo no plural e do texto que você escreveu a respeito da tristeza e dos de quilos aos bocados, nas coxas, na barriga, nos peitos e nas bochechas. Um texto que eu li, admirei e ri e chorei e pensei: 

– Caramba, preciso visitar a Jana em Portugal. 

carta aberta aos amigos do peito

A verdade é que ando profundamente em falta com vocês.

Eu podia depositar a culpa na raridade do tempo, nas tarefas postas na lista robusta de tarefas postas, nas obrigações, urgências e emergências enfileiradas como credores impacientes à espera de um sinal, na agenda com mais atribuições que prazeres. Podia responsabilizar o tamanho do trabalho, reuniões para participar, contas para fazer, gavetas para organizar, projetos para realizar, prazos para cumprir, um depois do outro, como a autoridade policial à espera do deslize.

Podia reafirmar o fato de a coluna pesar o peso todo do mundo ou então trazer à tona os dias em que o que pesa além da conta são os olhos, supermercado, academia, conserto, a compra que a loja entregou errado, o condomínio, a geladeira, a faxina, banco, jantar, o exame que exige paciência, o encanador, a cadeira, a formatura, a visita, a encomenda, a culpa, o horário, a vida, o peso todo.

Eu podia dizer que simplesmente não deu, que o desalento venceu a força do braço, a criatividade desapareceu do mapa que norteia as palavras e as coisas. Podia dizer que os pratos ficaram pela pia, que o desânimo superou o planejamento, o cansaço engoliu o compromisso, a vontade sumiu do mapa que norteia ideias e planos.

Podia dividir a angústia dos dias em que não consegui encontrar o equilíbrio entre o gosto e a necessidade, fazer as unhas, cuidar da casa, entregar o projeto para o chefe, visitar a feira de orgânicos, sorrir para o marido, aprender francês, entender os apps, escrever um pouco e quem sabe ter espaço, tempo e a disposição certa para testar a receita daquela torta de maçã e canela que derrete na boca.

[Delícia].

Mas a verdade é que ando profundamente em falta com vocês.

As mudanças que não acompanhei, as vitórias que não contei, os dias e respectivas noites que se passaram sem que eu soubesse onde vocês estavam, e fazendo o quê, não representam o meu afeto ou consideração. Os desencontros não condizem com as minhas saudades, nem os silêncios com os meus planos. Ao contrário: queria saber do desfecho daquela história de amor, conhecer os projetos para o próximo ano, ter de volta as madrugadas em que pareceu que seríamos inseparáveis.

Não fomos.

Certas ausências ocupam um espaço tão discreto e constante que é como se sempre tivessem estado ali. Outras, ao contrário, latejam como o corte de outro dia na mão, um minuto de distração, ossos à mostra, as veias trabalhando como numa cena de um filme B de gosto duvidoso, cinco pontos costurados rente. A falta que fazem meus amigos do peito se parece mais com as últimas, embora seja também potente a verdade guardada nas linhas do Poetinha a respeito da amizade:

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Torço para que a existência de vocês seja como as zamioculcas, uma espécie de planta tão bonita quanto resistente aos anos, tão afeita à praticidade quanto generosa com os descuidos ocasionais, tão suave quanto pouco exigente com regas e adubações. Torço para que os dias que se seguem a esta carta aberta sejam férteis em reencontros, apesar da raridade do tempo, da lista robusta de tarefas postas, das obrigações, urgências e emergências enfileiradas como credores impacientes à espera de um sinal.

Torço por nós, mesmo que a distância.