pequeno dicionário para o ano que começou

A
Alongamento, para começar
Arrumações, literais ou simbólicas
A vida em seus métodos diz calma.

B
Blog, ano 14
Basquete enquanto escrevo
Beleza pura [tudo é chique demais, tudo é muito elegante]

C
Condições naturais de temperatura e pressão, por favor
Cuidar do corpo, cotidianamente
Caranguejo e amendoim não pode

D
Doar, apesar das faltas
Descansar, apesar das obrigações
Dançar, apesar das dores

E
Equilíbrio no pensar
Equilíbrio no querer
Equilíbrio no fazer

F
Forno e fogão
Fé, uma vez mais [que a fé não costuma faiá]
Força para seguir adiante

G
Girassóis
Gengibre com limão, hortelã, erva doce e, antes de dormir, camomila
Guinga, Egberto, Donato, Tim, Tom, Elis, Chico, Gil, Aldir…

[Gosto quando anoitece que só vendo]

H
Há de ser
Há de haver
Há de passar

I
Invenções
Inspirações
Inovações

J
Jardinagem
Janelas abertas
Jeitinho brasileiro não dá

K
Kind of Blue
Kind of Magic
Kind of Books

L
Livro novo, quem sabe
Lápis
Livres como aqueles do poema: ser livre é escolher ao que se prender

M
Música toda hora
Machado, Gabito, Carmélia, Clarice, Borges, Cortázar, Drummond, Rubem, Rosa…
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo [mantra!]

N
Nós desatados
Nós, firmes e fortes
Na rua, na chuva, na fazenda

O
O que disse o professor: “Estude seu viver, observe sua deriva”
O que disse o compositor: “Deixemos de coisa e cuidemos da vida, se não chega a morte ou coisa parecida e nos arrasta moço sem ter visto a vida”
O que disse o poeta: “O preço do feijão não cabe no poema”

P
Pare, repare
Prepare-se para o melhor, espere pelo pior [ou crie peixes, plantas ou o que convier mas não crie expectativas]
Posso tudo, mas nem tudo me convém.

Q
Quereres
Quitanda
Quando pessoas viram coisas cabeças viram degraus.

R
Reinvenções
Reencontros
Recomeços

S
Sementes
Serenidade
Sidarta [Herman Hesse, a primeira releitura do novo ano]

T
Tom maior, sempre que possível
Textos, porque eles são como o ar que produz pequenas felicidades
Then you can start to make it better

U
Uma coisa de cada vez, os pensamentos a seu tempo
#umaboanovapordia [projeto para qualquer dia]
Ubuntu

V
Virar a página
Virar o disco
Virar o bicho, quando for preciso

W
White, E.B., uma vez mais: “Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis”.

X
Xilografar [quem sabe…].

Y
Ybytu, Y e Yby [do tupi-guarani: vento, chão que se pisa e água]

Z
Z, o conjunto dos números inteiros
Zeitgeist, o espírito do tempo em que vivemos
Zarpar quando for preciso, como antes.

refazenda

Foi um ano difícil. Para mim, para muitos dos meus queridos, para o futuro do país e até para os otimistas, terminou um período extenuante, que exigiu doses extras de entusiasmo e esperança. O que é preciso lembrar, em tempos assim, até que as coisas uma vez mais se acalmem: que pequenos hábitos repletos de sentido são uma ótima saída para atravessar dias de desesperança.

Reinventar o cotidiano, escrever, pedalar, caminhar pela feira à procura de frutas frescas, cozinhar o que houver à mão, organizar as gavetas, escolher as leituras seguintes, regar as plantas disciplinadamente, estar com os afetos mais fundos simplesmente porque sim… Mais do que nunca, em tempos assim, é preciso rever o elo muitas vezes perdido entre nós e nós mesmos.

Reinventar a si mesmo, varrer as folhas que o outono deixou para trás, por em prática as receitas herdadas da velha avó, sorver a arte, respirar diante da maldade alheia e dos equívocos, ouvir como Tamina, a personagem ligeiramente invisível do romance a respeito da insustentável leveza do ser… Em tempos assim, mais do que nunca, é preciso rever o elo perdido entre nós e nós mesmos.

As durezas foram muitas. Desencontros, desencantos, dívidas, decepções com gente que a gente considerava um bocado, expectativas desfeitas e escolhas duvidosas atropelam o caminho que queríamos fosse de levezas, compreensões e suavidades.

Às vezes o corpo adoece. A coluna enverga. A cabeça dói, o nariz entope, os olhos denunciam o desconforto que vai dentro. Os intestinos travam, o estômago arde, o fígado embrulha inteiro. Meio bilhão de neurônios e mais de 30 neurotransmissores voam em queda livre, como fossem intestinos, estômago, fígado e adjacências, de fato, o segundo cérebro de que falavam os pensadores orientais.

Num esforço contrário, o espírito pede calma. O exercício tem de ser constante, despertar a lembrança dos tempos de paz, reacender a memória dos lugares de harmonia, voltar à natureza das coisas puras, trilhar uma vez mais o caminho do essencial, de estar próximo do que nos emociona e dispensar o resto, seguir as verdadeiras intenções, a ideia central, a razão principal, o mais alto grau de importância, apesar das decepções, das dissimulações e das expectativas desfeitas.

[O essencial, no fim das contas, tem a ver com ter foco, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Por difícil que seja – e cada um de nós é que sabe de si e dos seus nós -, seguir um pouco adiante, devagar e constantemente, a despeito das dores, das perdas, das dificuldades e dos profundos desapontamentos, continua sendo o caminho mais indicado para os dias em que, como hoje, a vida pede refazenda.