o acelerador de pessoas

Olha que coisa: a pesquisadora Karin Knorr Cetina, professora de sociologia do conhecimento da Universidade de Konstanz, na Alemanha, passou 30 anos observando os pesquisadores do laboratório suíço que abriga o acelerador de partículas LHC, numa espécie de estudo etnológico da tribo dos físicos, seus usos e costumes, suas noções de carreira, prestígio e autoria e seus modos de produção do conhecimento. Descobriu que a maior máquina construída pelos homens em todos os tempos com o objetivo pouco modesto de revelar aos físicos os segredos íntimos da matéria é, também, o maior laboratório humano da história da ciência moderna. Para Cetina, o LHC, além de ter revolucionado a ciência, também mudou, e muito, o modo como os cientistas produzem seu conhecimento – antes individual e repleto de vaidades, agora coletivo e necessariamente colaborativo.

Aqui tem uma entrevista com ela, publicada pela Folha deste domingo. Aqui tem um texto sobre o acelerador de partículas e os mistérios do planeta, que escrevi no início de abril.

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o acelerador de partículas e os mistérios do planeta

Então funcionou. Cientistas anunciaram na terça passada (30) o sucesso dos testes com o acelerador gigante de partículas LHC. As colisões, com energias semelhantes às que foram atingidas na Terra nos primeiros instantes depois do Big Bang, tiveram o objetivo pouco modesto de revelar aos físicos os segredos íntimos da matéria (e, ao que parece, ufa, o mundo não acabou).

Eu, que real e vergonhosamente, desde os primeiros testes em 2008, não entendo direito a razão de tanta comoção, torço para que o acelerador de partículas de oito bilhões de dólares de fato traga benefícios para a humanidade, mas continuo defendendo a ideia que aprendi com a vida e a música: mistérios sempre há de pintar por aí.

Certos mistérios não deviam ser desvendados, magia, enigma, segredo, “até que nem tanto esotérico assim” (se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais), um olhar que você não sabe o que quer dizer, um silêncio que explica quase tudo, o que as mulheres falam no banheiro (não é nada demais, meninos, juro), uma presença que você queria ainda mais perto mas não sabe como aproximar.

Certos mistérios deviam ficar misteriosos como nasceram, um diálogo feito quase todo de cheiro, toque, abraço, uma conversa sem conclusão ou os dias curiosos da minha amiga que viajou pra longe, as tentativas certas dela, as respostas-surpresa, o poema dela, o pulso que segue em caráter de emergência e ela vai, pasma, no trampolim que cai na balança do mundo, aprendendo a suportar o rompimento de certos laços e de alguns vasos sanguíneos.

Certos mistérios deviam permanecer mistérios, porque faz parte não saber o que aqueles olhos bonitos escondem, o que se passa naquela cabeça mais dura que pedra, a crise nas bolsas e o esmalte dos dentes, quais as conseqüências daquela conversa que começou inesperada ou de que maneira Deus (ou não) criou o Universo.