o afeto é revolucionário

Certas obras de arte são capazes de aquecer os dias em que faz frio dentro de nós. AmarElo, o novo disco de Emicida, é assim: uma sequência de rimas preciosas sobre a solidariedade, a delicadeza em meio a um mar de durezas e a força do amor.

O álbum promove um encontro de diferenças, exalta a empatia, aplaude a camaradagem, aposta na inclusão e celebra o poder da diversidade.

O recado estava dado desde o lançamento do videoclipe que dá nome ao disco, quatro meses antes. No vídeo, Emicida divide as trincheiras, os vocais e a cena com as cantoras Pabllo Vittar e Majur. Nas vielas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, eles jogam luzes sobre a depressão na periferia e transformam em rap uma das mais melancólicas canções de Belchior, “Sujeito de Sorte”, de 1976.

Não é pouca coisa. Um artista negro, nascido nas quebradas da cidade de São Paulo, uma drag queen saída de São Luís do Maranhão e um gay negro, nordestino e transgênero recitando um cearense maldito numa das áreas mais violentas do Rio de Janeiro deixam claro que AmarElo não está para brincadeiras.

Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro…

Seu discurso é o do afeto, mas carrega também o peso das estatísticas de um Brasil desigual e cruel. Um Brasil onde, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto, somando 63 por dia, 23 mil por ano. Um Brasil que registra uma morte por homofobia a cada 16 horas, 552 pessoas LGBTQI+ assassinadas por ano em razão de sua orientação sexual. Um Brasil que pouco fala sobre depressão e suicídio nas áreas mais pobres e entre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, queers, intersexuais, assexuais e pansexuais.

Elos, laços, conexões: é sobre eles que AmarElo trata. O nome vem do antológico poema de Paulo Leminski (“amar é um elo | entre o azul e o amarelo”). Amar, o músico defende, é a forma mais revolucionária e instantânea de conectar as pessoas. Sentir e falar de afetos, podemos concluir, não deixa de ser um belo modo de resistência.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 7 de dezembro de 2019.

ubuntu

Ubuntu. Filosofia africana que trata da importância das alianças e do relacionamento entre os iguais, consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade, confiança, generosidade, compartilhamento e desprendimento.

O sonoro da palavra e a simetria que as vogais guardavam com as consoantes em mesmo número me fizeram suspeitar de imediato: havia algo de bom escondido nas letras milimetricamente colocadas no canto da página.

U-b-u-n-t-u.

O batuque da noite anterior ainda ecoava, estampas, tambores e redondilhas a respeito da força do povo preto e de sua longa batalha por respeito e igualdade.

Busquei ajuda na velha estante de madeira montada rente ao sofá e descobri que Ubuntu podia ser entendido como um sistema filosófico de crenças bonitamente sustentadas pelo afetuoso alicerce da colaboração.

Sua essência é como devia ser a minha, a sua, a de todos nós: um modo de viver em tudo contrário ao narcisismo e ao individualismo, uma maneira de ser em que a partilha, a empatia e a gentileza ocupam o lugar da opressão, da vaidade e do egoísmo.

Na ética Ubuntu, o bem-estar do grupo tem maior importância que as vantagens individuais, a alegria coletiva interessa mais que os benefícios particulares, o valor da humanidade guarda ligação direta com o compromisso de uns com os outros. Na ética Ubuntu, “eu sou porque nós somos”, aqui também incluídos os que já partiram, seus ancestrais e os que ainda virão.

“Umuntu ngumuntu ngabantu”. A máxima proferida no idioma zulu, uma das 11 línguas oficiais da África do Sul, resume e reforça a ideia: “Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”.

Um professor de antropologia estudava os costumes de uma tribo na África e, ao final da temporada de pesquisas, propôs uma brincadeira para as crianças do lugar. Uma cesta de doces foi colocada debaixo de uma árvore. Ao sinal combinado, as crianças deveriam correr na direção da cesta. A primeira a chegar ganharia todos os doces.

Posicionadas sobre a linha de partida desenhada no chão, as crianças esperaram pelo sinal. Quando o pesquisador gritou o um-dois-três-e-já que autorizava o início do jogo, os pequenos se deram as mãos e, de mãos dadas, correram em direção à árvore. Diante da cesta, repartiram os doces entre todos, em toda a sua doçura, até o último torrão.

Ubuntu.